a dignidade da diferença
01 de Janeiro de 2014

Fim da recolha. Entre novidades e (primeiras) reedições, sem restrições de categorias ou géneros musicais, aqui ficam os discos que mais gostei de escutar em 2013 – no total são trinta discos os escolhidos. Destaque merecido para o opus 2 de Anna Calvi, o extraordinário e inesperado regresso da folk de Linda Thompson, a feliz aventura jazzística de June Tabor (no coletivo Quercus), Machineries Of Joy, dos British Sea Power, em cujas veias circulam revitalizados a tensão e o magnífico sangue musical dos Echo & The Bunnymen, o instinto melódico conjugado com o experimentalismo subtil do último trabalho de Laura Veirs, e para a reedição da obra integral da admirável Banda do Casaco. De fora ficaram, injustamente, Shaking the Habitual, dos arrojados The Knife - embora de digestão algo difícil, mas o futuro pertence-lhes -, o precioso classicismo de Electric, de Richard Thompson, ou o mais recente, introspectivo e belíssimo trabalho dos These New Puritans. Não é possível, contudo, incluir todos. The Jazz Age, da Bryan Ferry Orchestra, e The Sparrow, de Lawrence Arabia, também ficaram de fora. Estes, porém, deixei-os à margem por outra razão. Embora só os tenha escutado em 2013, foram na realidade publicados durante o ano de 2012.

 

  

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

20 de Abril de 2013

 

 

Cristina Branco descreve o seu mais recente trabalho como «um retrato com tanto de cru como de irónico e sensível do homem e da mulher de todos os dias, do café, do fim da rua, do virar da esquina, de qualquer parte do país ou largado no mundo». O sentido dos textos não engana, os tempos são difíceis e a autora endurece o seu discurso. Assumindo como missão despertar algumas consciências adormecidas, Cristina Branco vai, contudo, muito mais longe: o significado que atribui às palavras não é unívoco e o título Alegria não esconde a ideia paradoxal que se estende por todo o álbum («as duas faces da mesma moeda», como refere Cristina Branco). Por sua vez, a voz doce, cristalina e expressiva da cantora amacia o tom grave da maioria das canções, mas combina surpreendentemente aquela aparente suavidade com uma ironia, um atrevimento, uma graça e uma carga dramática que foram crescendo ao longo da sua carreira e permitem, por fim, que aquela voz atinja o cume da sua capacidade. Afastando-se deliberada e definitivamente da matriz cristalizada do fado, a matéria musical diversificada de Alegria amplia, identifica e desmonta o sentido dos textos, enriquecendo-o com uma cuidada atenção aos detalhes, uma disposição e um encaixe perfeitos dos diferentes materiais sonoros e um rigor e uma precisão típicos de um relojoeiro, cuja conjugação se materializa num disco com uma qualidade imprevisível, numa música sem tempo e sem fronteiras que não se sente limitada quando parte em busca dos seus estímulos.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:41 link do post
31 de Dezembro de 2011

 

Foi um ano bom para a música portuguesa. É certo que não tivemos direito a ofertas de valor absolutamente extraordinário, não houve música que rompesse com os critérios previamente definidos, inventando novas coordenadas ou fronteiras estéticas. Mas houve uma muito razoável diversidade sonora e louváveis e afirmativas demonstrações de personalidade e maturidade musical, com especial destaque para o magnífico regresso dos Dead Combo, com o waitsiano Lisboa Mulata, a inesperada gravação dos fados e das canções de Fernando Alvim - na medida em que nos habituámos a ver nele apenas a sombra de Carlos Paredes -, o esqueleto sonoro do depurado e essencial Animal (Osso Vaidoso), o ágil e sedutor clacissismo de Cristina Branco ou para a surpreendente e singular visão reichiana vinda do interior do país pela mão dos Campanula Herminii. Desilusões? Talvez duas, porque totalmente inesperadas: as mais recentes gravações de B Fachada e de Sérgio Godinho. Aqui fica então a nossa lista dos prováveis dez melhores (que podia perfeitamente incluir mais dois ou três discos sem perda assinalável de qualidade - estamo-nos a lembrar, por exemplo, do último trabalho de César Prata).

