a dignidade da diferença
01 de Junho de 2016

 

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«Existe um leque cada vez mais variado de terapias alternativas que pretendem ser alternativas à medicina racional, a medicina que se ensina nas Faculdades, que se baseia em provas fundadas no método científico. Em geral, essas terapias agarram-se a verdades avulsas, mais próximas de uma crença religiosa do que do conhecimento científico. São amálgamas entre aquilo que os terapeutas alternativos consideram ser a medicina tradicional (que tem o seu valor cultural e nalguns casos alguma eficácia terapêutica) e ideias recentes, bem pouco sólidas, acerca de associações entre doenças e estilos de vida. Estas terapias alternativas caracterizam-se por recusarem toda a metodologia científica que valida um tratamento convencional e por, simultaneamente, escolherem a dedo certas ideias que apresentam como cientificamente comprovadas (por exemplo, que determinada raiz de uma planta tem uma acção anticancerígena). O melhor de dois mundos, à la carte, conforme servir a ocasião ou o público-alvo. (…) Uma farmácia também já não é um lugar seguro. Podemos encontrar nas prateleiras das farmácias todo o género de charlatanices, desde cosméticos caríssimos contendo nanopartículas que oferecem vantagens duvidosas em relação a alternativas muito baratas a suplementos vitamínicos de utilidade inexplicável e mesmo, nalguns casos, a aldrabices descaradas, como remédios homeopáticos. Há também um exército de delegados de propaganda médica que todos os dias, nos hospitais e consultórios, procura convencer os médicos de algumas coisas que são verdadeiros absurdos.»

David Marçal e Carlos Fiolhais, in Pipocas Com Telemóvel e Outras Histórias de Falsa Ciência

23 de Maio de 2016

 

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Como avisa o seu autor - o reputado neurologista Alexandre Castro Caldas -, as páginas deste livro não ambicionam dar uma resposta às perguntas que tantas vezes se colocam (quem somos, o que é o cérebro ou quais as suas funções?), pois pretendem apenas abrir as portas para a reflexão. Com efeito, o convite à reflexão proposto por Uma Visita Politicamente Incorrecta ao Cérebro Humano infere-se da sua abordagem a uma sequência de assuntos entre os quais sobressai a forma como acreditamos nas coisas, a relação das ideias com os sonhos, a interacção do cérebro com a informação adquirida, a falta de memória provocada pelas doenças do cérebro, a vontade e o livre-arbítrio, os desafios do cruzamento entre o natural e o artificial ou as interpretações transcendentes. Possuidor de uma rara aptidão para clarificar assuntos complexos sem perder a necessária capacidade analítica, Alexandre Castro Caldas, perfilhando o modelo da evolução das espécies, propõe aos seus leitores uma curiosa e por vezes fascinante expedição às origens do cérebro humano, suas características e limitações. Explica o seu funcionamento, aprecia o dinamismo dos instrumentos sensoriais ou cognitivos e divulga uma série de experiências e ideias que transmitam aos curiosos um maior conhecimento sobre a actividade mental ou, empregando as palavras do investigador científico, sobre o que temos «dentro da nossa caixa craniana».

23 de Fevereiro de 2016

 

