a dignidade da diferença
09 de Novembro de 2016

 

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Nós ensinamos a guerra.

Nós construímos a destruição.

Estamos todos muito orgulhosos dos nossos pais,

edificaram um império

com o fio de prumo da espada

e as roldanas ergueram as cabeças tenras nativas

como torrões levantados do solo,

recebendo cartas de aplauso

e terras de comendas,

lavrando solos e espevitando os campos

com o adubo da cinza mortuária.

 

Quando observo o lento corrimão da história,

filhos meus, sou renitente a deslizar a mão

seja para subir seja para descer,

e inglório me estaco no degrau pungente de mim mesmo

e acendo uma luz tíbia de náufrago

na grande escadaria da noite,

mar crespo

colapso dos meus pés enfim perdidos.

Excerto de «Dos Fuzilamentos da Montanha do Príncipe Pío»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
10 de Janeiro de 2016

 

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não me amputaram as pernas nem condenaram à fôrca,

não disseram de mim:

ele inventou a rosa,

contudo quando acordei a minha mão estava em brasa,

contudo escrevi o poema cada vez mais curto para chegar mais depressa,

escrevi-o tão directo que não fosse entendido,

nem em baixo,

nem em cima,

nem no sítio do umbigo que se liga ao sangue impuro,

nem no sítio da boca onde se nomeia o sopro,

e ficou assim:

económico, íntimo, anónimo

ou:

chaga das unhas cravadas na carne irreparável

Herberto Helder, in Servidões 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:38 link do post
03 de Novembro de 2015

 

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Após ler os magníficos e inquietos 100 poemas de Emily Dickinson -na edição bilingue a cargo da Relógio d’Água -, e embora sabendo que a intenção do seu autor não seria com toda a certeza essa, a discrição que Emerson faz, em 1860, da poesia de Dickinson – como se pode verificar neste excerto da Tábua Cronológica, organizada por Ana Luísa Amaral - parece-me sinceramente um tremendo elogio: «Após haver lido quatro poemas de Dickinson (dois publicados e dois enviados por Helen Hunt Jackson), Emerson escreve na revista Dial, a principal publicação dos Transcendentalistas: “Uma tal Miss Dickenson [sic] escreve versos como se estivesse ameaçada por febres.»

10 de Maio de 2015

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Folheada, a folha de um livro retoma

o lânguido e vegetal da folha folha,

e um livro se folheia ou se desfolha

como sob o vento a árvore que o doa;

folheada, a folha de um livro repete

fricativas e labiais de ventos antigos,

e nada finge vento em folha de árvore

melhor do que vento em folha de livro.

Todavia a folha, na árvore do livro,

mais do que imita o vento, profere-o:

a palavra nela urge a voz, que é vento,

ou ventania varrendo o podre a zero.

 

Silencioso: quer fechado ou aberto,

inclusive o que grita dentro; anônimo:

só expõe o lombo, posto na estante,

que apaga em pardo todos os lombos;

modesto: só se abre se alguém o abre,

e tanto o oposto do quadro na parede,

aberto a vida toda, quanto da música,

viva apenas enquanto voam suas redes.

Mas apesar disso e apesar de paciente

(deixa-se ler onde queiram), severo:

exige que lhe extraiam, o interroguem;

e jamais exala: fechado, mesmo aberto.

João Cabral de Melo Neto, A Educação Pela Pedra

 

29 de Março de 2015

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Rara e magnífica associação de música e poesia, Entre Nós e as Palavras, obra gravada em 1995 pelos músicos que constituem o grupo Os Poetas (alguns deles vieram dos Madredeus originais), trouxe para a luz do dia a soberania das vozes e das palavras de verdadeiros poetas: António Franco Alexandre, Al Berto, Mário Cesariny, Herberto Helder e Luísa Neto Jorge. Se provavelmente escapará a poucos que cada um dos poemas já possui naturalmente a sua dinâmica, o seu próprio ritmo, andamento, espaço ou respiração, o grupo encontra neste exercício de articulação com uma música de câmara minimalista, de bela e delicada textura, com as suas pausas e vibrações, os seus compassos, andamentos ou repetições, pretexto para aprofundar o significado das palavras, ampliar a sua dimensão, conferir uma ajustada teatralidade e intensidade, bem como partilhar com o seu semelhante as alucinações e fragilidades, o novelo de fúria e inquietação, a magia e a solidão dos poetas. Um disco único e magnífico, onde sobressai simultaneamente uma diversidade e uma unidade estilística, enriquecendo, por um lado, o vocabulário dos seus autores e evitando, por outro, que este se disperse desnecessariamente.

