a dignidade da diferença
20 de Outubro de 2015

 

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«Mas talvez para explicar a adesão que um autor suscita em cada um de nós, mais do que de grandes classificações categoriais se deva partir de razões mais precisamente ligadas à arte de escrever. Entre estas vou pôr em primeiro lugar a economia da expressão: Borges é um mestre na arte do escrever breve. Consegue condensar em textos sempre de pouquíssimas páginas uma riqueza extraordinária de sugestões poéticas e de pensamento: factos narrados ou sugeridos, aberturas vertiginosas sobre o infinito, e ideias, ideias, ideias. Como esta densidade se realiza sem a mínima congestão, no periodizar mais sóbrio e cristalino e arejado; como o contar sinteticamente e de relance leva a uma linguagem toda concreta e de precisão, cuja inventiva se manifesta na variedade dos ritmos, dos movimentos sintáticos, dos adjectivos sempre inesperados e surpreendentes, é este o milagre estilístico, sem igual na língua espanhola, de que só Borges tem o segredo.»

Italo Calvino, in Perché leggere i classici

08 de Março de 2015

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«Emily Dickinson julgava que publicar não é parte essencial do destino de um escritor. Juan Rulfo parece partilhar esse parecer. Devoto da leitura, da solidão e da escrita de manuscritos que revia, corrigia e destruía, só publicou o seu primeiro livro – A Planície em Chamas (1953) – quase ao fazer quarenta anos. Um amigo teimoso, Efrén Hernández, arrancou-lhe os originais e fê-los publicar. Esta série de dezanove contos prefigura de algum modo o romance que o tornou famoso em muitos países e em muitas línguas. A partir do momento em que o narrador (…) se cruza com um desconhecido que lhe declara que são irmãos e que toda a gente da aldeia se chama Páramo, o leitor já sabe que entrou num texto fantástico, cujas indefinidas ramificações não lhe é dado prever, mas cuja gravitação já o agarra. (…) A história, a geografia, a política, a técnica de Faulkner e de certos escritores russos e escandinavos, a sociologia e o simbolismo foram interrogados com afã, mas ninguém conseguiu, até agora, desfazer o arco-íris. Pedro Páramo é um dos melhores romances (…) da literatura.»

Jorge Luis Borges, Biblioteca Personal

06 de Julho de 2014

 

 

Ao citar títulos ficcionados, referências imaginárias, in-fólios e autores que nunca existiram, Borges não faz mais do que reagrupar elementos da realidade na forma de outros mundos possíveis. Ao passar, por meio do jogo de palavras e do eco, de uma língua a outra, faz girar o caleidoscópio, projecta luz sobre uma outra secção do muro. Como Emerson, que infatigavelmente cita, Borges sabe que a visão de um universo simbólico, exaustivamente entretecido, é uma alegria certa (…) Para Borges, como para os transcendentalistas, não há coisa viva ou som que não contenha uma cifra de todos os outros. Este sistema de sonhos (…) engendrou algumas das narrativas breves mais inspiradas e assombrosamente originais da literatura ocidental. «Pierre Menard», «A Biblioteca de Babel», «As Ruínas Circulares», «O Aleph», «Tlön, Uqbar, Orbis Tertius», «A Busca de Averróis» são outras tantas obras-primas lacónicas. A sua perfeição concisa, como a de um bom poema, constrói um mundo que é ao mesmo tempo fechado, com o leitor inevitavelmente dentro dele, e todavia aberto à ressonância mais ampla. Certas parábolas, não mais compridas do que uma página (…) são, ao lado das de Kafka, realizações únicas dessa forma manifestamente frágil. Se nada mais tivesse produzido além das «Ficções», Borges contar-se-ia entre os poucos sonhadores novos desde a época de Poe e Baudelaire. Tornou mais profunda – e tal é a marca de um artista verdadeiramente grande – a paisagem das nossas memórias. No entanto, apesar da sua universalidade formal e das dimensões vertiginosas do seu leque de alusões, o edifício da arte de Borges tem falhas severas. Só uma vez, no conto chamado «Emma Zunz», Borges criou uma mulher verosímil. Ao longo da sua restante obra, as mulheres são vagos objectos da fantasia ou das recordações dos homens. Mesmo entre homens, as linhas de força da imaginação de Borges são restritivamente simplificadas. A equação fundamental é a do duelo.

