a dignidade da diferença
12 de Julho de 2012

 

Reedição (para já, parcial) da obra de José Afonso. Sinais inequívocos de inconformismo e evolução estética, compromisso político (pontualmente excessivo e algo datado), escrita poética, surrealismo e uma ironia do mais fino recorte técnico. Trata-se, no fundo, de uma renovada e plena demonstração da sua capacidade vocal e intuição melódica, de uma visão artística sem fronteiras e, sobretudo após o extraordinário golpe de asa iniciado com o genial Cantigas do Maio (enriquecido pela cumplicidade e pelos soberbos arranjos musicais de José Mário Branco) - cujo contributo para a história da música portuguesa apenas será igualado, naquela época, pela personalidade e matriz individual das obras iniciais de Carlos Paredes, José Mário Branco e Sérgio Godinho ou pela sublime Amália do período Alain Oulman -, um magistral e absolutamente perfeito domínio das características fundamentais e da estrutura formal de uma canção. Venha agora o resto da obra, correspondente à fase mais afirmativa e genial da sua carreira, da qual merece particular destaque a perfeição de Venham Mais Cinco e o menos valorizado mas não menos inventivo Como Se Fora Seu Filho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

26 de Março de 2011

 

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades (1971), José Mário Branco

 

 

No momento em que uma geração genericamente mal preparada para enfrentar os desafios laborais e sociais decide, no meio das ainda assim legítimas aspirações e dos inevitáveis protestos, abraçar a ligeireza e a vulgaridade dos Deolinda e de Os Homens da Luta, não há nada como revisitar os autores genuínos, isto é, aqueles que, de facto, quebraram as regras estabelecidas até então, foram inventivos, pioneiros, ousados e resistentes, deixando-nos uma fabulosa herança musical. Acima de todos estiveram, como hoje pacificamente já se reconhece, José Mário Branco, José Afonso e Sérgio Godinho. O disco que vos trago à memória é do primeiro e chama-se Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades. Em 1971, José Mário Branco inicia, com Cantigas do Maio e Os Sobreviventes, de José Afonso e Sérgio Godinho, respectivamente, uma fase superior da canção popular. Para trás ficavam as baladas monocórdicas e rudimentares, instantaneamente envelhecidas no confronto com uma música nova, onde se explora e se dá uma importância fundamental às ferramentas do som. As palavras mordazes e irónicas sobre o medo, a opressão, a guerra, a resistência, o exílio, a ditadura, envolvem-se num grafismo sonoro prodigioso que consiste numa fusão natural da música erudita com o jazz, na exploração timbríca e harmónica das guitarras eléctricas, dos baixos sinuosos, da expressividade vocal, criando uma atmosfera densa e sombria, aqui e ali metálica, que se reflecte numa construção musical riquíssima em tonalidades onde cabe um pouco de tanta coisa: as canções heróicas de Lopes Graça, o minimalismo, a tradição popular, os poemas do genial O’ Neill ou de Natália Correia, a chanson française ou o aroma tropical sul-americano. Fica como exemplo maior deste corpo iluminado a previsão do que aí vinha na lucidez extrema de «quanto a nós/nós cantores da palidez/nosso canto nunca fez/filhos sãos a uma mulher/nem sequer/passa mel nos nossos ramos/pois a abelha que cantamos/será mosca até morrer». Um disco perfeito.

 

 

03 de Janeiro de 2010

 

Dois mil e nove foi um ano de boa colheita para a música nacional. Por uma vez foi possível fazer uma lista com doze discos de qualidade - como se fosse um por cada mês de calendário - e ainda ficaram uns quantos de fora. Voltará a repetir-se?

 

Uma Autora 202 Canções, Amélia Muge

 

B Fachada, B Fachada

 

Cacique'97, Cacique'97

 

Kronos, Cristina Branco

 

Joana Carneiro/Orquestra Gulbenkian/Tchaikovsky, Joana Carneiro

 

Muda Que Muda, João Coração

 

Três Cantos Ao Vivo, José Mário Branco/Sérgio Godinho/Fausto

 

Assim Falava Jazzatustra, Júlio Resende

 

Meio Disco, Os Quais

 

Tasca Beat - O Sonho Português, OqueStrada

 

Luminismo, Ricardo Rocha

 

Nem Lhe Tocava, Samuel Úria

 

06 de Dezembro de 2009

 

A ausência tem sido longa e o tempo é cada vez mais curto, mas aproveito este espaço para vos recomendar algumas das minhas últimas escutas musicais.

Em primeiro lugar, As 7 Últimas Palavras de Cristo na Cruz, onde o génio de Haydn é filtrado por um classicismo rigoroso e pela absoluta emoção interpretativa da Orchestra Of The Eighteenth Century dirigida pelo lendário Frans Brüggen.

