a dignidade da diferença
19 de Outubro de 2014

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Sequência natural do anterior e igualmente meritório «Os Privilegiados», do jornalista Gustavo Sampaio, «Os Facilitadores», publicado no mês passado, prossegue o magnífico trabalho de investigação daquele. Se «Os Privilegiados» já nos oferecia uma notável visão panorâmica da promiscuidade entre o mundo da política e as actividades económico-financeiras, e entre as funções públicas e os interesses privados, na qual sobressai o tráfico de influências ou a rede de interesses convergentes entre a classe política, as empresas públicas e os negócios privados, o mais recente trabalho de Gustavo Sampaio investiga o sistema de correspondência entre o poder político, as sociedades de advogados e os interesses empresariais. O jornalista em regime «freelancer» mantém o seu «modus operandi»: sistematiza e revela as listas de clientes das maiores sociedades de advogados, a sua participação na produção legislativa ou na regulação, e a conexão político-empresarial – desde o recrutamento de políticos até à acumulação de cargos de administração nas grandes empresas. Colocando sucessivamente a questão sobre a causalidade ou a intenção nesta abundância de «padrões, coincidências e interligações», Gustavo Sampaio evita as ideias pré-concebidas e os juízos de valor, tratando o leitor com o respeito que este merece, permitindo-lhe tirar as suas próprias conclusões. Uma obra notável que evidencia a marca indelével de um sistema viciado e a sua viscosa realidade, onde as principais sociedades de advogados tanto representam o interesse público como o sector privado. Em ocasiões distintas ou em simultâneo, entre pontenciais e previsíveis conflitos de interesses.

27 de Maio de 2014

 

 

Enquanto a Europa se vai definhando com a ausência de soluções para a crise, cresce de forma imponente a influência da China no plano económico e geopolítico a nível mundial. Aquilo que parecia, aos nossos olhos, uma presença relevante mas distante manifesta-se subitamente como uma verdadeira potência, contribuindo decisivamente para a transformação do mundo contemporâneo. As modificações no consumo e as múltiplas convulsões económicas, a concorrência no mercado de trabalho, o desequilíbrio ambiental ou a variação do preço dos combustíveis, foram moldados, em certa e cada vez maior medida, pelo peso da industrialização na China, o mais poderoso entre os países emergentes. O premiado jornalista James Kynge acredita que essa ascenção partiu de dentro. Explica e descreve como nasceu e foi crescendo historicamente, na nação mais populosa do mundo, um apetite voraz, inesperado e descontrolado pelo poder, mas chama também a atenção para as suas fraquezas e contradições internas. E não se esquece, por fim, de sublinhar a importância da possível e provavelmente irresolúvel incompatibilidade entre um mundo ocidental estruturalmente estabilizado e um país que, nos seus credos e pela sua natureza intrínseca, contrasta sobejamente com aquele. É o que sobressai do trabalho de investigação que publicou em 2006, o magnífico, fascinante e instrutivo China Shakes the World – The Rise of a Hungry Nation, editado comercialmente no nosso país pela Bizâncio, com o título A China Abala o Mundo – Ascensão de uma Nação Ávida.

publicado por adignidadedadiferenca às 19:48 link do post
29 de Março de 2014

robsonceron.blogspot.com 

A propósito das reformas estruturais implementadas pelos nossos governantes: Segundo José Félix Ribeiro, economista e ex-subdirector do Departamento de Prospectiva e Planeamento, numa entrevista dada ao semanário Expresso de 22 de Março, «estão a ser utilizadas por marxista de direita, que acreditam que a luta de classes é o motor da história só que desta vez o proletariado é que é o péssimo».

publicado por adignidadedadiferenca às 20:14 link do post
16 de Agosto de 2013

 

 