George Steiner, Tigres no Espelho, ensaio publicado em The New Yorker.

26 de Outubro de 2013

 

 

Revistos pelo seu autor em 1969, o conjunto dos poemas de Jorge Luis Borges reunidos nas obras O Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte e Caderno San Martin, escritos na sua juventude, foram recentemente publicados pela Quetzal no primeiro volume da sua Obra Poética. Não conseguindo esconder, aqui e ali, algumas marcas da inocência e do excesso de convicções próprios da juventude, os poemas do genial escritor argentino, depois de minuciosamente depurados, isto é, devidamente limados nos seus excessos ou extravagâncias formais, libertados de tudo o que é supérfluo e afastados na medida correta os inconvenientes da sobrecarga de sentimentalismo, não desonram, contudo, o seu autor e revelam até, no seu melhor, a originalidade, o lirismo, o prazer do exercício intelectual, a sabedoria, a serenidade ou a plasticidade da sua escrita, e ainda um par de outras características modernistas do autor, facilmente reconhecíveis no período áureo da sua criatividade e maturidade estética cuja estrutura metafísica convoca para o seu universo literário alguns dos grandes temas universais. Deixo-vos, como exemplo, o poema Manuscrito Achado Num Livro de Joseph Conrad, traduzido por Fernando Pinto do Amaral.

 

 

Nas terras que estremecem com o ardor estival,

O dia é invisível, puro e branco. O dia

é uma estria pungente numa gelosia,

uma febre no plaino, um fulgor litoral.

 

Porém, a antiga noite é funda como um jarro

de água côncava, aberta a infinitos sinais,

e em canoas, perante as estrelas fatais,

o homem mede o vago tempo com um cigarro.

 

Com o fumo desvanecem-se as constelações

remotas. O imediato perde história e nome.

O mundo é umas quantas vãs imprecisões.

O rio, primeiro rio. O homem, primeiro homem.

29 de Dezembro de 2012

 

Tendo em conta a dimensão estratosférica de obras que foram publicadas durante o ano e a impossibilidade física de aceder a um número mínimo exigível que permitisse ficar com uma perceção razoável daquilo que foi acontecendo de relevante no domínio da criação literária, apresentar uma lista dos melhores livros do ano será uma tarefa perfeitamente estúpida, ingrata e inútil. Na melhor das hipóteses, sem cair no ridículo, apenas poderei destacar daquilo que li os poucos livros que me agradaram (doze no total, uma média de um livro por cada mês do ano, incluindo novas edições, reedições ou primeiras edições de livros antigos). É o que farei.

 

A Economia dos Pobres, Abhijit V. Banerjee/Esther Duflo

 

O Legado de Humboldt, Saul Bellow

 

Obra Poética Vol.1, Jorge Luis Borges

 

Os Irmãos Karamázov, Fiódor Dostoievski

 

Poeira da Alma, Nicholas Humphrey

 

Os Manuscritos de Aspern, Henry James

 

Sobre a Balsa da Medusa, Anselm Jappe

 

Pensar, Depressa e Devagar, Daniel Kahneman

 

Mel, Ian McEwan

 

A Noite dos Proletários, Jacques Rancière

 

Do Natural, W. G. Sebald

 

Steve Sem-Sandberg, O Imperador das Mentiras

 

11 de Novembro de 2012

 

 

«Costumo regressar eternamente ao Eterno Retorno; nestas linhas vou tentar (com o socorro de algumas ilustrações históricas) definir os seus modos fundamentais. O primeiro tem sido imputado a Platão. Este, no trigésimo nono parágrafo do Timeu, afirma que os sete planetas, equilibradas as suas diferentes velocidades, regressarão ao ponto inicial de partida: revolução que constitui o ano perfeito. (…) Algum astrólogo que não tinha examinado em vão o Timeu formulou este irrepreensível argumento: se os períodos planetários são cíclicos, também a História Universal o será; ao cabo de cada ano platónico renascerão os mesmos indivíduos e cumprirão o mesmo destino. (…) Neste primeiro modo de conceber o eterno retorno, o argumento é astrológico. O segundo está vinculado à glória de Nietzsche, o seu mais patético inventor ou divulgador. Justifica-o um princípio algébrico: a observação de que um número n de objetos – átomos na hipótese de Le Bon, forças na de Nietzsche, corpos simples na do comunista Blanqui – é incapaz de um número infinito de variações. Das três doutrinas que enumerei, a mais racional é a de Blanqui. (…) Desta série perpétua de histórias universais idênticas observa Bertrand Russell: Muitos escritores são de opinião que a História é cíclica, que o presente estado do mundo, com os seus pormenores mais ínfimos, mais tarde ou mais cedo voltará. Como formulam esta hipótese? (…) A hipótese de a História ser cíclica pode enunciar-se desta maneira: formemos o conjunto de todas as circunstâncias contemporâneas de uma determinada circunstância; em certos casos todo o conjunto se antecede a si mesmo.

