a dignidade da diferença
21 de Abril de 2017

 

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Timothy Barton Ash, historiador e professor na Universidade de Oxford, escreveu «Free Speech – Ten Principles for a Connected World», um ensaio sobre a necessidade e a ideia de um discurso livre. Nele se aborda uma série de factos, com exemplos – proibição da propaganda gay na Rússia, da negação do holocausto na Alemanha, do genocídio arménio na Turquia, entre outros -, que ilustram o desejo repressivo que existe um pouco por todo o lado. Numa obra que pretende dar resposta à pergunta «Quão livre deverá ser a expressão?», na qual sobressai a importância de explicar porque não deve haver lugar a restrições à liberdade de expressão, o propósito primordial é criar um conjunto de normas globais elementares para guiar um mundo globalizado e ligado pela internet. Para se saber lidar com quem discordamos, para uma liberdade de expressão sem restrições, incluindo naturalmente as opiniões discordantes mesmo se e quando nos sentimos ofendidos. Um livro a favor da tolerância, com uma relevante capacidade analítica - histórica e política -, que procura desenvolver condições para que, como refere o autor, «estejamos de acordo sobre a forma como discordamos». Ash ensina os seus leitores a conviver com a diferença.

25 de Abril de 2015

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«Publicado em 1835, O Pai Goriot é um dos mais célebres romances de Balzac. Trata-se sem dúvida da expressão literária mais conseguida da estrutura das desigualdades na sociedade do século XIX, e também do papel central detido pela herança e pelo património. A trama de O Pai Goriot é límpida. Antigo operário numa fábrica de massas alimentícias, Goriot fez fortuna no negócio das massas e dos cereais durante o período revolucionário e napoleónico. Viúvo, sacrificou tudo para casar as filhas (…) com a melhor sociedade parisiense dos anos 1810-1820. Ficou apenas com o essencial para assegurar um tecto e alimentação numa pensão sórdida, onde vem a conhecer Eugène de Rastignac, um jovem nobre falido ali chegado da sua província para estudar Direito em Paris. Cheio de ambição, atormentado pela pobreza (…) tenta, graça a uma prima afastada, penetrar nos grandes salões abastados onde os aristocratas, a alta burguesia e a alta finança da Restauração convivem. (…) Depressa perderá as ilusões dando conta do cinismo de uma sociedade totalmente corrompida pelo dinheiro. Descobre com horror de que forma Goriot foi abandonado pelas filhas, que tinham vergonha do pai e que o deixaram de visitar desde que receberam a sua fortuna, de tal forma estavam preocupadas com os seus sucessos no mundo. O velhote acaba por morrer na mais sórdida miséria e solidão. Rastignac será o único a comparecer no seu enterro. (…) Subjugado pela visão das riquezas de Paris que se lhe oferecem ao longe (…) decide lançar-se à conquista da capital: (…) A sua educação sentimental e social está terminada, doravante também ele será implacável.»

Thomas Piketty, O Capital no século XXI.

13 de Abril de 2014

 

 

Agora que estamos envolvidos em mais uma polémica, desta vez entre a segunda figura do Estado e os Militares de Abril (mais os sinais saudosistas do ex-Presidente da Comissão Europeia em relação ao sistema de ensino do Estado Novo), nunca é demais recordar e agradecer a acção determinante destes últimos para acabar com um regime ditatorial responsável, por exemplo, pela criação, a partir da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), de uma polícia política – a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), a qual, a partir de 1969, mudaria o nome para Direcção Geral de Segurança (DGS) – cujo comportamento criminoso foi o espelho da doutrina ideológica que orientou toda a actividade governativa desse regime repressivo e dos seus actores políticos.  E não convém ainda esquecer a decisão dos militares de regressar, anos mais tarde - muito cedo, no entanto, quando comparado com situações semelhantes noutros países -,  exclusivamente à vida dos quartéis, entregando os destinos do país à sociedade civil. Para convocar consciências, instruir os ignorantes e recuperar a memória dos que sofrem de amnésia, nada melhor que a leitura de A História da PIDE, o notável e laborioso trabalho da historiadora Irene Flunser Pimentel. Fica-se a conhecer, nesta obra, a conduta repressiva da PIDE em relação a quem ousasse contestar o regime (os adversários); a sua relação com o Estado; os métodos utilizados, desde a vigilância à investigação, sem esquecer as modalidades de tortura e as suas vítimas. Uma obra de investigação essencial, embora, quando procura fazer um registo exaustivo dos detalhes, caia, por vezes, numa análise excessivamente minuciosa, não evitando algum cansaço a quem decide investir o seu tempo em tão importante aprendizagem. Mas o balanço final é francamente positivo.

