a dignidade da diferença
03 de Maio de 2015

phoenix 2.jpg

 

Nelly é uma sobrevivente desfigurada dos campos de extermínio nazis. No pós-guerra, após se sujeitar a uma operação de reconstituição facial que a tornou irreconhecível, regressa a Berlim para encontrar o marido, que, crê-se, a terá traído denunciando-a aos nazis. Quando o localiza, este, não a reconhecendo, propõe-lhe que finja quem realmente é para conseguir a sua herança, procurando tirar proveito daquela que, embora não o saiba, é a própria mulher. Resgatando o legado do cinema clássico americano sob a variação do tema da mulher que se transforma no seu duplo (a presença central de Vertigo, de Hitchcock, mas não só), Christian Petzold, num estilo cada vez mais contido, subtil e depurado, constrói um portentoso e amargo edifício estético que abala qualquer crença no mito da reabilitação súbita da Alemanha do período pós-segunda guerra mundial - regeneração que lhe permitiu renascer das cinzas e tornar-se o principal motor da Europa -, configurando um conjunto de personagens que representa uma prolongada anestesia, um vazio moral e um esquecimento mecanicamente acolhidos. Pleno de contenção, comoção e intensidade, Phoenix, há que dizê-lo sem receio, é uma obra-prima do cinema contemporâneo.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:43 link do post
20 de Maio de 2013

 

 

Voltei a pegar no catálogo editado pela Cinemateca Portuguesa, com a autorização da Fundação Calouste Gulbenkian, intitulado In Alfred Hitchcock’s e dedicado ao genial cineasta. Agora que Hitchcock voltou a estar na moda (embora não se possa dizer que ele alguma vez tenha ficado verdadeiramente esquecido) - Vertigo, por exemplo, conquistou o primeiro lugar na mais recente votação para o melhor filme de sempre, promovida em cada década pela revista britânica Sight & Sound. E, recentemente, também esteve em cartaz o filme Hitchcock, retrato bastante sofrível, aliás, da sua personalidade e do período correspondente às gravações do hiperclássico Psycho, com um razoável Anthony Hopkins no papel do mestre do suspense -, não me parece despropositada a ideia de recordar agora duas das suas regras básicas sobre cinema. Enquanto a primeira se refere à adaptação de obras literárias importantes, a segunda consiste na distinção entre suspense e surpresa. Ambas foram reveladas no célebre livro de entrevistas a Truffaut, responsável pela ascensão crítica do cineasta. Passo então a citar:

 

 

«Fala-se muitas vezes de cineastas que, em Hollywood, deformam a obra original. Sempre foi minha intenção nunca o fazer. Leio a história só uma vez. Quando a ideia de base me convém, adoto-a, esqueço completamente o livro e faço cinema. Era completamente incapaz de lhe contar Os Pássaros de Daphne du Maurier. Só li o livro uma vez, a correr. O que não percebo é como se consegue pegar numa obra, num bom romance que o autor levou três ou quatro anos a escrever, onde pôs toda a sua vida. Mexe-se naquilo tudo, aldraba-se, arranjam-se meia dúzia de artífices e técnicos de qualidade e pronto, candidatura aos óscares e o autor submergido por tudo aquilo, ao fundo. Ninguém já pensa nele». E ainda: «Está-se a falar, pode haver uma bomba debaixo da mesa, a conversa não tem nada de especial, não se passa nada de anormal e, de repente, bum, bum. O público fica surpreendido, mas antes de o ficar, tínhamos-lhe mostrado uma cena absolutamente vulgar, sem nenhum interesse particular. Agora, vejamos o suspense. A bomba está debaixo da mesa e o público sabe que a bomba vai explodir à 1 hora e que é 1 menos um quarto (há um relógio no décor). A mesma conversa anódina torna-se apaixonante porque o público participa na cena. Tem vontade de dizer aos personagens que estão na tela: ”deixem-se de conversa de trapos, há uma bomba debaixo da mesa, a bomba vai explodir”. No primeiro exemplo, deu-se ao público quinze segundos de surpresa no momento da explosão. No segundo caso, damos-lhe quinze minutos de suspense». 

26 de Janeiro de 2013

 

 

Num dos seus filmes mais intrinsecamente cinematográficos, Rear Window (Janela Indiscreta, no título português), Alfred Hitchcock projeta o mundo à imagem do protagonista principal, numa das obras em que este tem uma conexão mais profunda com o espectador. Se no plano puramente cinematográfico, no qual a montagem assume um papel essencial para condicionar a reação imediata do espectador cúmplice, o filme era já um prodígio, neste espaço interessa-me sobretudo avaliar até onde poderá ir a invasão da privacidade alheia ou como localizar e estabelecer a fronteira entre o que é admissível e o que é excessivo (por violar um imperativo ético ou moral). Hitchcock coloca, como poucos, o dedo na ferida; o mundo que o protagonista nos oferece é aquilo que ele vê «ao espreitar pelas janelas dos vizinhos». Podendo optar, os personagens do filme não deixam, contudo, de olhar. Como acontece, por exemplo, nessa cena lapidar onde Lisa, após criticar o comportamento de Jeff no momento em que este espreita o quarto do vizinho - denunciando a sua baixeza moral -, desvia o olhar para fixá-lo hipnoticamente entre as persianas do apartamento em frente, dedicando uma atenção exclusiva ao que se passa dentro das suas divisões. Cada um tira as conclusões que entender, mas, no fundo, somos todos voyeurs…