 

 

13 de Dezembro de 2014

daniel jonas.png

 

TANGENTE MÃO, PRELÚDIO DE UM BEIJO,

Ancinho que perpassa branda terra,

Leveza que alivia dura guerra,

Pureza que me rasas e eu desejo,

Tangendo se me tocas eu me envolvo

Como um bicho de conta que se anilha

E roda de brincar se faz, ervilha

Nas mãos de uma criança, adstrito polvo.

Ó nome que és na boca apertado,

Estreiteza que me cinge e me reduz,

Amálgama de bicho e sóror luz,

Ó silfo que és sentido e não pesado!

À letra tu me levas e te trazes

Ó deusa, e se és não deusa em mim te fazes.

Daniel Jonas,

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:32 link do post
02 de Fevereiro de 2014

Incluído numa recolha de poemas dispersos dos anos 70, do século XX, publicada já num período de completo amadurecimento estilístico do seu autor, Pornocine é aqui recordado como um fiel e conseguido exemplo da poesia feroz, comunicativa, inesperada, solta e obstinada de Alexandre O’Neill; autêntico canto maior da nossa literatura. Em suma, um testemunho feliz de uma escrita rica e complexa, uma linguagem nova, avessa ao conforto e às boas maneiras, plena de contradições, desencantos e portentosas invenções formais (uma coisa em forma de assim…), que merece um lugar único e privilegiado na história da poesia portuguesa e da sua modernidade, e não esse imperdoável e vil esquecimento a que injustificadamente tem sido votada mais recentemente.

 

 

Ah, deixem-se de abraços e de beijos,

de grandes planos de frentes e traseiros!

Não se lambam sob a luz cruenta

dos projectores.

Poupem-nos a essas cópulas

tecnicolores.

Na posição de «o missionário», denegrida,

ainda se move muita gente, muita vida.

                                       

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

A gratificação oral, que põe os olhos

do homem iguais aos do carneiro

mal morto,

é barco balanceiro

que encontra, no cinema, alguns escolhos,

por isso não se pisam os canteiros

ao entrar em tal horto.

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

Das cruas sodomias

pé ante pé a câmara se aproxima.

Por ângulos interessantes,

quase espiritualizam os amantes.

Bertolucci emprega a margarina

no seu escabroso edificante.

Porém, lambe de mais o filme,

lambe de mais a cria,

e é assim – clássico! – que já está na estante…

 

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

Mais corajoso – e feio – o Pasolini serve-se

do amor com truculência, verve

e poucas ilusões.

Nele, a fornicação é quase sempre assalto

a privilégios.

Talvez por isso não mandem os colégios

Ver as suas sessões…

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

De modo que a câmara aguenta

mais depressa a velatura que a franqueza.

Para que Eros durma em nossa casa

É preciso saber abrir-lhe a cama

E pôr-lhe a mesa…

 

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana,

                                        eroturismo à portuguesa!

26 de Outubro de 2013

 

 

Revistos pelo seu autor em 1969, o conjunto dos poemas de Jorge Luis Borges reunidos nas obras O Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte e Caderno San Martin, escritos na sua juventude, foram recentemente publicados pela Quetzal no primeiro volume da sua Obra Poética. Não conseguindo esconder, aqui e ali, algumas marcas da inocência e do excesso de convicções próprios da juventude, os poemas do genial escritor argentino, depois de minuciosamente depurados, isto é, devidamente limados nos seus excessos ou extravagâncias formais, libertados de tudo o que é supérfluo e afastados na medida correta os inconvenientes da sobrecarga de sentimentalismo, não desonram, contudo, o seu autor e revelam até, no seu melhor, a originalidade, o lirismo, o prazer do exercício intelectual, a sabedoria, a serenidade ou a plasticidade da sua escrita, e ainda um par de outras características modernistas do autor, facilmente reconhecíveis no período áureo da sua criatividade e maturidade estética cuja estrutura metafísica convoca para o seu universo literário alguns dos grandes temas universais. Deixo-vos, como exemplo, o poema Manuscrito Achado Num Livro de Joseph Conrad, traduzido por Fernando Pinto do Amaral.

 

 

Nas terras que estremecem com o ardor estival,

O dia é invisível, puro e branco. O dia

é uma estria pungente numa gelosia,

uma febre no plaino, um fulgor litoral.

 

Porém, a antiga noite é funda como um jarro

de água côncava, aberta a infinitos sinais,

e em canoas, perante as estrelas fatais,

o homem mede o vago tempo com um cigarro.

 

Com o fumo desvanecem-se as constelações

remotas. O imediato perde história e nome.

O mundo é umas quantas vãs imprecisões.

O rio, primeiro rio. O homem, primeiro homem.