 

Uma leitura igualmente notável de Jordi Savall

 

Tom Waits regressa, em Glitter And Doom, com a sua trupe de saltimbancos sonoros e oferece-nos mais uma gravação ao vivo irrepetível acompanhada por uma versão extraordinária de Dirt In The Ground.

 

Dirt In The Ground

 

The Unthanks (das irmãs Rachel e Becky) estabelecem um novo paradigma para a música folk contemporânea no novíssimo Here’s The Tender Coming, que só surpreende quem nunca escutou o anterior e magnífico The Bairns.

 

The Testimony of Patience Kershaw

 

Para o final ficam as obras nacionais. O pianista Júlio Resende destaca-se com um belo, enérgico e, por vezes, silenciosamente contemplativo disco de jazz. Um músico a merecer atenção nos próximos trabalhos.

 

Boom!

 

Foi, finalmente, editada em CD e DVD duplos, a recente reunião ao vivo dos três sobreviventes – para usar uma expressão feliz do crítico João Lisboa – da música popular portuguesa: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto. Três Cantos Ao Vivo serve, sobretudo, para compensar aqueles que não puderam estar presentes nos referidos concertos.

Foi um belíssimo espectáculo assinado por três músicos talentosos que evitaram superiormente os perigosos saudosismos que, muitas vezes, ficam associados a este tipo de «celebração». Apenas um reparo para a não inclusão, pelo menos no DVD, da totalidade das canções interpretadas.

Fiquem bem.

 

Trailer do espectáculo

 

 

27 de Julho de 2008

 

O assunto não é vital para as nossas vidas nem precisamos dele como do pão para a boca, mas depois da triste figura que a revista Visão fez na entrevista com Lou Reed, agora é a vez do semanário Expresso dar um pontapé na música portuguesa.

Na página 16 do primeiro caderno do jornal, no espaço dedicado ao Exame Prévio, surge uma pequena coluna intitulada «De alto a baixo» e que vou transcrever na íntegra:

 

 

Um álbum de Sérgio Godinho

“Um disco verdadeiramente indispensável para ouvir em tempo de férias (ou não)”.Pedro Pyrrait escrevia sobre o segundo álbum de Sérgio Godinho, ‘Os sobreviventes’. (!!!) O primeiro ‘Pré-histórias’, (!!!) “foi retirado da venda pública”. O crítico chamava “a maior atenção para as três mais belas composições deste álbum: “Barnabé”, “Pode alguém ser quem não é” e “A noite passada”, onde a pungente interpretação vocal e a viola dolente transportam as palavras de Sérgio do Douro ao Tejo (‘a noite passada acordei com o teu beijo, descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo’)”. (a isto só posso chamar crítica musical embalsamada!) Nada saiu.

 

 

E ainda bem. Até hoje é consensual dizer-se que Cantigas do Maio de José Afonso, Mudam-se os tempos mudam-se as vontades de José Mário Branco e Os sobreviventes de Sérgio Godinho (todos gravados em 1971, embora o último só tenha saído no ano seguinte) foram os álbuns fundadores de uma nova e exigente forma de abordar a música popular portuguesa, dando tanta importância à qualidade dos textos como à substância musical. Há, até, quem, ainda hoje, persista no equívoco de lhes querer juntar o disco de Adriano Correia de Oliveira Gente de aqui e de agora, mas esse só com muito boa vontade ficará registado no que a música portuguesa nos ofereceu de memorável.

Ficámos agora a saber que, afinal, nos andaram a trocar as voltas todas. Afinal SG já se tinha adiantado aos colegas e assinado, nos seus antípodas, Pré-histórias (em que ano, já agora, terá sido editado?) revelando, mais tarde, uma estranha e bizarra opção pela reedição do disco quase imediatamente a seguir a Os sobreviventes.

Ainda por cima o jornal está cheio de gente competente na área da crítica musical. O que eles devem ter gozado...

De repente, não sei porquê, apeteceu-me ouvir o Barnabé.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:59 link do post
19 de Maio de 2008

 

 

Por causa de «Retrovisor, uma biografia musical de Sérgio Godinho» da autoria de Nuno Galopim, que ando a ler, descobri o que, nas palavras de Sérgio Godinho, revolucionou a canção francesa nos anos 30 (do século XX) e influenciou, entre outros, Leo Ferré, Brassens e os geniais Gainsbourg e Jacques Brel.

 

L'âme des poètes

publicado por adignidadedadiferenca às 00:30 link do post
25 de Abril de 2008

 

 

 

 

 

Na música portuguesa, a revolução fez-se em 1971 com «Cantigas do Maio» de José Afonso, «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» de José Mário Branco e «Os sobreviventes» de Sérgio Godinho. Foi aqui que nasceram outras ferramentas para o som. Mais uma vez, a música à frente do país... 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:04 link do post
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