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:14 link do post
31 de Dezembro de 2012

 

Mantém-se o princípio que orientou a apresentação da lista dos meus livros preferidos, lidos durante o ano de 2012. E, dada a escassez de obras realmente interessantes, volto a conjugar filmes estreados nas salas de cinema com filmes editados no mercado de DVD, seguindo uma ordem alfabética. Não quero deixar de destacar, porém, o grande salto em frente que Miguel Gomes deu com o belíssimo Tabu, a notável edição a cargo da Midas Filmes da obra mais emblemática do húngaro Béla Tarr, ou a recordação do documentário de Marcel Ophuls Tristeza e Compaixão, admirável retrato de uma cidade francesa sob ocupação durante a Segunda Guerra Mundial. Por último, vale a pena recordar os prodigiosos filmes de Hitchcock e de Dreyer, cujos brilho, complexidade e intensidade demonstram ainda hoje que dificilmente serão meras peças de museu.

 

Moonrise Kingdom, Wes Anderson

 

Apollonide - Memórias de um Bordel, Bertrand Bonello

 

Cosmopolis, David Cronenberg

 

A Paixão de Joana D'Arc, Carl Th. Dreyer (DVD)

 

Tabu, Miguel Gomes

 

A Gruta dos Sonhos Perdidos, Werner Herzog

 

Vertigo - A Mulher Que Viveu Duas Vezes, Alfred Hitchcock

 

O Gebo e a Sombra, Manoel de Oliveira

 

Tristeza e Compaixão, Marcel Ophuls (DVD)

 

5 Filmes de Glauber Rocha (DVD)

 

O Cavalo de Turim, Béla Tarr

 

Volume I, 4 Filmes de Béla Tarr (DVD)

 

09 de Julho de 2011

 

 

Há dias, no blog Sound + Vision, João Lopes manifestou a sua preocupação pela actual e generalizada falta de educação cinematográfica. Dizia o conhecido crítico, com legítima preocupação, «como é que um espectador formado (?) apenas a ver filmes como este (Transformers 3) se pode alguma vez interessar por um épico de Griffith, um drama de Bergman ou uma comédia de Jerry Lewis? A resposta é simples: não pode. Porquê? Porque não sabe e, sobretudo, porque foi educado para não querer saber». Ontem, porém, numa conversa circunstancial que tivemos com uma colega de trabalho, verificámos que, felizmente, ainda não são todos assim. Dizia ela, com agrado e alguma surpresa, que o seu filho de 15 anos adorava ver os clássicos do cinema dos anos 40 ou 50, ao contrário dos colegas da mesma idade. Citava, como exemplos, o Citizen Kane, de Orson Welles, o VertigoA Janela Indiscreta, ambos de Hitchcock, ou A Laranja Mecânica de Kubrick. Filmes que ela, a propósito, aproveitava para (re)ver com o filho. E já estava convidada para assistir ao Dr. EstranhoAmor. Talvez ainda não se sinta a diferença entre este adolescente e os seus colegas. Mas, mais tarde, ela irá naturalmente revelar-se. É que um vai ter espírito crítico, vai saber que o cinema – e não só – tem memória, vai poder comparar o que se faz hoje com o que se fez ontem e, nessa medida, vai ter uma capacidade superior à dos colegas para avaliar e valorizar determinada obra em termos estéticos. Enquanto a ignorância vai impedir os colegas de distinguir o velho do novo – pois não se irão aperceber como, muitas vezes, aquilo que aparentemente lhes surje como novidade já foi, na realidade, criado anteriormente e até com uma qualidade francamente superior -, a educação contracorrente do filho da nossa colega vai atirá-lo, em princípio, para um patamar superior. Talvez nem tudo esteja perdido.

publicado por adignidadedadiferenca às 11:26 link do post
Maio 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
É falso que o fenómeno tenha ocorrido no preciso m...
Acho que você é quem deveria pensar pela sua cabeç...
Experimente ler "Fátima, Milagre ou Construção?, u...
Não consigo vislumbrar uma ligação directa entre a...
Parece-me que existe uma grande crise de valores e...
Não me parece que a crise de valores ou os valores...
Muito bem! Embora nos dias de hoje e na sociedade ...
Certo; tudo bem que existissem questões políticas ...
Já tive o livro, de facto. Contudo, foi mais ou me...
CaroEstou a procura do livro fatima nunca mais mas...
Não deixa de ser um belo aforismo...
O que é a vida, senão um turbilhão de pensamentos ...
blogs SAPO