 

 

Chego ao terceiro modo de interpretar as eternas repetições: o menos pavoroso e melodramático, mas também o único imaginável. Quero dizer, a conceção de ciclos similares, não idênticos. É impossível formar o catálogo infinito de autoridades (…) De tal profusão de testemunhos basta-me copiar um, de Marco Aurélio: Mesmo que os anos da tua vida fossem três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora nem vive outra senão a que perde. (…) Lembra-te de que todas as coisas giram e voltam a girar pelas mesmas órbitas e que para o espectador é igual vê-la um século ou dois ou infinitamente. (…) Se lermos com alguma seriedade as linhas anteriores (…) veremos que declaram, ou pressupõem, duas ideias. A primeira: negar a realidade do passado e do futuro. Enuncia-a esta passagem de Schopenhauer: A forma de aparição da vontade é só o presente, não o passado nem o futuro: estes só existem para o conceito e pelo encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no porvir, o presente é a forma de toda a vida. (…) A segunda: negar, como o Eclesiastes, qualquer novidade. A conjetura de que todas as experiências do Homem são (de qualquer modo) análogas, pode à primeira vista parecer um simples empobrecimento do mundo.»

História da Eternidade, de Jorge Luis Borges

10 de Março de 2012

 

 

«Whitman é um dos poetas que mais me impressionaram em toda a minha vida. Penso que há uma tendência para confundir o Sr. Walt Whitman, o autor de Folhas de Erva, com Walt Whitman, o protagonista de Folhas de Erva, e aquele Walt Whitman dá-nos menos uma imagem e mais uma espécie de ampliação do poeta. Em Folhas de Erva, Walt Whitman escreveu uma variedade de épica cujo protagonista era Walt Whitman – não o Whitman que escrevia, mas o homem que ele gostaria de ter sido. É claro que não digo isto em desfavor de Whitman, pois a sua obra não deve ser lida como constituindo as confissões de um homem do século XIX, mas, antes, como uma épica sobre uma figura imaginária, uma figura utópica que é, em certa medida, uma ampliação e uma projeção do escritor, bem como do leitor.

 

 

Está lembrado que em Folhas de Erva o autor funde-se várias vezes com o leitor e, é claro, isto expressa a sua teoria da democracia, a ideia de que um só e único protagonista pode representar toda uma época. A importância de Whitman nunca é destacada em demasia. Mesmo se tivermos em conta os versículos da Bíblia ou de Blake, podemos afirmar que Whitman foi o inventor do verso livre. Ele pode ser visto de duas maneiras: há o seu lado cívico – o facto de que ficamos cientes da existência de multidões, de grandes cidades e da América -, e há também um elemento íntimo, embora não possamos ter a certeza sobre se ele é genuíno ou não. A personagem que Whitman criou é uma das mais cativantes e memoráveis de toda a literatura. É uma personagem como Dom Quixote ou Hamlet, mas não é menos complexa do que eles, e possivelmente é mais cativante do que qualquer deles.»

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, tradução: Manuel Frias Martins

 

21 de Agosto de 2011

 

 

«Para Borges, a realidade residia nos livros; em ler livros, em escrever livros, em falar de livros. Intimamente tinha consciência de estar a prolongar um diálogo iniciado há milhares de anos. Um diálogo, em seu entender, interminável. Os livros restauravam o passado. “Com o tempo”, dizia-me ele, “qualquer poema se converte numa elegia.” Não tinha paciência para as teorias literárias em voga e acusava em especial a literatura francesa de não se concentrar em livros, mas em escolas e camarilhas. Adolfo Bioy Casares disse-me uma vez que Borges era o único indivíduo que, no que se refere à literatura, “nunca se entregou às convenções, ao hábito ou à preguiça”. Foi um leitor desordenado que se contentava, muitas vezes, com resumos do argumento e com artigos enciclopédicos, e que por muito que admitisse não ter acabado o Finnegans Wake, podia dar alegremente uma conferência sobre o monumento linguístico de Joyce. Nunca se sentiu obrigado a ler um livro até à última página. A sua biblioteca (que, como a de qualquer outro leitor, era também a sua biografia) reflectia a sua crença no acaso e nas leis da anarquia. “Sou um leitor hedónico: nunca consenti que o meu sentimento do dever interviesse num gosto tão pessoal como a aquisição de livros”.»

