a dignidade da diferença
04 de Março de 2012

 

 

Lou Reed fundou em meados dos anos sessenta do século passado, com John Cale, a mítica banda de rock alternativo The Velvet Underground, cuja matriz musical – assente numa estrutura sonora simultaneamente lírica e primitiva, insistentemente negra, crua, suja, rugosa e densa, propositadamente contra corrente, que se alimentava de inesperados sobressaltos melódicos, experimentalismo e eletricidade pura, diálogos instrumentais em queda livre, acelerações e desacelerações rítmicas – influenciou sucessivas gerações de músicos que nunca esconderam o seu legado musical. Terminada a magnífica experiência velvetiana, Reed iniciou uma irregular mas significativa carreira a solo, contribuindo para o seu cânone musical o glam rock de Transformer (1972), que guarda no seu seio o hiperclássico Walk on the Wild Side; o depressivo Berlin (1973), que um excessivo protagonismo orquestral não conseguiu, ainda assim, apagar a explosão interior de raiva e ódio, nem a sublime depuração sonora da grande maioria das canções; o canto falado, os textos magníficos e a eletricidade brutal do notável New York (1989), essencial retrato, cru e pessimista, dos anos da administração Reagan; Songs for Drella (1990), o assombroso requiem sonoro em memória de Andy Warhol elaborado a meias com John Cale, o irmão desavindo; Magic and Loss (1992), glacial e comovente partilha da dor e genial demonstração de maturidade estética na suprema atenção que é dada ao mínimo detalhe sonoro; e, por último, a verdadeira obra-prima que é The Raven (2003), baseado na obra de Edgar Allan Poe, resumo essencial da visão estética tão rudimentar quanto erudita de um dos mais notáveis e elementares escritores de canções de que há memória.

 

31 de Janeiro de 2009

 

 

The kids

 

The bed

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:43 link do post
29 de Janeiro de 2009

 

Se ainda restava alguma dúvida sobre o local para onde se deveria ter dirigido, no verão passado, quem se manteve indeciso até á última hora entre assistir ao concerto de Lou Reed ou ao regresso de Leonard Cohen, para mim tudo ficou definitivamente esclarecido. Bastou-me assistir ao filme-concerto de Julian Schnabel (em DVD) sobre a magnífica performance do músico norte-americano, que recupera, de forma extraordinária, as preciosas e trágicas canções do álbum Berlin.

Se me apetece falar muito do verdadeiro estado de graça em que se encontra Lou Reed, e que se mantém depois de assinar o genial The Raven, confesso que, na realidade, o mais surpreendente foi testemunhar a miraculosa transformação que o lendário songwriter de New York operou no cada vez mais dispensável Antony.

Não sei se existe alguma explicação racional para o acontecimento, o certo é que, na companhia de Lou Reed, Antony voltou a ser notável quando interpretou a belíssima Candy Says dos Velvet Underground.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:59 link do post
19 de Julho de 2008

 

 

 

 

 

Tive esta semana a possibilidade de, por motivos inesperados, passar uma vista de olhos pela revista Visão. Ao ser chamado à atenção pela capa da revista para o exclusivo «Enfrentámos o mau feitio de Lou Reed» (bela campanha publicitária, sem dúvida) aproveitei, naturalmente,  para ler a dita.

Queixa-se, então, o jornalista (que mais parece um estagiário) do mau feitio do músico nova-iorquino. Conta, com alguma graça, o conhecimento que já tinha das dificuldades que o músico costuma criar aos jornalistas e as peripécias que teve de ultrapassar para conseguir falar com ele. Até aqui nada a apontar. O pior veio a seguir.

O jornalista da Visão começa por perguntar «Quando está em palco, a tocar as canções de Berlin, sente-se transportado sempre para um certo estado de espírito, ligado ao ambiente do disco (...) e ao momento em que o gravou?» Reed responde telegraficamente e a resposta não satisfaz o entrevistador. Insiste nos mesmo tema e obtém uma resposta um pouco mais desenvolvida que continua a não satisfazer. Faz a 3.ª pergunta (não vão acreditar, mas é uma variante das duas primeiras) e recebe o primeiro KO: «Está a fazer-me a mesma pergunta dez vezes! Ok? Acho que já chega. Não vai conseguir outra resposta que signifique alguma coisa para si. (...)»

Só o pobre coitado é que ainda não tinha percebido que já estava arrumado. Após mais uma série de perguntas banalíssimas – então aquela do «(...) actualmente sente-se mais um homem do rock’n’roll ou da escrita, da literatura?» o Lou Reed já deve ter ouvido um milhão de vezes, pelo menos – onde teve o azar de informar que o Leonard Cohen ia tocar na mesma noite, o que irritou ainda mais o entrevistado, Pedro Dias de Almeida (nome do jornalista) entra directamente para o anedotário nacional deste ano com a pergunta mais idiota que já fizeram ao autor de Berlin. «Aos 66 anos, como é um dia perfeito (sim, é isso, a velha canção “Just a perfect day...”), para si?» – a canção nem se chama exactamente assim, mas eu também já não esperava melhor -. E Lou Reed aproveita (quem não o faria?) para desfazer o jornalista em cacos, humilhando-o sem apelo nem agravo. «Oh, por favor...  Não me faça perguntas dessas. (...) De certeza que consegue fazer melhor... Mas se quiser desperdiçar o seu tempo, esteja à vontade...» KO absoluto antes de terminar o 1.º round e o jornalista vai-se arrastando, lamentavelmente, por perguntas intragáveis do género «tem referências da música portuguesa e da literatura? Blá, blá, blá» e outras mais ou menos aceitáveis mas totalmente desgarradas e sem qualquer tipo de ligação aparente.

No final, Pedro Dias de Almeida desabafa: «Pensamento positivo, e uma certeza: em palco ele é muito melhor do que no meu telemóvel.

Lou Reed deve ter pensado qualquer coisa do género: Espero que o público presente no meu concerto seja bem melhor do que este tipo que me apareceu hoje.

E depois queixam-se do seu mau feitio!

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:01 link do post
12 de Julho de 2008

Depois da experiência genial com os Velvet Underground (acompanhado por John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker e, no disco da banana, por Nico) Lou Reed publicou, a solo, um quantidade bastante assinalável de canções. Umas boas, outras muito boas, miseráveis ou assim-assim. Embora o gosto esteja sujeito a variações temporárias, mantenho a opinião sobre aquelas que considero as obras-primas (absolutas) que fazem parte da sua discografia: Berlin (1973), New York (1989), Songs for Drella (1990, que, embora conte com a participação do «irmão desavindo» John Cale, sempre achei que merece ser considerado como um álbum de Lou Reed), Magic and Loss (1992) e The Raven (2003).

Vem isto a propósito do regresso do músico norte-americano ao nosso país para interpretar «Berlin» ao vivo, precisamente uma das suas obras máximas. Música triste, cínica, intensa e dramática, mas inesquecível e que vale uma vida. A ver, obrigatoriamente.

 

 

Caroline says I & II

The kids

The bed

Lady day

 

publicado por adignidadedadiferenca às 17:26 link do post
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