a dignidade da diferença
05 de Janeiro de 2010

 

Estava eu pronto para continuar com as listas referentes ao balanço final de 2009, quando fui surpreendido por este desaparecimento totalmente inesperado. Deixo-lhe uma singela homenagem com a minha canção preferida (do belíssimo The Living Road).

 

 

 

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publicado por adignidadedadiferenca às 00:06 link do post
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08 de Janeiro de 2009

Ainda a propósito do post anterior, e de forma a criar, uma vez por outra, um fio condutor que disfarce alguma anarquia existente na publicação de cada post, deixo-vos hoje com o México, lembrado através da pintura, com as visões pictóricas de Rivera e da sua mulher Frida Kahlo, e também recordado através do cinema, com o esplendoroso trabalho que o cineasta espanhol Luís Buñuel fez em Los Olvidados e com o material filmado por Sergei Eisenstein do inacabado e, ainda assim, visualmente formidável Que Viva México!

A fim de acrescentar mais qualquer coisa a uma visão algo redutora e pobre deste país imenso, proponho mais um caminho a seguir. Pela voz de Chavela Vargas (como não podia deixar de ser) e pela voz da, para mim muito mais querida, Lhasa de Sela.

E como quem motivou todo este percurso foi Juan Rulfo, guardo para o final algumas extraordinárias fotografias daquele país, tiradas pelo próprio escritor e que, acompanhadas pelos textos de Carlos Fuentes, Margo Glanz, Jorge Alberto Lozoya, Eduardo Rivero e Víctor Jimenez, integram o prometedor (a julgar pelas fotos disponíveis na net) livro Juan Rulfo’s Mexico.

 

 

 

 

 

 

 

 

DIEGO RIVERA (1886-1957)

 

Como artista excepcional, político militante e contemporâneo excêntrico, Diego Rivera teve um papel primordial numa época muito importante no México. Tornou-se, embora polémico, o mais citado artista do continente hispano-americano no estrangeiro. Foi pintor, desenhador, artista gráfico, escultor, arquitecto, cenógrafo e um dos primeiros coleccionadores de arte mexicana pré-colonial. O seu nome está relacionado com os de Pablo Picasso, André Breton, Leo Trotski, Edward Weston, Tina Modotti e, como não podia deixar de ser, Frida Kahlo. Foi, simultaneamente, alvo de ódio e amor, admiração e rejeição, lendas e difamação. O mito que, ainda em vida, se criou à volta da sua pessoa, não se deve somente à sua obra, mas também ao seu papel activo na vida política da sua época, às suas amizades e aos seus conflitos com personalidades famosas, à sua aparência fascinante e ao seu carácter rebelde.

 

 

Nas suas recordações, difundidas em diversas obras biográficas, Rivera contribuiu bastante para a criação do mito à volta da sua pessoa. Gostava de se apresentar como menino precoce de ascendência exótica, que combatera na Revolução mexicana como jovem rebelde, um visionário que se recusava a fazer parte da vanguarda europeia, e que estava predestinado para ser o cabecilha da revolução artística. A sua biógrafa, Gladys March, confirma, no entanto, que a sua vida real era muito mais banal e que Rivera tinha grandes dificuldades em separar a ficção da realidade: «Rivera, que, mais tarde, iria representar nos seus trabalhos a História do México como um dos grandes mitos do nosso século, não conseguia dominar a sua fantasia fenomenal, enquanto me contava a sua vida. Tinha transformado alguns acontecimentos, principalmente acontecimentos dos seus primeiros anos de vida, em lendas.»

 

Andrea Kettenmann, tradução de Ruth Correia in “Diego Rivera Um Espírito Revolucionário na Arte Moderna”, 2004 Taschen.

 

                     Frida Kahlo

 

 JUAN RULFO'S MEXICO

 

 

 

LOS OLVIDADOS e QUE VIVA MEXICO!

 

 

Sergei Eisenstein "Que Viva México!"