22 de Agosto de 2013

 

 

«A Economia dos Pobres é, em última análise, acerca daquilo que as vidas e as escolhas dos pobres nos ensinam acerca da forma de lutar contra a pobreza global. Ajuda-nos a compreender, por exemplo, a razão pela qual o microfinanciamento é útil, sem constituir o milagre que alguns esperavam que fosse; porque é que os pobres acabam muitas vezes por ter cuidados de saúde que lhes fazem mais mal do que bem; por que razão os filhos dos pobres, ano após ano, vão à escola e não aprendem nada; porque é que os pobres não querem seguros de saúde. E revela por que razão tantos golpes de magia do passado se transformaram nas ideias falhadas de hoje. Este livro indica também onde reside a esperança: por que razão subsídios simbólicos poderão ter efeitos mais do que simbólicos; como melhorar o mercado dos seguros; como é que menos pode ser mais em educação; porque é que bons empregos são decisivos para o crescimento. Acima de tudo, torna clara a razão por que a esperança seja vital e o conhecimento crítico, para que tenhamos de continuar a tentar, mesmo quando os desafios parecem esmagadores. O sucesso nem sempre está tão longe como parece.»

Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, A Economia dos Pobres

13 de Janeiro de 2013

 

 

Já tive a oportunidade de destacar a importância do livro escrito pelo psicólogo Daniel Kahneman, Pensar, Depressa e Devagar, o qual explica admiravelmente o método de funcionamento dos dois sistemas que fixam o nosso modo de pensar e explica o seu método de funcionamento: enquanto o primeiro é intuitivo e emocional, o segundo é menos célere, mais lógico e ponderado. Mas a questão que hoje trago à colação não se relaciona com aqueles sistemas tão determinantes para as nossas decisões. No decorrer da análise que modela o fio condutor da obra, o seu autor – de forma não intencional - fornece um exemplo magnífico do significado do processo de ajustamento que a Troika nos quer impor com a aprovação dos nossos governantes; muito simplificado, é certo, mas assim percebem todos. Querem a demonstração? Passo a citar: «Uma pequena loja de fotocópias tem um empregado que lá trabalha há seis meses e ganha 9 dólares por hora. O negócio continua a ser satisfatório, mas houve uma fábrica na zona que fechou e o desemprego aumentou. Outras lojas semelhantes contrataram agora empregados de confiança a 7 dólares à hora para desempenharem tarefas semelhantes às realizadas pelo empregado da loja de fotocópias. O proprietário da loja reduz o salário do empregado para 7 dólares.» Plano de ajustamento é isto.

06 de Outubro de 2012

 

 

«A procura espontânea de uma solução intuitiva por vezes falha – nem uma solução de especialista nem uma resposta heurística surgem na mente. Em tais casos, descobrimo-nos a mudar para uma mais lenta, mais deliberada e mais esforçada forma de pensar. É o pensar devagar do título. Pensar depressa inclui as duas variantes do pensamento intuitivo – a de especialista e a heurística -, bem como as atividades mentais inteiramente automáticas da perceção e da memória, operações essas que nos permitem saber que está um candeeiro sobre a mesa, ou relembrar o nome da capital da Rússia. A distinção entre pensar depressa e pensar devagar foi explorada por muitos psicólogos durante os últimos vinte anos. Por razões que explicarei mais detalhadamente no próximo capítulo, descrevo a vida mental através da metáfora de dois agentes, chamados Sistema 1 e Sistema 2, que produzem respetivamente o pensar depressa e o pensar devagar. Falo das características do pensamento intuitivo e do deliberado como se fossem traços e disposições de duas personagens na nossa mente. Na imagem que emerge da investigação recente, o intuitivo Sistema 1 é mais influente do que aquilo que a nossa experiência nos diz e é o autor secreto de muitas escolhas e juízos que fazemos. A maior parte deste livro é acerca do funcionamento do Sistema 1 e das influências mútuas entre ele e o Sistema 2.»

Pensar, Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman (tradução de Pedro Vidal). 

10 de Março de 2012

 

 

«Whitman é um dos poetas que mais me impressionaram em toda a minha vida. Penso que há uma tendência para confundir o Sr. Walt Whitman, o autor de Folhas de Erva, com Walt Whitman, o protagonista de Folhas de Erva, e aquele Walt Whitman dá-nos menos uma imagem e mais uma espécie de ampliação do poeta. Em Folhas de Erva, Walt Whitman escreveu uma variedade de épica cujo protagonista era Walt Whitman – não o Whitman que escrevia, mas o homem que ele gostaria de ter sido. É claro que não digo isto em desfavor de Whitman, pois a sua obra não deve ser lida como constituindo as confissões de um homem do século XIX, mas, antes, como uma épica sobre uma figura imaginária, uma figura utópica que é, em certa medida, uma ampliação e uma projeção do escritor, bem como do leitor.

 

 

Está lembrado que em Folhas de Erva o autor funde-se várias vezes com o leitor e, é claro, isto expressa a sua teoria da democracia, a ideia de que um só e único protagonista pode representar toda uma época. A importância de Whitman nunca é destacada em demasia. Mesmo se tivermos em conta os versículos da Bíblia ou de Blake, podemos afirmar que Whitman foi o inventor do verso livre. Ele pode ser visto de duas maneiras: há o seu lado cívico – o facto de que ficamos cientes da existência de multidões, de grandes cidades e da América -, e há também um elemento íntimo, embora não possamos ter a certeza sobre se ele é genuíno ou não. A personagem que Whitman criou é uma das mais cativantes e memoráveis de toda a literatura. É uma personagem como Dom Quixote ou Hamlet, mas não é menos complexa do que eles, e possivelmente é mais cativante do que qualquer deles.»

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, tradução: Manuel Frias Martins

 

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