 

Aquaparque, Pintura Moderna

 

 Campanula Herminii, Cumeada

 

Carlos Bica & Azul, Things About

 

Ciclorama, A Presença das Formigas

 

Cristina Branco, Não Há Só Tangos em Paris

 

Dead Combo, Lisboa Mulata

 

Fernando Alvim, Fados & Canções do Alvim

 

Kubik, Psicotic Jazz Hall

 

Os Lacraus, Os Lacraus Encaram o Lobo

 

Osso Vaidoso, Animal

 

12 de Março de 2011

 

Cristina Branco acrescenta, com o novíssimo Não Há Só Tangos Em Paris, mais um dado novo ao seu original percurso musical pelos caminhos do fado-canção. Desta vez, após o excelente Kronos – onde questionava, uma vez mais, se o que cantava era ou não fado, aproveitando para expandir subtilmente os seus limites -, Cristina Branco viaja por Buenos Aires, Lisboa e Paris, ou seja, investe na matriz (ou género) musical que imediatamente associamos àquelas cidades: a sensualidade do tango, a tristeza do fado e a melancolia da chanson française; dito de outro modo, traz-nos as memórias de Gardel, Amália e Brel. Adiciona-lhe, como é seu timbre, pequenos sulcos, factores de inquietação, os quais enriquecem a sua música com novas cambiantes, injecta-lhe diferentes ângulos de visão e inventa inesperadas coordenadas, sem, contudo, se afastar demasiado de um sereno classicismo. As canções ganham assim uma formidável ambiguidade, não são maçadoramente lineares, e fornecem à sua autora (embora Cristina Branco não as assine) matéria suficiente para se manter como uma das mais excelsas cantoras teoricamente tradicionais da actualidade.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:08 link do post
03 de Janeiro de 2010

 

Dois mil e nove foi um ano de boa colheita para a música nacional. Por uma vez foi possível fazer uma lista com doze discos de qualidade - como se fosse um por cada mês de calendário - e ainda ficaram uns quantos de fora. Voltará a repetir-se?

 

Uma Autora 202 Canções, Amélia Muge

 

B Fachada, B Fachada

 

Cacique'97, Cacique'97

 

Kronos, Cristina Branco

 

Joana Carneiro/Orquestra Gulbenkian/Tchaikovsky, Joana Carneiro

 

Muda Que Muda, João Coração

 

Três Cantos Ao Vivo, José Mário Branco/Sérgio Godinho/Fausto

 

Assim Falava Jazzatustra, Júlio Resende

 

Meio Disco, Os Quais

 

Tasca Beat - O Sonho Português, OqueStrada

 

Luminismo, Ricardo Rocha

 

Nem Lhe Tocava, Samuel Úria

 

31 de Março de 2009

 

Sim, é verdade que dois mil e nove já nos deu, pelo menos, o óptimo disco de Andrew Bird, uma gravação muito boa (pronto, consegui libertar-me dos preconceitos) dos Animal Collective e a estupenda interpretação «live» de Van Morrison no regresso ao miraculoso Astral Weeks.

No entanto, a avaliar pelo que escutámos até hoje, a marca que sobressai deste primeiro trimestre do ano é a magnífica colecção de canções assinadas por Neko Case, Alela Diane e da nossa bem portuguesa (enfim, um pouco de patriotismo cai sempre bem) Cristina Branco. E já nem me refiro à sublime gravação da mezzo-soprano Elina Garanča, o sobreexcelente Bel Canto.

Com Kronos, Cristina Branco deixa novamente sem grandes argumentos todos aqueles que continuam a questionar se o que ela canta é fado. Se a tristeza sentida interiormente quando escutamos as suas imensas e cristalinas interpretações convive, inevitavelmente, com o «espírito do fado», a verdade é que o seu ecletismo consegue transformar as canções que interpreta em muito mais do que simples fado. O aviso já vinha de trás. Fora assim em Sensus, em Ulisses ou quando cantou Amália e, mais recentemente, José Afonso.

 

Cristina Branco, Bomba Relógio

 

 

Música popular portuguesa assimilada pelos olhos de José Mário Branco e Sérgio Godinho, pedaços de tango ou um doce e suave aroma brasileiro, convivem muito naturalmente com o esqueleto do fado ou com a sensibilidade outonal da música de câmara. Uma intérprete notável que consegue fazer da música e das palavras dos outros coisa sua.