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Uma das passagens mais admiráveis do livro Being Mortal ocorre quando o seu autor, o cirurgião, escritor e investigador Atul Gawande, incide sobre a decisão de uma paciente quanto à sujeição ou não a uma cirurgia, após a avaliação dos seus riscos. Atul Gawande explica que «o cérebro dá-nos duas maneiras de avaliar experiências como o sofrimento – há a maneira como apreendemos essas experiências no momento e como as encaramos mais tarde – e essas duas maneiras são profundamente contraditórias». Aproveitando uma série de experiências descritas pelo investigador Daniel Kahneman – que poderão ser lidas na sua obra fundamental, Thinking, Fast and Slow – o cirurgião lança alguma luz sobre o assunto. No seguimento dessas experiências sobreveio um fenómeno que Daniel Kahneman designou como «a regra do pico-fim». Como o próprio esclareceu, esta regra consiste na média da dor sentida em dois momentos significativos: o momento derradeiro e o momento mais doloroso sentido durante a referida operação. Desta resultou a atribuição de dois eus distintos às pessoas: um eu que vive as coisas e um eu que as recorda. A regra do pico-fim, bem como a tendência para as pessoas ignorarem a duração do sofrimento, foi, segundo Daniel Kahneman, confirmada por estudos realizados nos mais variados contextos. «Se o eu que vive e o eu que recorda podem ter opiniões diferentes sobre a mesma experiência, a qual dos dois devemos dar ouvidos?» – interroga-se Atul Gawande. Regressando à decisão que a sua paciente deve tomar, deverá esta observar o eu que recorda e antecipa, convergindo nas coisas piores que poderá sofrer, ou o eu que vive e que terá um nível médio de sofrimento mais baixo no futuro imediato? Com efeito, ao contrário do eu que vive, absorvido no instante, o eu que recorda tenta compreender como se desenvolve a história como um todo. E numa história, sublinhe-se, o final é importante…

 

25 de Janeiro de 2014

 

«As aparências iludem. No entanto, possuímos um amplo conhecimento da vasta e desconhecida realidade que as causa e das elegantes leis universais que regem essa realidade. Esse conhecimento assenta em explicações: afirmações sobre o que existe para além das aparências, e sobre como se comporta. Não fomos muito bem sucedidos na criação deste tipo de conhecimento na maior parte da história da nossa espécie. De onde vem? O empirismo dizia que o extraíamos da experiência sensorial. Isto é falso. A verdadeira fonte das nossas teorias é a especulação, e a verdadeira fonte do nosso conhecimento é a especulação alternada com a crítica. Criamos teorias reorganizando, aliando, alterando e acrescentando ideias às já existentes com a intenção de as melhorar. O papel da experimentação e da observação é escolher entre as teorias existentes, e não originar outras novas. Interpretamos as experiências através de teorias explicativas, mas as verdadeiras explicações não são óbvias. O falibilismo implica não ter em conta a autoridade mas, em vez disso, reconhecer que podemos estar sempre errados, e tentar corrigir os nossos erros. Fazemo-lo quando procuramos boas explicações – explicações de que é difícil criar variantes no sentido em que alterar os pormenores arruinaria a explicação. Este, e não o ensaio experimental, constitui factor decisivo na revolução científica, bem como no progresso sustentado, rápido e único noutras áreas do iluminismo. Foi uma revolta contra a autoridade que, ao contrário de outras semelhantes, não tentou alicerçar-se em justificações para as teorias do poder, mas antes estabelecer uma tradição de crítica. Algumas das ideias daí resultantes têm um enorme alcance: explicam mais que o originalmente proposto. O alcance de uma explicação é um atributo intrínseco dessa explicação, não uma suposição que fazemos sobre ela, como defendiam o empirismo e o indutivismo.»

David Deutsch, The Beginning of Infinity – Explanations that Transform the World

21 de Setembro de 2013

 

 

How to Lie with Statistics, escrito por Darrell Huff - publicado recentemente no nosso país pela Gradiva, integrado na coleção Ciência Aberta, intitulado Como Mentir Com a Estatística e traduzido por Rui Filipe Graça, ficando, por sua vez, a revisão científica a cargo de Carlos Fiolhais -, tornou-se um hiperclássico com mais de meio século de existência. Concebido essencialmente com o objetivo de preparar as pessoas contra quem as procura enganar através do (ab)uso da estatística – cujas médias, correlações, tendências e gráficos, como refere Huff, nem sempre são aquilo que parecem -, e construído numa linguagem bastante acessível, simples e clara, sem esquecer contudo o necessário rigor científico, este livro tem ainda hoje a capacidade para ensinar e divertir os seus leitores, explicando como se deve encarar e enfrentar uma estatística falsa (certificando-se, por exemplo, se esta faz algum sentido). Retirados da sua pequena introdução à obra, ficam aqui referidos alguns dos propósitos iniciais do seu autor:

 

 

