a dignidade da diferença
10 de Fevereiro de 2016

 

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«O que é notável em “Os Anéis de Saturno” e em “Os Emigrantes” é a artificialidade reticente da narração de Sebald, através da qual os factos são recolhidos no mundo real e transformados em ficção. Isto é o oposto da banal leveza “faccional” de escritores como Julian Barnes e Umberto Eco, que pegam nos factos e desestabilizam-nos superficialmente dentro da ficção, que os agitam um pouco, mas cujas obras são, na verdade, um tributo à religião dos factos. A crença de escritores como estes na ficção não é suficientemente profunda para que abandonem o mundo real, brincam com a exatidão, vivem mesmo obcecados com a exactidão e a inexactidão, porque, para estes escritores, até mesmo os factos imprecisos são dotados de uma electricidade empírica, dado que nos despertam uma maior avidez de informação. Esta neurose informativa torna as suas ficções ruidosamente inofensivas. Para estes escritores, os factos são um desporto, acessórios semióticos e são, em última análise, de fácil interpretação. No entanto, para Sebald, os factos são indecifráveis, logo, trágicos. Sebald funciona de forma exactamente oposta à de Barnes ou Eco. Ainda que estes livros profundamente elegíacos sejam feitos das cinzas do mundo real, Sebald transforma os factos em ficção entrelaçando-os tão profundamente nas suas formas narrativas que nos dá a impressão de nunca terem pertencido à vida real e de apenas na prosa de Sebald terem encontrado a sua verdadeira existência. É este o movimento de qualquer ficção poderosa, por muito realista que seja: inserido na ficção, o mundo real ganha contornos mais fortes, mais ásperos, porque recebe um padrão intrincado que não existe na vida real. Na obra de Sebald os factos não parecem apenas ficção, tornam-se ficção, embora não deixem de ser reais e autênticos.»

James Wood, in A Herança Perdida

02 de Dezembro de 2011

 

 

Acabou de ser publicado, em edição nacional da Quetzal, o mais recente trabalho do escritor Julian Barnes, The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, na tradução portuguesa de Helena Cardoso), o qual, como é do conhecimento comum, foi galardoado com o Man Booker Prize 2011. Depois, sobretudo, dos extraordinários O Papagaio de Flaubert e Nada a Temer, Barnes, neste livro, apura ainda mais a sua escrita elegante, aperfeiçoando a construção das frases, recorrendo mais habilmente ao humor e à mordacidade ou descobrindo soluções surpreendentes para a narrativa, conjugando superiormente um clima de crescente tensão com não raros momentos de sublime delicadeza. Tudo magistralmente aproveitado para o seu autor nos oferecer uma agridoce meditação sobre o peso da memória e a instabilidade do nosso conhecimento. Um livro soberbo.

08 de Setembro de 2011

 

 

«Gostaria de alargar a consciência das pessoas quanto ao tremendo período de tempo que temos pela frente – para o nosso planeta e para a própria vida. A maior parte das pessoas instruídas tem consciência de que somos o resultado de quase quatro biliões de anos da selecção de Darwin, mas muitos têm tendência a pensar que somos de algum modo o culminar da evolução. O nosso Sol, porém, ainda não chegou a metade do seu período de vida. Não serão os humanos que verão a morte do Sol, daqui a seis biliões de anos. As criaturas que existirão nessa altura serão tão diferentes de nós como nós somos das bactérias ou das amibas.»

Martin Rees, astrónomo e professor de Cosmologia e Astrofísica (Cambridge).

publicado por adignidadedadiferenca às 19:59 link do post
04 de Setembro de 2011

 

 

Eis uma pequena pérola, entre tantos outros belíssimos exemplos, do magnífico Nada a Temer, de Julian Barnes, autêntico e surpreendente manual de sobrevivência, a propósito do qual já aqui elogiámos merecidamente a ironia, a inteligência, a elegância e o modo descomplexado como nos ajuda a reflectir sobre a morte, através da meditação filosófica, religiosa ou literária:

Flaubert perguntou «É esplêndido ou é estúpido levar a vida a sério?» E disse que devíamos ter «a religião do desespero», ser «iguais ao nosso destino, isto é, impassíveis como ele». Ele sabia o que pensava sobre a morte: «O eu sobrevive? Dizer que sim parece-me um mero reflexo da nossa presunção e do nosso orgulho, um protesto contra a ordem eterna! A morte não deve ter mais segredos para nos revelar senão a vida.» Mas, mesmo não confiando nas religiões, sentia uma ternura pelo impulso espiritual e desconfiava do ateísmo militante. «Cada dogma em particular repugna-me», escreveu. «Mas considero que o sentimento que os engendrou é a expressão de humanidade mais natural e poética. Não gosto dos filósofos que o rejeitaram como disparate e intrujice. O que eu encontro nele é necessidade e instinto. Por isso respeito o homem negro que beija o fetiche e o católico que ajoelha ante o Sagrado Coração.»

publicado por adignidadedadiferenca às 14:17 link do post
12 de Agosto de 2011

 

 

Nada a Temer, a mais recente obra do escritor britânico Julian Barnes, é um magnífico e melancólico livro que diverte e surpreende, um trabalho do mais fino recorte que convoca – no permanente diálogo que Barnes estabelece com o seu irmão filósofo - a literatura e, sobretudo, a cultura francesa (o que já acontecera no anterior e igualmente notável O Papagaio de Flaubert, romance - ou melhor, ensaio - que chamou à colação A Educação Sentimental do genial autor francês), a meditação filosófica, a religião. Pelo tema - o medo da morte: «as pessoas só acreditam na religião porque têm medo da morte» -, pela ironia, pela inteligência ou pela elegância da escrita, pelo seu subtil rendilhado. Não temos como evitar a morte, mas este livro desconcertante, que incomoda e nos faz meditar, ajuda-nos a superar o medo e a evitar a angústia. Pensando melhor, talvez nem isso. Mas quanto ao prazer literário, não temos nada a temer: é um trabalho que faz caretas à morte.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:58 link do post
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