a dignidade da diferença
21 de Maio de 2011

 

 

Somos um país onde se destruiu a indústria, a pesca e a agricultura, a troco dos imensos fundos comunitários que, em vez de servir para o investimento produtivo, foram desviados para a construção civil descontrolada e para cobrir o território com quilómetros e quilómetros de auto-estradas - algumas delas com percursos paralelos -, um país onde os negócios do Estado com os privados e as respectivas parcerias deviam, pelos prejuízos pornográficos que intencionalmente têm causado, ser objecto de responsabilidade política e criminal; um país onde, em matéria desportiva, depois de a justiça, bem ou mal, ter ilibado os principais suspeitos do caso «Apito Dourado», jornalistas, adeptos e dirigentes com responsabilidades decidem fazer justiça no «YouTube», numa atitude típica das sociedades primitivas, um país onde aqueles protagonistas que tanto mal lhe têm feito continuam a emitir opiniões doutrinárias para ultrapassar a crise com os mesmos argumentos poeirentos de sempre, já gastos de tão patéticos que são: corte nos salários, sacrifícios para os trabalhadores, os pensionistas, os desempregados, os agricultores, etc, etc - como se fosse por culpa deles que o despesismo do Estado chegou a este ponto. Um país onde as alternativas políticas, à esquerda e mais à direita só têm utilidade no banco da oposição, pois já vimos até onde pode ir o radicalismo, o fanatismo e a paranóia dos esquerdistas, dos comunistas e da direita mais incisiva, se um dia lhes coubesse o governo da nação. Enfim, um país onde o jornalismo caiu até chegar a um nível de vão de escada, mas em que, ainda assim, há, felizmente, quem escreva direito nas páginas dos jornais, como foi o caso de Henrique Monteiro no magnífico artigo que assinou no Expresso da semana passada, do qual destaco as seguintes passagens:

 

 

«A pré-campanha confirma que a estratégia de Sócrates se baseia numa ideia simples: estamos perante uma guerra terrível! De um lado, os defensores do Estado social; do outro, os seus exterminadores. Sócrates está, como sempre, com os bons. A narrativa simplista, porém, destrói-se com memória. (…) A situação a que chegámos, além do muito que tem a ver com a crise internacional, é fruto dos nossos erros estruturais, todos eles construídos, instigados ou permitidos por PS ou PSD. É por isso que, de um modo ou outro, já todos prevíamos as medidas que a EU e o FMI agora nos impõem. (…) Mas os últimos seis anos vincaram fortemente o rumo que até aqui nos conduziu. Somos mais do que nunca uma sociedade em crise, fragmentada, descrente, que assistiu a demasiadas faltas de vergonha. Hoje, pensionistas, trabalhadores, pequenos empresários e agricultores vêem-se obrigados a ter de pagar o dinheiro que o Governo desperdiçou. Mas não foi com pensionistas ou trabalhadores que houve derrapagens e se cometeram excessos. Foram, sim, estradas inúteis, projectos inúteis, consultadorias inúteis, propaganda inútil e boys inúteis que deram cabo do país. (…) Por muito que agitem os fantasmas do neoliberalismo, o que realmente apavora é o apego ao poder de quem nada aprendeu com a crise; de quem todos acusa e se diz vítima inocente após seis anos em que governou como quis. Por mim, bem podem gritar que vêm aí os lobos. Lobos foram eles.»

 

Ou seja, se já é difícil explicar o voto alternativo – que parece, mentalmente, existir apenas na cabeça dos muito crédulos -, o voto insistente no actual primeiro-ministro já vai muito para lá do humanamente explicável, só o autismo e a total irresponsabilidade parece justificar nova eleição de quem perdeu toda a legitimidade para governar.

publicado por adignidadedadiferenca às 12:54 link do post
13 de Abril de 2011

 

 

«O princípio da separação de poderes – trave-mestra dos regimes políticos democráticos e, consequentemente, dos sistemas de governo que com ele coexistem – pressupõe, não apenas a distribuição do poder estadual por diversos órgãos de soberania, mas também a implementação de processos de controlo que previnam eventuais abusos no exercício de tais poderes. Sucede que, ao admitir-se no plano constitucional a possibilidade de um ou mais daqueles órgãos de soberania ficarem isentos da responsabilidade política pelos seus comportamentos, activos ou omissivos, são os próprios equilíbrios básicos em que o modelo assenta que ficam negativamente afectados. E isso ocorrerá tanto mais quanto maior for a amplitude dos poderes cometidos àqueles que se encontram excepcionados desse dever de responder pelos actos que lhe são imputáveis.»

 

José de Matos Correia e Ricardo Leite Pinto, A Responsabilidade Política, Univ. Lusíada Editora

publicado por adignidadedadiferenca às 23:52 link do post
25 de Janeiro de 2011

A ministra do Trabalho, Helena André, propôs esta tarde aos parceiros sociais que as indemnizações pagas aos trabalhadores em caso de despedimento passem a ter por base 20 dias de salários por cada ano de empresa, ao invés dos 30 que são agora praticados. Helena André citou o regime espanhol, em que também há um limite máximo de 12 meses, sendo que estas medidas só farão efeito em contratos a partir do momento em que entrarem em funcionamento, não tendo efeito nos contratos em vigor. Actualmente, os trabalhadores envolvidos em despedimentos colectivos têm direito a uma indemnização de um mês de salário-base por cada ano ao serviço sem limite máximo. Este novo regime pretende, assim, reduzir o valor a pagar a trabalhadores despedidos.” 