 

Luís Buñuel "Los Olvidados"

 

LHASA e CHAVELA VARGAS

 

 

Chavela Vargas "La Llorona"

 

Lhasa "La Frontera"

 

 

05 de Janeiro de 2009

 

Devidamente enquadrado com o tempo de crise que vivemos, o qual, segundo parece, veio para ficar e para se agravar, eis uma óptima oportunidade – embora ele nem precisasse disso - para revisitarmos o «realismo mágico» do escritor mexicano Juan Rulfo (1918-1986).

Do autor já conhecia o premiado romance «Pedro Páramo» - publicado em 1955 -, mas, depois de devidamente aconselhado, só recentemente tive acesso ao magnífico livro de contos «A planície em chamas», originalmente editado em 1953, e traduzido por Ana Santos, para a Cavalo de Ferro, em 2003.

Tomando como exemplo o soberbo conto «É que somos muito pobres», Juan Rulfo conquista-nos pela absoluta mestria com que define, numa narrativa que se prolonga por quatro curtas páginas, o perfil psicológico das personagens que habitam as suas histórias estranhas, recheadas de assassinatos, de almas penadas mas capazes de amar, de intensa crueldade, miséria ou devassidão. Servindo-se de uma linguagem formalmente simples, mas profunda, inventina e carregada de um fulgor que lhe transmite uma inegável riqueza estética, o escritor mexicano retrata na perfeição os tormentos por que passa esta gente que procura, permanentemente, fugir a uma vida danada que a persegue e lhe morde, sem piedade e com veneno inusitado, os calcanhares feridos de morte.

As notáveis composições de Juan Rulfo oferecem-nos – numa bandeja ricamente trabalhada - um mundo complexo, geograficamente quase deserto, problemático e inóspito, onde se instalam seres humanos que tanto põem em causa Deus como se amparam Nele. Lidas de uma assentada, deixam-nos sem vontade de comer durante, pelo menos, uns dois dias.

Ah! tivesse o neo-realismo este fulgor e esta dinâmica voraz, em vez de se deixar consumir por textos cuja qualidade literária foi, regra geral, vítima de uma pobreza ainda maior que a das pessoas que os romances procuravam revelar.

 

 

Fica aqui um excerto de «É que somos muito pobres», traduzido, como já foi referido, por Ana Santos.

 

Aqui vai tudo de mal a pior. Na semana passada morreu a minha tia Jacinta, e no Sábado, quando já a tínhamos enterrado e começava a abalar-nos a tristeza, começou a chover como nunca. Ao meu papá isso irritou-o, porque toda a colheita de cevada estava a secar na eira. E o aguaceiro chegou de repente, em grandes ondas de água, sem sequer nos dar tempo para esconder nem que fosse um pequeno molho; a única coisa que pudemos fazer, todos os da minha casa, foi ficarmos arrimados uns aos outros debaixo do telheiro, vendo como a água fria que caía do céu queimava aquela cevada tão recém-cortada.

E só ontem, quando a minha irmã Tacha acabava de fazer doze anos, soubemos que a vaca que o meu pai lhe ofereceu para o dia do seu aniversário tinha-a levado o rio. (...) Foi ali que soubemos que o rio tinha levado a Serpentina, a vaca que era da minha irmã Tacha porque o meu papá lha ofereceu no dia do seu aniversário e que tinha uma orelha branca e outra avermelhada e muito bonitos olhos. (...) Nunca vi a Serpentina tão atarantada. O mais certo é ter vindo ainda a dormir para se deixar matar assim sem mais nem menos. A mim muitas vezes tocou-me acordá-la quando lhe abria a porta do curral, porque senão, por vontade dela, ali estaria o dia inteiro com os olhos fechados, bem quieta e suspirando, como se ouvem suspirar as vacas quando dormem.

 

 

E aqui deve ter acontecido isso, adormeceu. Talvez se tenha lembrado de acordar ao sentir que aquela água pesada lhe batia nas costelas. (...) Talvez tenha bramado pedindo que a ajudassem.