Começa a ser insustentável a ideia apresentada pelos nossos governantes de que a atual crise da dívida pública resulta do facto de os portugueses andarem nestes últimos anos a viver e a gastar acima das suas possibilidades. Dois livros recentes procuram demonstrar precisamente o contrário; Da Corrupção à Crise, de Paulo de Morais, e Os Privilegiados, do jornalista Gustavo Sampaio. Se o compararmos com as intervenções públicas na televisão do seu autor, o primeiro trabalho é, contudo, uma rotunda desilusão. Populista e demagogo, o antigo vice-presidente da Câmara Municipal do Porto usa e abusa de um estilo excessivamente incendiário e acusatório, recorrendo por diversas vezes a insinuações mais ou menos vagas e genéricas, tirando daí conclusões que na sua maioria não se afastam de meros lugares comuns ou de chavões gastos, repetidos e vazios na sua essência. Os políticos são todos uns corruptos, bandidos e ladrões. Trata-se de uma análise bastante rudimentar da nossa classe política, pecando por uma manifesta falta de profundidade. O que se lamenta, pois Paulo de Morais aponta, por vezes, o dedo às pessoas certas e denuncia com eficácia situações concretas. Mas, infelizmente, cai demasiadas vezes num estilo típico das conversas corriqueiras de café ou numa linguagem intencionalmente polémica que nos habituámos a ver em pasquins do género do Correio da Manhã. Enfim, um livro bastante sofrível que poderia fazer muito mais pela denúncia de uma certa casta política. Bastante superior é a notável obra do jornalista freelancer Gustavo Sampaio.

 

 

Os Privilegiados consiste num magnífico trabalho de investigação sobre o regime das incompatibilidades e o conflito de interesses na Assembleia da República, sobre o trânsito de ex-políticos para as administrações de empresas – exemplificando entre as cotadas no índice PSI 20 –, cumprindo ou não o período de nojo (três anos), sobre o Estatuto remuneratório dos titulares de cargos públicos e as Subvenções vitalícias dos titulares de cargos políticos, e sobre as nomeações para cargos dirigentes na administração direta e indireta do Estado, setor empresarial do Estado e gabinetes ministeriais, comparando os privilégios adquiridos pela nossa classe política com os modelos de diversos países europeus. Se o livro não fornece especiais novidades a quem anda bem informado, oferece, porém, com a sua rigorosa contextualização e sistematização, uma portentosa visão panorâmica sobre a promiscuidade existente entre o mundo da política e as atividades económicas e financeiras, a conexão entre as funções públicas e os interesses privados, o tráfico de influências ou a escandalosa rede de interesses convergentes entre a classe política, as empresas públicas e os negócios privados. Concretizando a crítica no lugar de a generalizar, como propõe de resto o seu autor, Os Privilegiados distingue os maus políticos daqueles que servem efetivamente a causa pública e deixa o leitor munido de suficiente informação para tomar a liberdade de pensar e procurar entender quem são os verdadeiros responsáveis pela situação ruinosa a que chegou o nosso Estado. Um livro obrigatório.

26 de Outubro de 2010

 

 

O confronto ideológico não resolve actualmente muitos problemas, sobretudo porque assenta em meias verdades e cada uma das partes se contenta em criticar os pontos de vista da outra, prejudicando a muito mais necessária procura de uma solução. Mas será que não serve para absolutamente nada? Talvez não. Vejamos pois o caso destes dois cronistas do semanário Expresso e o teor das suas crónicas do passado fim-de-semana.

Daniel Oliveira escreve «Agora sim, vamos poder ver as maravilhas do Estado Mínimo que nos andam a vender há anos. Quando faltarem polícias na rua, não resmungue. Quando não houver meios para combater os fogos, não se indigne. Quando as escolas e creches fecharem, as universidades se transformarem em depósitos ainda mais inúteis e não houver gente qualificada para trabalhar em lado nenhum, sorria. Quando fecharem os centros de saúde e comprar medicamentos para ficar vivo for um luxo, não se apoquente. Morra sabendo que o Estado sempre foi o culpado de todos os nossos males. E maravilhe-se com a sua elegância depois de uma boa dieta. O que me espanta, o que sempre me espantou, é haver tantos, entre os que devem à maternidade pública o seu nascimento seguro, à escola pública quase tudo o que sabem, à universidade pública a sua ascensão social e cultural, ao Estado a sua segurança e ao hospital público a sua sobrevivência, a pedirem o seu emagrecimento. Uns são apenas egoístas: garantida que está a sua condição, os outros que façam pela vida. Outros são só parvos. Esses vão ver agora como elas mordem.»

Daniel Oliveira parece estar cheio de razão. Contudo, limitou-se a focar os aspectos positivos do Estado social. Esquece-se de explicar como é que chegámos onde chegámos, onde é que se arranja dinheiro para os gastos excessivos da Administração Pública, quando estamos à beira da bancarrota. E já nem falo dos contratos ruinosos para o Estado que os nossos governantes têm celebrado, nem a péssima gestão nas parcerias público-privadas. Não será melhor repensarmos o Estado social para não perdermos tudo o que de bom conquistámos? Será que Daniel Oliveira não compreende que a falência do Estado-providência não só é financeira, como ainda está em causa o próprio paradigma de intervenção social, nomeadamente após a derrocada dos modelos conhecidos?