Alberto Manguel, in Com Borges, Ambar, tradução de Miguel Serras Pereira.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:28 link do post
18 de Agosto de 2010

«A Biblioteca de Babel» é uma colecção de literatura fantástica escolhida e dirigida por Jorge Luis Borges que, no caso concreto, reúne três magníficos contos russos de Dostoievski, Andréev e Tolstói: «O Crocodilo – Um Acontecimento Extraordinário», onde Doistoievski antecipa o obsessivo universo de Kafka, «Lázaro» do surpreendente e praticamente desconhecido Leonid Andréev, que, nesta obra, escreve sobre o regresso de Lázaro ao mundo dos vivos para nos contar a sua visão do mundo inconstante, frágil e desencantado que observa; e, por último, «A Morte De Ivan Iliitch», assombroso retrato moral do protagonista saído da pena do conde Tolstoi.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:42 link do post
07 de Agosto de 2010

 

«É sabido que só há uma maneira mais eficaz do que abrir um livro para evitar uma conversa numa sala de espera, que é abrir um livro de matemática. A simples menção da palavra «matemática» infunde calafrios, terror, e pode reconduzir o adulto mais seguro aos tremores de uma divisão com fracções e a outros pesadelos numéricos da infância. E apesar de o pensamento matemático ter deixado nas chamadas Humanidades as suas impressões digitais por todo o lado, dos pitagóricos ao Círculo de Viena, da aposta teológica de Pascal à ética segundo a ordem geométrica de Espinosa, dos primeiros princípios de Descartes ao teorema de Gödel, e apesar de a matemática ter provado ser ao longo da história uma ciência inacreditavelmente mutável e proteiforme, tudo parece ter sido em vão, e a imensa maioria continua a confundi-la com esse fragmento bastante enfadonho que se ensinava (ensina?) nos estabelecimentos do ensino secundário».

 

Martínez, Guillermo, Borges e a Matemática, 1.ª Ed., 2006, Âmbar, Trad. De Miguel Serras Pereira

 

publicado por adignidadedadiferenca às 15:58 link do post
10 de Outubro de 2009

 

 

Uma tese singularmente drástica da nossa modernidade, e contudo amplamente aceite e repetida como um lugar comum da época, afirma a inaptidão de todos os sistemas filosóficos, a impossibilidade das grandes sínteses do pensamento e a incapacidade em geral da razão para dar conta da realidade. Não é difícil imaginar porque é que esta tese tem tanta popularidade: os filósofos são muitos, os livros de filosofia são longos, pensar é cansativo e faz dores de cabeça. E depois, evidentemente, para ler Schopenhauer, é preciso recuar até Hume e a Kant; para ler Sartre, remontar a Heidegger, e não se pode chegar a Marx sem passar antes por Hegel, por Ricardo, por Feuerbach. Para se compreender Wittgenstein, é preciso saber lógica; para ler Vico, história; para abordar Santo Agostinho, teologia. Torna-se, é claro, muito tentador que então alguém nos convença com um bom argumento de que nada disto é necessário, que todos esses rapazes estavam enganados e que podemos passar sem perdas por cima desses três ou quatro mil livros.

Em vez de um bom argumento há um golpe de mão demasiado rápido: a crítica parte da afirmação de que a razão humana é limitada (o que, sem dúvida, é verdade e tão inovador como, por exemplo, dizer que os homens são mortais, ou que, embora agite os braços muito rapidamente, não levantaremos voo) e, à laia de conclusão, põe de lado toda a história do pensamento, fazendo passar por impotência toda a sua limitação.

 

Excerto do texto publicado em La Nación, 13 de Fevereiro de 1994 e incluído no livro Borges e a Matemática organizado por Guillermo Martínez, traduzido por Miguel Serras Pereira e editado pela Ambar.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:24 link do post
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