a dignidade da diferença
20 de Fevereiro de 2017

 

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A Comissária, filme realizado em 1967 por Aleksandr Askoldov, um autor praticamente desconhecido, foi proibido na União Soviética pelas autoridades durante mais de vinte anos, revelando-se apenas em 1988, ano em que percorreu o circuito mundial de festivais de cinema e conquistou o Prémio Especial do Júri no Festival de Berlim. Situado cronologicamente durante o período da guerra civil (1918-1922), após a revolução bolchevique, a obra de Askoldov descreve a história de uma mulher, comissária do exército, fervorosamente patriótica e partidária, que, para continuar a combater, pretendia abortar o seu feto (e Askoldov explora sem concessões a crueldade dessa escolha). Tendo, contudo, deixado descuidadamente decorrer o tempo útil para o poder fazer, acabou por dar à luz um filho indesejado. Esses derradeiros dias da gravidez são vividos conjuntamente com uma família judaica que suporta a crueza e as agruras do dia-a-dia. Sustentado por uma magnífica mise-en-scène, na qual evolui com destreza um verdadeiro tratado sobre relações humanas – entre vizinhos, amigos, cônjuges, crianças, pais e filhos – o cineasta consegue convencer-nos da autenticidade da mudança que ocorre no espírito da comissária, provocada pela convivência com a dor e a visão onírica do casal de judeus, a sua desarmante simplicidade e o cuidado com os filhos, vencendo o conflito interior entre o desejo de combater ao lado dos seus camaradas e a condição maternal, demonstrando uma crescente afeição pelo rebento. O retrato dessa extrema experiência de vida, dos dramas familiares, bem como as inusitadas alusões ao holocausto ou ao regime totalitário de Estaline – ilustradas, por exemplo, numa soberba, inquietante e tensa sequência protagonizada pelas crianças, filhos do casal de judeus – sobressai num filme matizado pela magnífica fotografia a preto-e-branco, pela elaborada composição dos planos (elegantes, violentos, tranquilos ou doloridos, em tudo similares à existência que vão exibindo) e pelas profundidade, solidez e expressividade dos actores, características que contribuem necessariamente para a excelência de um filme único (em todos os sentidos) que recomendo vivamente.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:43 link do post
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