a dignidade da diferença
30 de Março de 2016

 

muddy waters.jpg

 

Coube à Soul Jam Records a louvável tarefa de reeditar uma série de obras clássicas do blues. Por sua vez, a recente aquisição de um conjunto de nomes incontornáveis da sua longa história – Lightnin’ Hopkins, Junior Wells, Sonny Boy Williamson e Muddy Waters, por exemplo – forneceu-me o pretexto para renovar uma ideia que já vem amadurecendo e me parece indiscutível: o modelo tradicional do blues, assente, por via de regra, numa estrutura de 12 compassos, esgotou a sua capacidade criativa. O que se ouve agora é um conjunto significativo de músicos, cuja única ambição consiste em adoptar uma carreira de guitar hero, substituir o pano de fundo musical - tradicionalmente aproveitado para sublinhar, reforçar ou ampliar histórias de uma vida que deixa marcas - por uma lista de solos intermináveis de guitarra, num exercício autocontemplativo e inútil de exibicionismo técnico sem qualquer interesse expressivo. Servirá de consolo, neste caso, recordar alguns dos clássicos para arejar os ouvidos e agradecer o inestimável contributo da Soul Jam Records para o efeito.

 

 

16 de Setembro de 2010

 

Son House: Father of the Delta Blues: the complete 1965 sessions

 

 

Son House nasceu numa plantação próxima de Clarksdale e a sua história, a par, por exemplo, da de Charlie Patton ou da filiação musical de Muddy Waters, confunde-se com a terra e as águas do Mississippi. A sua música, sagrada e profana, escreve uma parte essencial da história da América. O canto de Son House, conhecido como o pregador de blues, traduz superiormente a sua vivência dilacerada e de prolongado combate entre o amor a Deus ou a fraqueza pelas mulheres.

«Father of the Delta Blues: the complete 1965 sessions», gravado numa fase de ressurgimento da sua carreira, será, provavelmente, a obra mais marcante do reportório de Son House. A urgência do seu canto e o som áspero, rugoso e ferido da sua guitarra, sublinham uma vivência de sacrifício e penitência, ciclicamente cicatrizada e transpirada. A música emocional de Son House acerta-nos directamente no coração, arranha-nos e arrepia-nos por dentro, em cirúrgicas e autênticas convulsões espirituais.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:13 link do post
22 de Abril de 2009

 

 

E regresso, uma vez mais, à nova série que criei há dias: «o cancioneiro popular americano». Hoje venho deixar umas breves notas sobre o lendário Charlie Patton, autor e intérprete essencial da primeira metade do século XX e um dos maiores responsáveis pela fusão da música folk da época com o blues.

Se é verdade que fez as suas primeiras gravações numa idade já avançada (depois dos 40 anos), tal facto acabou por funcionar a seu favor; o legado que nos deixou revela, por essa razão, uma maturidade musical e estética impressionante que não só influenciou outros criadores fundamentais – assim, de jorro, posso citar Son House, Muddy Waters, Howlin’Wolf e o genial Robert Johnson – que se tornaram o reflexo do seu talento emocional e magoado, como serviu para fazer o uso adequado de uma voz rude mas bastante expressiva que acompanha a urgência que se faz sentir em cada nota que sai das cordas da sua guitarra.

Um músico enorme e absolutamente notável que deixou a sua assinatura nos momentos mais marcantes da história do blues do Delta.

 

Discografia essencial: King of the Delta Blues (de lamentar apenas a má qualidade da gravação).

 

Revenue man blues

publicado por adignidadedadiferenca às 21:17 link do post
22 de Março de 2009

 

Com o objectivo de ir reinventando o meu blog, vou iniciar hoje uma série a que vou chamar «O cancioneiro popular americano». Se havia algumas dúvidas sobre quem iniciar a divulgação, tinha, no entanto, uma certeza: seria uma tremenda injustiça não começar pelos mestres do blues. E assim cheguei até Huddie Ledbetter, que ficou conhecido, para a história da música popular, como Leadbelly.

Autor essencial e uma das lendas musicais do princípio do século XX, Leadbelly cantou e tocou de tudo um pouco: danças populares, blues, baladas, canções espirituais, canções do trabalho e canções de prisão.

Fê-lo com uma notável expressividade artística servindo-se de uma voz poderosa e agressiva, mas profunda, e do dedilhar irrepreensivel e emocional da sua guitarra de 12 cordas.

 

Viveu e cantou uma época de conflitos sociais e raciais, combinou exemplarmente o sagrado com o profano, apoiou e pôs o seu talento ao serviço de causas sociais, criando imensas canções onde não se esqueceu dos problemas políticos e, sobretudo, dos raciais.

É, sem dúvida, um dos mitos da música popular e daquilo a que já nos habituámos a chamar de «blues rural», enriquecendo-o de forma preciosa e imaculada, tomando Blind Lemon Jefferson como sua grande fonte inspiradora e criando uma enorme e notável descendência (e devoção).

Para a mitologia muito contribuíram canções excepcionais como «New York City», «John Hardy», «Death Letter Nlues Pt.1», ou «Irene Goodnight».

Nascido em 1885, Leadbelly viria a falecer em 1949, já como autor consagrado e admirado.

Discografia essencial: Irene Goodnight.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 02:13 link do post
27 de Maio de 2008

The devil is a man (em complemento do que vem aqui)

 

Pois bem, a promessa estava feita: chegou a vez de me dedicar a um dos maiores génios do blues que, segundo reza a lenda, vendeu a alma ao diabo em troca de umas mãos novas para tocar guitarra.

Não sou nada influenciável por estas coisas, mas, apreciando o resultado final que o pacto deixou, não custa muito acreditar.

Uma obra curta (29 blues), mas que entra directamente na mitologia da América e dos seus poetas. Para ouvir sempre: The complete recordings. Um nome suficiente para alimentar todo o blues e que influenciou músicos de jazz, bluesman e  muito do rock'n'roll dos anos 60 (essencialmente).

 

Aqui ficam dois dos exemplos supremos da arte de cantar o blues.

 

Me and the devil blues

 

Crossroads

publicado por adignidadedadiferenca às 00:09 link do post
21 de Maio de 2008

 

Por causa deste senhor, fiquei com saudades de ouvir blues rural. Nada melhor para começar do que Blind Willie Johnson.  Eu sei que a escolha mais óbvia e merecida era a de Robert Johnson, mas fica para uma próxima oportunidade.

 

Let your light shine on me

publicado por adignidadedadiferenca às 01:13 link do post
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