Bramou só Deus sabe como.

Eu perguntei a um senhor, que viu quando o rio a arrastava, se não tinha visto também o bezerrinho que andava com ela. Mas o homem disse que não sabia se o tinha visto. (...) O problema que há na minha casa é o que poderá acontecer no dia de amanhã, agora que a minha irmã Tacha ficou sem nada. Porque o meu papá com muito trabalho tinha conseguido a Serpentina, ainda ela era uma vitelinha, para dar à minha irmã, a fim de que ela tivesse um capitalzinho, e não se tornasse puta como fizeram as minhas outras duas irmãs, as maiores. (...)

A minha mamã não sabe porque é que Deus a castigou tanto dando-lhe umas filhas assim, quando na sua família, da sua avó para cá, nunca houve gente má. (...) Quem sabe de onde lhes viria, a esse par de filhas suas, aquele mau exemplo. (...) E cada vez que pensa nelas, chora e diz: «Que Deus as ampare às duas.»

Mas o meu pai alega que aquilo já não tem remédio. A perigosa é a que fica aqui, a Tacha, que vai como tronco de pinheiro, cresce e cresce e já tem uns princípios de seios que prometem ser como os das suas irmãs (...) E a Tacha chora ao sentir que a sua vaca não voltará porque lha matou o rio. (...) Pela sua cara correm jorros de água suja como se o rio se tivesse metido dentro dela.

Eu abraço-a tentando consolá-la, mas ela não percebe. (...) Da sua boca sai um ruído semelhante ao que se arrasta pelas margens do rio (...) O sabor a podre que vem de lá salpica a cara molhada da Tacha e os dois peitinhos dela mexem-se de cima para baixo sem parar como se de repente começassem a inchar para começarem a trabalhar pela sua perdição.

 

 

 

Obrigado, Ana Cristina Leonardo.

 

E aproveitando o ambiente mexicano, uma vez que este é um blog (quase sempre) sobre música, deixo-vos com:

 

 

 Lhasa "Abro la ventana"

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:06 link do post
14 de Junho de 2008

The Living road (2003) - Lhasa

 

Ainda a propósito do tropicalismo, voltei a lembrar-me de Lhasa como exemplo da óptima música que se faz actualmente alimentando-se do multiculturalismo.

Após um álbum de estreia tendencialmente mais tradicional, moldado à base de rancheras, mariachis, pedaços esquecidos de música cigana, judaica e da canção francesa, que nos traz à memória, sobretudo, a voz de Chavela Vargas, mas também os fantasmas de Piaf e de Brel, Lhasa deu um salto em frente com a publicação de «The living road», o seu segundo disco.

Mantendo tudo o que de bom já existia na estreia, a voz torna-se mais quente e dramática, percorrendo as tonalidades sombrias da PJ Harvey do esplendoroso «To bring you my love» e da Nico mais espectral. As músicas cantadas em várias línguas são enriquecidas por arranjos mais conseguidos, elaborados e com uma maior densidade, que, utilizando cores mais diversificadas (mas nunca muito alegres) contrastam, numa primeira impressão, entre si, mas conseguem, afinal, de forma absolutamente magistral, combinar - quase na perfeição - luz e sombra, amargura e esperança, amor e ódio.

 

Por aqui passa, como se disse, não só um leque mais alargado de referências, como a essencial lição aprendida com Tom Waits: dando aos trompetes, clarinetes, vibrafones, theremins e secção de cordas o uso que daria caso fossem peças amolgadas e esquecidas numa velha oficina abandonada. Um conjunto de melodias inesquecíveis e a utilização adequada da voz como veículo de expressão, fazem o resto. Um disco pertencente à linhagem dos clássicos e que merece ser ouvido nos quatro cantos do mundo.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:49 link do post
03 de Junho de 2008

 

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publicado por adignidadedadiferenca às 00:34 link do post
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