a dignidade da diferença
03 de Agosto de 2011

Através do testemunho cru e impressionante de gente comum que viveu os anos de terror de Estaline, o historiador britânico Orlando Figes consegue, no extraordinário Sussurros, A Vida Privada na Rússia de Estaline (já anteriormente referido neste blog), retratar a natureza odiosa, cruel e brutal de um regime alimentado pela demência do seu líder, pela cumplicidade de todo o aparelho partidário e pelo medo que a polícia política causou a um número impressionante de inimigos do povo, destruindo qualquer tipo de relações humanas. Felizmente, muitos deles sobreviveram para contar os anos de sofrimento, de coragem, de denúncias e do terror que lhes foi infligido. Fica aqui um dos exemplos mais comoventes que regista a marca da brutalidade de um regime que só a estupidez ou a ignorância conseguem legitimar.

 

 

O marido de Liza foi preso por ser apoiante de Zinoviev (…) e a seguir também ela foi presa. Certo dia, Liza recebeu uma carta de Zoia; a carta chegou-lhe às mãos num sábado, o dia em que os prisioneiros estavam autorizados a escrever cartas, justamentequando ela estava a escrever à filha. «Querida Mamã, tenho quinze anos e estou a pensar em entrar para o Komsomol. Tenho de saber se és culpada ou não. Penso constantemente como é que tu podes ter atraiçoado o poder soviético? Tínhamos uma vida tão boa, e tu e o Papá eram operários. Lembro-me muito bem da vida que nós tínhamos. Tu fazias-nos vestidos de seda e compravas-nos doces. Eram mesmo “eles” (os inimigos do povo) que te davam esse dinheiro? Teria sido melhor andarmos vestidas de algodão. Mas se calhar não és culpada. Nesse caso, não adiro ao Komsomol, e nunca lhes perdoarei o que te fizeram. Mas, se és culpada, vou deixar de te escrever, porque amo o nosso governo soviético e odeio os nossos inimigos e, se fores nossa inimiga, também te odeio a ti. Mamã, diz-me a verdade. Preferia que não fosses culpada, e nesse caso não entro para o Komsomol. A tua filha que se sente muito infeliz, Zoia.» Liza já tinha usado três das quatro páginas que estava autorizada a escrever à filha. Reflectiu por momentos e a seguir encheu a quarta página com grandes letras maiúsculas, dizendo-lhe o seguinte: Zoia, tens razão. Sou culpada. Entra para o Komsomol. É a última vez que te escrevo. Sê feliz, tu e a Lialia. Mãe. Liza mostrou a correspondência a Olga e a seguir bateu com a cabeça na mesa; depois, com a voz embargada pelas lágrimas, disse-lhe: «É preferível que ela me odeie. Como é que ela podia viver sem o Komsomol? Seria uma estranha. Passaria a odiar o poder soviético. É preferível que me odeie a mim.»

publicado por adignidadedadiferenca às 13:00 link do post
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