 

 

A notícia que acabaram de ler - retirada da edição on-line do jornal A Bola – merece curtos mas incisivos comentários, como o facto de o nosso Governo nem sequer ter coragem para assumir a medida laboral como sua; logo haviam de invocar o regime espanhol sobre a mesma matéria (como se aquele fosse comprovadamente um bom exemplo a seguir por alguém…). Dado que não alcançamos facilmente o rumo positivo a que a medida nos conduzirá – enfim, escapará aos nossos governantes, no mínimo, o verdadeiro sentido de oportunidade -, é, para já, apenas caso para afirmar: “neste país nem os filhos da p… são originais!

publicado por adignidadedadiferenca às 19:32 link do post
06 de Novembro de 2010

 

Não posso deixar de referir neste blog a recente e muito elucidativa entrevista dada pelo histórico do PS, Henrique Neto, ao Jornal Económico. Reparem bem com que gente é que andamos metidos e porque motivo o nosso país caminha a passos largos e seguros para o precipício. Sem prejuízo do efeito nefasto que o capitalismo internacional, diabólico, selvagem e devorador, provoca em muitos Estados modernos europeus. Ora são os mercados que um dia confiam no país, no outro já não, ora é o FMI que diz e se contradiz, ora são as agências de rating completamente «maradas», ou os juros que descem, sobem, tornam a descer e voltam a subir enquanto nada acontece que o justifique em tão curto espaço de tempo. Mas voltemos ao nosso primeiro-ministro e aos excertos da entrevista.

 

 

«Sócrates é um vendedor de automóveis que está no topo da pirâmide dos que dão cabo disto». Henrique Neto recorda que da primeira vez que viu Sócrates discursar pensou: «Este gajo não percebe nada disto. Mas ele falava com aquela propriedade com que ainda hoje fala sobre aquilo que não sabe». Adianta e recorda-se de pensar a seguir: «Este gajo é um aldrabão. É um vendedor de automóveis». «Sempre achei que o PS entregue a um tipo como Sócrates só podia dar asneira. Tem três qualidades, ou defeitos: autoridade, poder, ignorância. E fala mentira». Henrique Neto descreve a forma como decorreu a última comissão política do PS, no dia em Sócrates apresentou as medidas de austeridade. Conta que o secretário-geral do PS convocou a reunião de última hora, «para ninguém ir preparado», e organizou os trabalhos para que «o grupo dos seus fiéis fizesse intervenções umas a seguir às outras». «A ideia dele era que o partido apoiasse as medidas», afirma. «Aquilo é uma máfia que ganhou experiência na maçonaria. Sócrates entrou por essa via e os outros todos também. Até o Procurador-Geral da República. Usa técnicas de maçonaria para controlar a verdade. Não tenho nada contra José Sócrates. Se ele se limitasse a ser um vendedor de automóveis. Mas ele é primeiro-ministro e está a dar cabo do meu país. Não é o único, mas é o mais importante de todos» Ver aqui e também aqui.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:11 link do post
29 de Agosto de 2010

 

O grupo parlamentar do CDS quis saber quanto gasta o nosso Governo, anualmente, com as rendas e questionou todos os ministérios que contratos de arrendamento – e quais os valores – foram celebrados nos últimos cinco anos. Nem todos responderam, mas sobre o que se sabe vale a pena reflectir.

O semanário Expresso fez, na edição deste fim-de-semana, uma análise aos gastos do Estado com o arrendamento de imóveis que vendeu a si próprio (!). Para se compreender o estado de completo desnorte a que os nossos governantes chegaram nestas questões de «engenharia financeira», veja-se estes casos exemplares que o semanário conta:

 

 

«Está nesta situação, por exemplo, o edifício da Avenida da República que alberga a secretaria-geral do Ministério da Economia. O imóvel foi vendido em 2008, por €10,7 milhões, à Estamo. Os serviços que lá estavam lá continuaram e, segundo explicou ao Expresso o gabinete de imprensa do Ministério da Economia, está atualmente em negociação um contrato de arrendamento, pelo valor mensal de 69.400 euros (832.800 euros por ano). Feitas as contas, Albino Bessa nota que é um excelente negócio para o comprador: o investimento 10,7 milhões está pago ao fim de doze anos. No Ministério da Agricultura há três casos parecidos: dois imóveis vendidos na anterior legislatura por 5 milhões, e outro por 7,4 milhões, todos comprados pela Estamo. Pelos primeiros, o ministério ficou a pagar uma renda de €33 mil, pelo último paga quase €50 mil. As contas são parecidas: ao fim de doze anos a Estamo recebeu em rendas o valor pago.»

 

 

Ou seja, dentro de doze anos, o Estado gastou o que ganhou e a partir daí, as contas parecem-me fáceis de fazer, o Estado terá mais uma despesa a acrescentar a tantas outras. Trata-se, como é evidente, de mais um caso demonstrativo das vistas curtas e do pensamento a curto prazo de quem nos governa. A factura todos sabemos quem a pagará…

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:31 link do post
Julho 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
É falso que o fenómeno tenha ocorrido no preciso m...
Acho que você é quem deveria pensar pela sua cabeç...
Experimente ler "Fátima, Milagre ou Construção?, u...
Não consigo vislumbrar uma ligação directa entre a...
Parece-me que existe uma grande crise de valores e...
Não me parece que a crise de valores ou os valores...
Muito bem! Embora nos dias de hoje e na sociedade ...
Certo; tudo bem que existissem questões políticas ...
Já tive o livro, de facto. Contudo, foi mais ou me...
CaroEstou a procura do livro fatima nunca mais mas...
Não deixa de ser um belo aforismo...
O que é a vida, senão um turbilhão de pensamentos ...
blogs SAPO