«A linguagem secreta da estatística, tão atraente no quadro de uma cultura baseada em factos, é usada para causar sensacionalismo, para amplificar, para confundir e para simplificar o mais possível. Os métodos e termos estatísticos são necessários para comunicar um grande volume de dados sobre tendências socioeconómicas, condições de mercados, pesquisas de opinião e recenseamentos. Todavia, sem autores que usem as palavras com honestidade e sentido e sem leitores que saibam o que elas querem dizer, o resultado só poderá ser um completo disparate semântico. Na escrita popular sobre assuntos científicos, os abusos estatísticos quase nunca aparecem associados ao lugar-comum do herói de bata branca que trabalha horas a fio num laboratório mal iluminado, sem direito a pagamento de horas extraordinárias. Como se fossem uns pozinhos de perlimpimpim, as estatísticas fazem muitos factos importantes parecerem aquilo que, de facto, não são. Uma estatística bem embrulhada é melhor do que a “grande mentira” da propaganda hitleriana – engana, mas não revela a origem do engano. Este livro é uma espécie de introdução às várias formas de usar a estatística para enganar alguém. Pode parecer um manual para vigaristas. Talvez eu possa justificá-lo com a imagem do ladrão aposentado cujo livro de memórias equivale a uma licenciatura em arrombar fechaduras e andar com pezinhos de lã: os bandidos já conhecem esses truques, mas as pessoas honestas devem aprendê-los para sua própria defesa.»

29 de Agosto de 2013

 

 

«A teoria das cordas, tal como é entendida, postula que o mundo é essencialmente diferente do mundo que conhecemos. Se a teoria das cordas estiver certa, o mundo tem mais dimensões e muito mais partículas e forças do que as observadas até ao momento. Muitos teóricos das cordas falam e escrevem como se a existência dessas dimensões e partículas adicionais fosse um facto comprovado, de que nenhum bom cientista pode duvidar. Mais de uma vez algum teórico das cordas me disse coisas como “quer dizer que tu achas que é possível não existirem dimensões extra?”. Na verdade, nem a teoria nem a experiência oferecem qualquer indício de que existam dimensões extra. Um dos objectivos deste livro é desmistificar as afirmações da teoria das cordas. As ideias são bonitas e com boa motivação. No entanto, para entender por que razão não levaram a um progresso maior temos de ser claros precisamente quanto ao que os dados apoiam e ao que ainda está a faltar. Uma vez que a teoria das cordas é um empreendimento de tão alto risco – não sustentado pela experiência, apesar de muito generosamente apoiado pelas comunidades académicas e científicas -, existem apenas duas maneiras de a história acabar. Se a teoria das cordas se revelar correcta, os teóricos das cordas passarão a ser os maiores heróis da história da ciência. Com base num punhado de pistas – tosas elas de leitura ambígua -, terão descoberto que a realidade é muito mais vasta do que se imaginava. (…) Por outro lado, se os teóricos das cordas não tiverem razão, não podem estar apenas um pouco errados. Se as novas dimensões e simetrias não existirem, incluiremos os teóricos das cordas entre os maiores fracassados da ciência, como aqueles que continuaram a trabalhar nos epiciclos de Ptolomeu na altura em que Kepler e Galileu avançaram. Sobre eles serão contadas histórias de advertência acerca do modo como não se deve fazer ciência, como não permitir que a conjectura teórica fique tão para além dos limites do que pode ser racionalmente argumentado que o seu autor comece a envolver-se em pura fantasia.»

Lee Smolin, O Romper das Cordas, Ascenção e Queda de uma Teoria e o Futuro da Ciência

26 de Dezembro de 2012

 

 

«Já referi a repulsa que Darwin sentia – e que era partilhada pelos seus contemporâneos – pelo exemplo da fêmea da vespa icneumonídea, que paralisa a presa com o seu ferrão sem a matar, mantendo assim a carne fresca para a larva que se desenvolve no interior da vítima. Recordar-se-á de que Darwin não conseguia aceitar que um criador benfazejo pudesse ter concebido esse comportamento. Mas com a seleção natural ao volante, tudo se torna claro, compreensível e com sentido. À seleção natural não importa o bem-estar. Porque deveria importar? Para algo acontecer na natureza, o único requisito é que o mesmo acontecimento, em tempos ancestrais, tenha contribuído para a sobrevivência dos genes que o promovem. A sobrevivência dos genes é uma explicação suficiente para a crueldade das vespas e para a indiferença empedernida da natureza: suficiente – e satisfatória para o intelecto se não para a compaixão humana.

