a dignidade da diferença
30 de Agosto de 2014

 

 

Não será fácil recriar a música de um génio da estirpe de Miles Davis. Porém, paradoxalmente, talvez por causa da excelência do seu universo musical, a tentação tem sido grande. Nos melhores exemplos, a reinterpretação cumpre o seu papel; contudo, não obstante o seu brio, nunca consegue suplantar uma música inventada previamente. Mas com Joe Henderson, em 1993, o resultado foi diferente. Observando detalhadamente a anatomia musical de Miles Davis, Henderson assimila integralmente o espírito do mestre, explora as suas formas e substância musicais até ao osso, os seus estímulos, inquietações ou contradições, e tempera-os com uma dose equilibrada e vibrante de lirismo, acuidade rítmica, improvisação, sentido arquitectónico e intensidade melódica. Recorrendo a um quarteto - formado por si, John Scoffield, Dave Holland e All Foster -, Joe Henderson introduz novas e inesperadas gradações na estrutura musical dos standards de Miles - aqui e ali pontuados por uma assinalável contenção sonora, onde nada é supérfluo -, conquista uma liberdade estética que outros não conseguiram, conduzindo-os amiúde até ao mais absoluto silêncio. Decorridas duas décadas, So Near, So Far não ganhou uma única ruga e é, ainda hoje, um álbum rigorosamente essencial.

 

12 de Janeiro de 2012

  

 

Há música de que gostamos muito mas da qual, por falta de tempo ou de espaço, não tivemos oportunidade de falar na devida altura, ou seja, no momento em que se deu a conhecer ao mundo. Este disco de Bugge Wesseltoft, intitulado Playing, já é de 2009 – embora suponhamos que no nosso país apenas foi lançado em 2010 – e é uma pequena maravilha, à qual apetece voltar repetidas vezes. Trata-se de um registo introspectivo com um subtil acento electrónico, uma releitura da tradição com a louvável e conseguida intenção de lhe oferecer um enquadramento contemporâneo através de um eloquente cunho pessoal. No fundo, uma síntese belíssima das matrizes musicais de Charlie Parker ou de John Coltrane, passadas pelo crivo de Miles Davis (o de Kind of Blue) e do piano de Bill Evans, revistas pela sóbria maturidade musical de Wesseltoft e espelhadas no seu temperamento nórdico e na sua alma cheia de blues. Um candidato legítimo a futuro clássico.

 

Singing

publicado por adignidadedadiferenca às 13:12 link do post
03 de Julho de 2011

Ascenseur Pour L'Échafaud (1958), Miles Davis

 

 

Ascenseur Pour L’ Échafaud (1958), assinado pelo cineasta Louis Malle e fundado na estética Nouvelle Vague, contribuiu de forma muito acentuada para a revelação súbita das qualidades ímpares de uma nova estrela, Jeanne Moureau. Mas se o glamour cerebral e realista de Moureau dificilmente se esquece, a verdade é que, pelo menos para os melómanos, o filme de Louis Malle fica na memória por uma razão ainda mais essencial: a sua banda-sonora. Trata-se de uma magnífica partitura improvisada da autoria de Miles Davis, recheada de esboços melódicos do trompete em surdina, percorrendo desenhos rítmicos sinuosos elaborados milagrosamente com uma clareza de ideias notável, servindo como contraponto perfeito para a atmosfera noir do filme de Malle. Uma gravação extraordinária, sobretudo se pensarmos que Miles nunca antes tinha tocado com os seus cúmplices nesta aventura europeia, que iluminou o trajecto do músico rumo ao genial Kind Of Blue.

 

 

02 de Janeiro de 2011

 

A lista neste caso é francamente mais curta e pouco há para dizer, a não ser que tivemos, finalmente, a há muito aguardada edição de mítico Chega de Saudade, de João Gilberto, assim como da obra completa do portuguesíssimo Grupo de Acção Cultural, destacando-se nela o magnífico Pois Canté!. Mas a reedição do ano é o fabuloso Crazy Rhythms, dos Feelies, disco genial, trepidante e arrebatador, que se cola como poucos ao ouvido. Bitches Brew, de Miles Davis, foi acrescentado muito depois da hora. Mas podia ser, obviamente, a reedição do ano.

 

 

Miles Davis, Bitches Brew

 

 

The Feelies, Crazy Rhythms

  

 

Matthew Friedberger, Winter Woman/Holy Ghost Language School

 

 

GAC - Vozes na Luta, Pois Canté!!

 

 

João Gilberto, Chega de Saudade

 

 

Irakere, Cuba Libre

 

 

John Lennon, Plastic Ono Band

 

 

Vários, Panama!3

18 de Agosto de 2009

 

 

So What

publicado por adignidadedadiferenca às 22:27 link do post
10 de Fevereiro de 2008

Kind of Blue - Miles Davis (1959)

 

 

A mais perfeita gestão do tempo e do silêncio de que há memória num disco de jazz. A unidade impressionante de uma banda, mantida no diálogo permanente entre os instrumentos, com a contribuição do som em surdina do trompete de Miles (prolongando o que já tinha explorado em 'round about midnight), da clareza das notas do saxofone de Coltrane, da doçura insinuante do piano e da secção rítmica. Um acto de criação formidável faz acreditar que a música pode ser tudo isto: melancolia, lirismo, impressionismo, magia e sonho.

publicado por adignidadedadiferenca às 14:42 link do post
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