a dignidade da diferença
26 de Outubro de 2010

 

 

O confronto ideológico não resolve actualmente muitos problemas, sobretudo porque assenta em meias verdades e cada uma das partes se contenta em criticar os pontos de vista da outra, prejudicando a muito mais necessária procura de uma solução. Mas será que não serve para absolutamente nada? Talvez não. Vejamos pois o caso destes dois cronistas do semanário Expresso e o teor das suas crónicas do passado fim-de-semana.

Daniel Oliveira escreve «Agora sim, vamos poder ver as maravilhas do Estado Mínimo que nos andam a vender há anos. Quando faltarem polícias na rua, não resmungue. Quando não houver meios para combater os fogos, não se indigne. Quando as escolas e creches fecharem, as universidades se transformarem em depósitos ainda mais inúteis e não houver gente qualificada para trabalhar em lado nenhum, sorria. Quando fecharem os centros de saúde e comprar medicamentos para ficar vivo for um luxo, não se apoquente. Morra sabendo que o Estado sempre foi o culpado de todos os nossos males. E maravilhe-se com a sua elegância depois de uma boa dieta. O que me espanta, o que sempre me espantou, é haver tantos, entre os que devem à maternidade pública o seu nascimento seguro, à escola pública quase tudo o que sabem, à universidade pública a sua ascensão social e cultural, ao Estado a sua segurança e ao hospital público a sua sobrevivência, a pedirem o seu emagrecimento. Uns são apenas egoístas: garantida que está a sua condição, os outros que façam pela vida. Outros são só parvos. Esses vão ver agora como elas mordem.»

Daniel Oliveira parece estar cheio de razão. Contudo, limitou-se a focar os aspectos positivos do Estado social. Esquece-se de explicar como é que chegámos onde chegámos, onde é que se arranja dinheiro para os gastos excessivos da Administração Pública, quando estamos à beira da bancarrota. E já nem falo dos contratos ruinosos para o Estado que os nossos governantes têm celebrado, nem a péssima gestão nas parcerias público-privadas. Não será melhor repensarmos o Estado social para não perdermos tudo o que de bom conquistámos? Será que Daniel Oliveira não compreende que a falência do Estado-providência não só é financeira, como ainda está em causa o próprio paradigma de intervenção social, nomeadamente após a derrocada dos modelos conhecidos?

 

 

Marcado por uma fortíssima tendência liberal, Henrique Raposo sublinha «Sim, os cortes na função pública serão injustos para muita gente. Sim, muitos funcionários públicos, do polícia ao médico, não mereciam esta sorte. Mas este corte cego apareceu no horizonte, porque nunca houve coragem para separar o trigo do joio. Ou seja, os ministérios nunca separaram os “indispensáveis” dos “dispensáveis”. E este é o acto político que está por realizar: para protegermos os funcionários públicos indispensáveis e os serviços nucleares, nós temos de dispensar os funcionários-que-estão-a-mais e fechar os serviços-que-não-passam-de-tachos. Em 2011, o polícia, o enfermeiro, o médico e o funcionário dos impostos serão injustamente penalizados, porque os políticos não tiveram coragem para dispensar os milhares de funcionários-que-estão-a-mais. (…) Se esta reestruturação política do Estado não for feita, seguir-se-ão novos cortes cegos, e os justos pagarão pelos pecadores. (…) Num Estado mais seco, o trigo não é confundido com o joio e, por isso, é mais protegido e mais acarinhado financeiramente. Em segundo lugar, a requalificação do Estado é a melhor forma de protegermos a tal justiça social.»

A posição de Henrique Raposo é francamente defensável e, confesso, estou disposto a partilhá-la, mas só até certo ponto. Pois não estará o cronista a esquecer-se que a liberdade individual e a concorrência económica não conduziram propriamente ao melhor dos mundos, mas sim a um mundo de tremendas injustiças, designadamente as provocadas por uma descontrolada exploração social que se traduziu numa degradante e revoltante condição humana onde a dignidade de uma relevante massa humana desceu a níveis insuportáveis? 

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