Não fará mais sentido, por tudo isto, chamá-la autora?

Neko Case regressou com Middle Cyclone e com ele continua a seguir o mesmo trilho sonoro «dirty» e incendiário que já pisámos de Blacklisted a Fox Confessor Brings The Flood. Uma alma vagabunda precursora do country-noir (como já lhe chamaram) em diálogo directo com o mundo habitado pela voz de Patsy Cline ou pelas melodias singulares e oblíquas de Jolie Holland e Cat Power. E, uma vez mais, magnificamente acompanhada pelos cúmplices do costume.

 

Neko Case, This Tornado Loves You

 

Acrescentem-lhe o universo devastador e desamparado de Karen Dalton, a solidão de Sandy Denny, a delicadeza sonora do último álbum a solo de PJ Harvey ou a alma fúnebre e agreste de Nina Nastasia (Maria McKee ou Laura Veirs também podiam reclamar a sua presença) e, posso dizê-lo, acabaram de ouvir To Be Still, o segundo e assombroso testemunho musical da mais recente revelação da música popular: Alela Diane.

 

Alela Diane, White As Diamonds

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:57 link do post
08 de Janeiro de 2008

Num pequeno país como o nosso, onde a atenção prestada à cultura – e às mais variadíssimas formas de expressão artística – é muito pouca, o que esperar da música que se ouve e da música que se faz? Muito pouco, obviamente.

Sim, eu sei que todas as músicas merecem ser respeitadas, porque todas elas preenchem, de uma certa forma, uma parte nada desprezível da vida de cada um de nós (até o documentário «ainda há pastores», transmitido na Sic, mostrou isso de forma veemente, ao descrever-nos a importância que a música de Quim Barreiros tem nas pequenas coisas que compõem o universo dum dos pastores ali retratados). Mas, desafiando quem acena com os mandamentos de um certo relativismo cultural, também será legítimo lamentar quando muitos hesitam perante o que lhes exige uma escuta atenta e privilegiam, quase sempre, a música massificada, uniformizada e expressa de forma indigente. Este gosto (duvidoso) resulta, não por se discordar de determinada corrente ou ousadia estética, mas na opção que se toma, negligentemente, por  música esteticamente desclassificada. Se nem tudo se reduz a música fácil, muito se deve à disponibilidade que alguns vão mantendo para divulgarem as imensas possibilidades e soluções que a música nos pode oferecer. Claro que a melhor música nunca foi feita para toda a gente e acaba, mais cedo ou mais tarde, por chegar a quem  a «merece». Contudo, e a título de exemplo, não deverá o nosso ouvido estar atento às coisas simples, sim, mas onde, lentamente, lhes vamos adivinhando pequenas subtilezas que as vão enriquecendo e matizando? E porquê tanta condescendência para a verdadeira ditadura das «playlists» radiofónicas e para o manifesto desinteresse a que é votado, pelas nossas televisões, qualquer tipo de música construída de forma minimamente original, inteligente e sensível?

Se faltam as escolas e, consequentemente, alunos que, nelas, aprendam, na música popular nem é disso verdadeiramente que se trata. Claro que, com maior quantidade de músicos, mais fácil se torna haver música de qualidade. Mas, na realidade, a melhor música popular nunca dependeu directamente da formação musical dos seus executantes, porque sempre se valeu mais das ideias que da técnica (e bem sabemos o que aconteceu quando o interesse pela execução técnica ficou com a parte de leão. Rock progressivo, diz-vos alguma coisa?). A pecha maior será num âmbito cultural mais vasto. Julgo que a maioria tem, talvez, a noção de que a educação é da única responsabilidade dos pais e acaba com a independência conquistada. Mas não nos fará falta, para uma aprendizagem mais profunda, a música, a literatura, a história, o cinema, a pintura e por aí fora? Caso contrário, do que serão feitos os nossos sonhos e com que coisas ocuparemos o nosso espírito?

Claro que esta mentalidade se transmite, muito naturalmente, para os músicos. Se ao público, em geral, pouco apetece ouvir, aos músicos pouco apetece fazer... Pois bem, e agora, que balanço se deve fazer do ano musical que findou?

Lixo do ano para as canções diabéticas e infantilizadas de André Sardet, para o verdadeiro espírito «natal dos hospitais» do duo formado por João Pedro Pais e Mafalda Veiga e, em menor escala, para o descarado copianço que se faz da música que vem lá de fora.





