a dignidade da diferença
12 de Dezembro de 2016

 

hell or high water.png

 

Hell Or High Water (Custe o que Custar), de David Mackenzie, vale pela destreza de uma história bem contada, acerca de dois irmãos que se tornam assaltantes de bancos para salvar um rancho da família hipotecado e de um xerife (interpretado por Jeff Bridges) à beira da reforma que os persegue, sustentada pela solidez e inspiração de um argumento engenhoso (escrito pelo promissor Taylor Sheridan), e serve de pretexto para uma visão desencantada do mundo, em que sobressai a agilidade e a secura de uma câmara que se apega com naturalidade a personagens de carne e osso, bem como à paisagem deserta que os envolve, movimentando-se com desembaraço num clima de progressiva tensão, compondo um determinado tipo de cinema que recebe a herança marcante de Sam Peckinpah, reinventando um método capaz de dosear de forma equilibrada mas apaixonada, sangue, drama, violência e acção, com banda sonora a condizer. Eis uma das boas surpresas do ano.

 

 

14 de Fevereiro de 2008

Tenente Blueberry, de Giraud e Jean-Michel Charlier

 

 

Mais uma demonstração eloquente da relação directa entre BD e cinema, neste caso, com a criação de uma das mais consistentes e duradouras aventuras passadas no oeste americano.

 

 

 

Blueberry, um herói individualista e um militar rebelde, juntamente com Red Neck, McClure e Chihuahua Pearl, formam, com os índios e mais uns quantos seres solitários, um conjunto de excêntricas e raras personagens - a quem é atribuída uma dignidade fora do comum, como se pode ver, por exemplo, nas pranchas onde aquelas se destacam num fundo branco (ou ausência de cenário) -, apoiadas, quase sempre, num argumento fabuloso, nada habitual nas «histórias aos quadradinhos».

 

 

 

O talento dos autores cria uma obra com a dimensão da mitologia do western americano, seja nos textos e nos diálogos soberbos de Charlier, num estilo que lembra, por vezes, a secura e a crueza do film noir, seja no realismo e rigor gráfico de Giraud, clara e profundamente cinematográfico, caracterizado, como se pode constatar, pela influência do espaço Fordiano (o Monument Valley), pelas paisagens desertas e agrestes do território mexicano, pelo esplendor do cinemascope

 

 

 

e pela violência própria do western-spaghetti.

 

 

 

Com muitos e muitos volumes publicados, uma obra admirável para ser lida e apreciada lentamente, arrumando-se, por fim, junto aos verdadeiros clássicos (do cinema ou da literatura).

publicado por adignidadedadiferenca às 20:40 link do post
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