 

 

Sim, há grandeza nesta visão da vida, e há até uma certa grandeza na indiferença serena da natureza ao sofrimento que decorre inexoravelmente do princípio orientador, a sobrevivência dos mais aptos. Os teólogos poderão estremecer com este eco de um estratagema habitual da teodiceia, onde o sofrimento é visto como uma inevitabilidade do livre-arbítrio. Os biólogos, por seu turno, perceberão que “inexoravelmente” não é de modo algum demasiado forte quando refletem – talvez segundo as linhas da minha reflexão sobre a “bandeira vermelha” do capítulo precedente – sobre a função biológica da capacidade de sofrer. Se os animais não sofrem, é porque alguém não está a trabalhar o suficiente na questão da sobrevivência dos genes. Os cientistas são humanos, e têm todo o direito de rejeitar a crueldade e de condenar o sofrimento. Mas os bons cientistas como Darwin reconhecem que as verdades do mundo real, por muito desagradáveis que sejam, têm de ser enfrentadas.»

O Espetáculo da Vida, de Richard Dawkins, tradução: Isabel Mafra

31 de Março de 2012

 

«O resultado é que Poeira da Alma, que se inicia com as questões mais básicas acerca da natureza da perceção e da sensação conscientes, torna-se uma obra sobre a evolução da espiritualidade e sobre o modo como os humanos se instalaram naquilo a que chamo o nicho da alma. Embora eu não tenha qualquer crença no sobrenatural, não apresento desculpas para repor na alma onde estou certo de que é o seu lugar: no centro dos estudos da consciência. Mesmo assim, embora a obra termine debruçando-se sobre muitas preocupações humanas familiares, não se deve esperar que seja de leitura fácil. Houve trabalho que tive de desenvolver, e também será necessário que o leitor faça o mesmo. As respostas a que chego são por certo distintas das que a ciência tem apresentado. Tenho de admitir que, por si só, isto não é uma recomendação. Por certo que a ciência pretende ser mais cumulativa do que revolucionária. Porém, quando a investigação anterior sobre a consciência não produziu quase nada como resposta às grandes interrogações das pessoas sobre o mistério da sua experiência, talvez já não possamos continuar a confiar na ciência como estamos acostumados a fazer. O mundo material dotou os seres humanos de almas mágicas. As almas humanas retribuíram o favor, lançando um sortilégio sobre o mundo. Para compreender esses factos assombrosos, convido-vos a dar início à leitura.»

«Poeira da Alma», de Nicholas Humphrey, tradução de Ana Falcão Bastos

publicado por adignidadedadiferenca às 23:44 link do post
12 de Fevereiro de 2012

 

 

O Património Genético Português é uma obra muito interessante, nada inacessível, sobre a origem dos portugueses, investigando a sua história genética. Uma escrita elegante serve de suporte ao estudo do nosso património genético, cujas conclusões são o espelho natural das paixões e do conhecimento obtidos e desenvolvidos pelas autoras de tão singular trabalho: Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. No fundo, uma preciosa ajuda para compreender as características, a evolução e a diversidade dos portugueses através da sua história, da sua memória e das suas relações, referências, caminhos e desvios. Um património genético comum que merece ser conhecido e para cuja divulgação contribui o assinalável esforço desenvolvido por esta obra meritória assente num elevado grau de rigor científico. Como se afirma no posfácio deste livro «É, contudo, importante realçar que o verdadeiro poder informativo do estudo das linhagens maternas e paternas se centra na inferência das migrações da espécie humana no seu conjunto; em saber que somos uma espécie recente, nascida há cerca de 150 000-200 000 anos; em conhecer o nosso berço no Leste de África; em seguir migrações ao longo do mundo e ao longo do tempo».

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