Do que merece ser recordado, como sempre, a escassez é grande. No género clássico, foi importante a edição integral das canções de Luís de Freitas Branco e a edição da obra «in memoriam Béla Bartók» da autoria de Fernando Lopes-Graça,  interpretada pelo pianista António Rosado, em mais uma louvável iniciativa da câmara municipal de Matosinhos e da Numérica. Na área do jazz, vale a pena rendermo-nos à Orquestra de Jazz de Matosinhos. Para a música popular, destaque primeiro e quase exclusivo para Amélia Muge e «não sou daqui». Música portuguesa cada vez mais música do mundo. Ainda, e de novo, a melhor voz nacional, e a mais-valia de ter, entre o muito bom que é tudo o resto, três canções absolutamente espantosas: «entre o deserto e o deserto», «na noite mais escura» e «transparência» a fazer lembrar (muito) a clareza e gravidade de June Tabor (estarei a delirar?). Na música pop/rock, depois das surpresas de 2006, vindas dos München e dos Garoto que nos trouxeram uma leve brisa com sabor – entre outros - a Mler ife dada, tivemos mais um óptimo álbum dos Clã. Demonstração clara e inequívoca de que música pop de efeito imediato não deve menosprezar a sofisticação e a certeza de aqui residir (o que já todos terão reparado) a descendênca directa de Sérgio Godinho. Até nem é de espantar, pois é dos Clã que têm vindo alguns dos alfaiates que confeccionam os fatos que as suas últimas canções vestem quando precisam de sair à rua para se mostrar. Bastante bom é, também, o último trabalho de Jorge Palma. Repleto de equilibradas e clássicas canções de travo romântico cheio de bom gosto, o músico quase se esquece dos excessos que o têm penalizado bastante. Claramente, o melhor disco da sua longa carreira, a que o público, surpreendentemente, aderiu de forma incondicional. Referência, ainda para o muito bom disco dos Chuchurumel. Música tradicional feita com as ferramentas e com a sensibilidade dos dias de hoje, o que a torna, simultaneamente, numa música ainda não escutada e com visão do futuro. Quase fez esquecer o bonito primeiro disco das Xaile cozinhado com temperos de vários continentes. Dos Chuchurumel é, ainda, uma das canções do ano: «coquelhada marralheira». A pacatez de trás-os-montes esventrada literalmente por um abrasador bandolim eléctrico. Nota final para Cristina Branco que gravou mais um magnífico álbum com versões de José Afonso, o que, nela, já não surpreende, porque dela se espera tudo. Disco interessante o de Mazgani, de quem, contudo, depois do que li, esperava mais e incompreensão absoluta para o coro de elogios dedicados a David Fonseca e aos Wraygunn. E uma falta que não (me) perdoo: esqueci-me de ouvir JP Simões, de cujo passado gosto especialmente, seja nos Belle Chase Hotel, seja no Quinteto Tati.

 

E, se a memória não me atraiçoa, nada mais resta. Que saudades da fervilhante pop lusa dos anos 80 e primeira metade dos anos 90 e das constantes novidades que emergiam da música de raíz tradicional, construídas com personalidade e, nalguns casos, com um pé bem fincado no futuro.

E agora, um pouco de fel. Em 2007, prosseguiu a trágica história de Fausto Bordalo Dias, com a publicação de mais uma retrospectiva discográfica. É impressão minha, ou ele tem editado mais colectâneas do que discos originais? Eis nova prova documental do caso, dificilmente explicável, de um músico talentoso que é, uma vez mais, desperdiçado na construção de canções persistentemente aborrecidas, enfadonhas e, cada vez, mais iguais umas às outras. O que já acontecia com a publicação de «por este rio acima» ainda hoje, na minha modesta opinião, o mais sobrevalorizado álbum de música popular portuguesa. Porque será que o engenho de Fausto só se manifesta, de forma imaginativa, quando participa em obra alheia?

E não me quero despedir sem maldizer todos aqueles que não prestaram a devida vénia ao grupo que, justamente, os portugueses deveriam estar a ouvir: The National. Publicaram este ano «boxer» que é, apenas, o mais extraordinário e poético disco do ano.

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