a dignidade da diferença
15 de Junho de 2013

 

Axes

After whose stroke the wood rings,

And the echoes!

Echoes travelling

Off from the centre like horses.

 

The sap

Wells like tears, like the

Water striving

To re-establish its mirror

Over the rock

 

That drops and turns,

A white skull,

Eaten by weedy greens.

Years later I

Encounter them on the road –

 

Words dry and riderless,

The indefatigable hoof-taps.

While

From the bottom of the pool, fixed stars

Govern a life.

 

 

Machados,

Após cada pancada sua a madeira range,

E os ecos!

São ecos que viajam

Do centro para fora como cavalos.

 

A seiva

Brota como lágrimas,  como a

Água a esforçar-se

Por recompor o seu espelho

Sobre a rocha

 

Que pinga e se transforma,

Uma caveira branca

Comida pelas ervas daninhas.

Anos mais tarde

Encontro-as no caminho –

 

Palavras secas e indomáveis,

Infatigável som de cascos no chão.

Enquanto

Do fundo do charco estrelas fixas

Governam uma vida.

Sylvia Plath, Ariel. Tradução de Maria Fernanda Borges

publicado por adignidadedadiferenca às 20:21 link do post
31 de Dezembro de 2012

  

O filme de Dreyer, de 1927, mostra, como poucos o fizeram, que o grande plano é o modo de expressão natural do cinema mudo. Prodigioso e obsessivo filme de olhares, A Paixão de Joana D'Arc - cuja cópia (que a Fnac distribuiu exclusivamente no mercado nacional) inclui, ainda por cima, uma magnífica e silenciosa música litúrgica - permanece ainda hoje com um brilho e uma intensidade tão notáveis e acutilantes que dificilmente será visto algum dia como simples peça de museu. Esmagado e perturbado pelo tropeção emotivo na juventude e na verdade absoluta desta personagem única, apetece-me, ainda assim, aqui voltar uma e outra vez para testemunhar a sublime capacidade estética de um autor (com a notória cumplicidade da impressionante expressividade do rosto de Falconetti) que convence, sequência após sequência, dessa verdade todos aqueles que acompanham a dor de quem sofre a tal ponto que só pode sentir a morte como uma libertação.

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 17:39 link do post
16 de Dezembro de 2012

  

The Misfits (1961), de John Huston, anuncia, na sua belíssima e poética representação de um núcleo de personagens desesperadas e inadaptadas, o fim da carreira de dois ícones do cinema clássico americano, Clark Gable e Marilyn Monroe, que viriam a morrer pouco depois, e a decadência física e profissional de outro notável ator, Montgomery Clift. Rodado em absoluto regime de liberdade, The Misfits, baseado numa história do dramaturgo Arthur Miller (que era, naquela altura, o marido de Marylin), conseguiu superar a passagem do tempo sem uma ruga e consegue, ainda hoje, emocionar-nos pelo seu ambiente crepuscular, pela imensidão das paisagens desertas e selvagens, pelos magníficos grandes planos que reproduzem o brilho do rosto belo e frágil de Marylin, ou ainda pela intensidade com que os personagens centrais da narrativa vivem os momentos de simultânea angústia e ternura, procurando desajeitadamente adaptar-se a um mundo em mudança que viram fugir debaixo dos seus pés. John Huston deixou-nos alguns filmes marcantes, mas nenhum deixou uma marca tão vincada como aquela que perdura de uma unidade artística quase telepática e de uma alquimia tão pessoal e especial.

 

 

08 de Julho de 2012

 

 

Riquíssimo estojo de canções gravadas durante o ano de 1968, Bookends, provavelmente a obra mais conseguida da dupla formada por Paul Simon e Art Garfunkel, reúne no seu seio o talento gráfico da escrita de Paul Simon na qual sobressai a qualidade e o pendor literário dos seus textos, ancorados em contagiantes melodias de bolso que não escondem, contudo, os suaves contrastes da sua estrutura, cuja tonalidade agridoce reflete admiravelmente as pequenas dores da alma que constituem a essência da personalidade do seu autor, um dos mais notáveis songwriters norte-americanos. A Hazy Shade of Winter é um dos exemplos supremos desta arte singular. 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:41 link do post
10 de Outubro de 2011

 

 

Centrado numa ideia muito particular da relação do Homem com a Natureza, Zemlia (A Terra), de Aleksandr Dovjenko, genial cineasta ucraniano, é um extraordinário filme panteísta, onde a natureza, munida de uma unidade vital e dinâmica, é concebida como um ser divino. Nele, existe uma harmonia espantosa entre os gestos ondulantes das searas, o olhar pensativo dos animais e o movimento dos corpos que trabalham na terra, revela-se um brilho sobrenatural quando pinta os frutos e as flores. Filme mudo, de 1930, com uma detalhada e preciosíssima fotografia a preto e branco (naturalmente!), ossui uma riqueza cromática muito superior a imensos dos posteriores filmes a cores. Concebido como um extraordinário poema visual, fruto de um acentuado lirismo assente no olhar maravilhado do seu autor, Zemlia dança entre planos gerais e grandes planos, profetiza sobre o que a vida tem de mais belo, regozija com a sua doçura, sonha com o paraíso e faz-nos esquecer, simultaneamente, como dele se afasta na realidade a condição humana. Um filme admirável, cuja imensa mise-en-scène nos consegue mostrar, nos seus 78 minutos de duração, como «a vida será doce, meiga e leve como um afago». Vimo-lo, pela primeira vez, esta noite.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:38 link do post
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