 

 

Marcado por uma fortíssima tendência liberal, Henrique Raposo sublinha «Sim, os cortes na função pública serão injustos para muita gente. Sim, muitos funcionários públicos, do polícia ao médico, não mereciam esta sorte. Mas este corte cego apareceu no horizonte, porque nunca houve coragem para separar o trigo do joio. Ou seja, os ministérios nunca separaram os “indispensáveis” dos “dispensáveis”. E este é o acto político que está por realizar: para protegermos os funcionários públicos indispensáveis e os serviços nucleares, nós temos de dispensar os funcionários-que-estão-a-mais e fechar os serviços-que-não-passam-de-tachos. Em 2011, o polícia, o enfermeiro, o médico e o funcionário dos impostos serão injustamente penalizados, porque os políticos não tiveram coragem para dispensar os milhares de funcionários-que-estão-a-mais. (…) Se esta reestruturação política do Estado não for feita, seguir-se-ão novos cortes cegos, e os justos pagarão pelos pecadores. (…) Num Estado mais seco, o trigo não é confundido com o joio e, por isso, é mais protegido e mais acarinhado financeiramente. Em segundo lugar, a requalificação do Estado é a melhor forma de protegermos a tal justiça social.»

A posição de Henrique Raposo é francamente defensável e, confesso, estou disposto a partilhá-la, mas só até certo ponto. Pois não estará o cronista a esquecer-se que a liberdade individual e a concorrência económica não conduziram propriamente ao melhor dos mundos, mas sim a um mundo de tremendas injustiças, designadamente as provocadas por uma descontrolada exploração social que se traduziu numa degradante e revoltante condição humana onde a dignidade de uma relevante massa humana desceu a níveis insuportáveis? 

14 de Fevereiro de 2010

 

Algumas ideias sobre os últimos acontecimentos merecem ser sublinhadas, com as quais não posso estar mais de acordo:

 

Para começo de conversa: a liberdade de imprensa não está em perigo em Portugal. Obviamente. Quem o diz, quem organiza petições online e manifs, nunca antes, quando o perigo real existiu, se fez ouvir. Não há um único grande jornalista português que ande por aí aos gritos em defesa da liberdade pretensamente ameaçada. Não conheço ninguém que não diga e não escreva o que quer e que não tenha tribuna para ser escutado. (…) Convém, pois, não confundir liberdade com irresponsabilidade, não confundir vaidades individuais, desejos de protagonismo e aproveitamentos políticos com a situação real, como um todo. (…) E, preto no branco: no lugar do director do “JN”, José Leite Pereira, eu também não teria consentido a publicação da crónica de Mário Crespo. Porque não aceito, como regra deontológica do jornalismo, a publicação de notícias fundadas numa fonte anónima que escutou conversas privadas, mesmo em local público. E porque também não o aceito como regra de educação.

 

Miguel Sousa Tavares, Expresso de 13 de Fevereiro de 2010

 

 

Pode ter sido uma coincidência, mas na Universidade Lusíada de Lisboa, entre alunos de Direito, de Solicitadoria e de Comunicação Social e Multimédia, as notas mais baixas na cadeira de Ética foram obtidas pelos últimos.

Obviamente que acho inquietante (para dizer o mínimo) a cada vez maior promiscuidade entre o sector público e o privado, sem esquecer a escandalosa falta de princípios desta gente que nos governa politica e economicamente.

E quando vejo o candidato à presidência do PSD, Paulo Rangel, esquecer-se daquilo que tinha dito no dia 29 de Setembro de 2009, isto é, “não faria sentido que me candidatasse à liderança deixando o Parlamento Europeu”, apenas porque sente este Governo cada vez mais fragilizado e vê, por essa razão, uma óptima oportunidade de chegar a primeiro-ministro, é evidente que não espero ver melhorada a situação num futuro relativamente próximo.

 

E, para esquecer um pouco este ambiente-mete-nojo, nada melhor do que escutar o novo e magnífico trabalho de Laura Veirs “July Flame”.

Vem mesmo a propósito: Tortured Souls, Yo!

 

July Flame

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:18 link do post
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