19 de Outubro de 2013

 

 

Dos lugares que os homens criaram para se abrigar, o café é o que mais rua tem. Por isso, Mário Cesariny gostava tanto de cafés. Aí, sentia-se onde a poesia estava, onde «sempre esteve». Aí, lembrando Lautréamont, podia fazê-la em comum. Foi em cafés que escreveu os poemas. Foi em cafés que conversou com os amigos e até com os inimigos. Foi em cafés que fitou os corpos com um olhar que os tornava mais visíveis. Era nos cafés, e no que eles tinham de rua, que se sentia verdadeiramente em casa. Cafés cheios de fumo e de fadiga e de fuga e de fúria. Cafés onde se estava porque não havia sítio melhor para estar. Cafés que resumiam o seu entendimento da vida: café-manicómio, café-convés, café-asilo, café-escritório, café quase salão e, pois claro!,  café-de-engate. Viciado em cafés, nunca o vi aí tomar um café. Pedia uma água mineral e, muitas vezes, usava-a para lavar as mãos, porque desconfiava que, depois de bebida, a garrafa era enchida pelo dono da casa. Ria e, enquanto a vertia nos dedos em ablução ritual, olhava à volta para a «malandragem» que habitava as mesas e exclamava: «A água é a única coisa que não é de confiança neste café». Nos tempos gloriosos do grupo surrealista, era nos cafés (Herminius, Royal, Gelo) que se incendiavam a eles próprios e era a partir dos cafés que queriam incendiar o mundo. Depois, toda a sua vida foi vivida, nocturnamente, em cafés, até que os cafés acabaram e ele começou a acabar como eles.

José Manuel dos Santos, O Espelho Vazio

30 de Setembro de 2013

 

Embora tardia, deixo-vos aqui a minha derradeira homenagem ao poeta, ensaísta e tradutor António Ramos Rosa (1924-2013), Prémio Pessoa em 1988, e à sua magnífica e duradoura obra, enraizada numa persistente procura de um espaço livre e focada numa angústia existencial amarrada ao absurdo da vida. Um autor imenso cuja trajetória literária exibe um distanciamento e um assinalável desprezo pela vida, envoltos num mundo inesgotável de interrogações e variações estéticas, seladas pela energia, pela complexidade e pelo aperfeiçoamento da palavra. Quase Nada ou Nada, poema publicado em 1979, é um exemplo feliz do percurso estético e literário que, muito resumidamente, vos acabei de descrever.

 

 

Por quase nada ou nada

que junção de alegria corpo e terra

que mão sobrou entre as ruínas

que braço ainda respira sobre as pedras?

Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?

Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?

 

Ainda dirias aqui a sombra azul?

Que mulher te acompanha até ao muro?

Isto é um mar ou um nome sem espessura?

 

Por quase nada, uma sombra apenas,

uma sombra de quê, breve horizonte, altura

ou boca unida ainda à árvore obscura

ou só a mão que sobra entre ruínas.

 

Por nada eu te diria,

Por um espasmo de frescura nas palavras,

ó voz entre formigas,

ó forma de desejo já perdida,

ó junção da terra ao corpo em que respiras!

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:10 link do post
30 de Junho de 2013

 

 

A arquitetura como construir portas,

de abrir; ou como construir o aberto;

construir, não como ilhar e prender,

nem construir como fechar secretos;

construir portas abertas, em portas;

casas exclusivamente portas e teto.

O arquiteto: o que abre para o homem

(tudo se sanearia desde casas abertas)

portas por-onde, jamais portas-contra;

por onde, livres: ar luz razão certa.

 

Até que, tantos livres o amedrontando,

renegou dar a viver no claro e aberto.

Onde vãos de abrir, ele foi amurando

opacos de fechar; onde vidro, concreto;

até refechar o homem: na capela útero,

com confortos de matriz, outra vez feto.

João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra

15 de Junho de 2013

 

Axes

After whose stroke the wood rings,

And the echoes!

Echoes travelling

Off from the centre like horses.

 

The sap

Wells like tears, like the

Water striving

To re-establish its mirror

Over the rock

 

That drops and turns,

A white skull,

Eaten by weedy greens.

Years later I

Encounter them on the road –

 

Words dry and riderless,

The indefatigable hoof-taps.

While

From the bottom of the pool, fixed stars

Govern a life.

 

 

Machados,

Após cada pancada sua a madeira range,

E os ecos!

São ecos que viajam

Do centro para fora como cavalos.

 

A seiva

Brota como lágrimas,  como a

Água a esforçar-se

Por recompor o seu espelho

Sobre a rocha

 

Que pinga e se transforma,

Uma caveira branca

Comida pelas ervas daninhas.

Anos mais tarde

Encontro-as no caminho –

 

Palavras secas e indomáveis,

Infatigável som de cascos no chão.

Enquanto

Do fundo do charco estrelas fixas

Governam uma vida.

Sylvia Plath, Ariel. Tradução de Maria Fernanda Borges

publicado por adignidadedadiferenca às 20:21 link do post
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