a dignidade da diferença
08 de Dezembro de 2008

 

O FAZEDOR DE UTOPIAS: UMA BIOGRAFIA DE AMÍLCAR CABRAL

 

Uma muito interessante biografia escrita por António Tomás (jornalista e antropólogo nascido em Luanda, em 1973) sobre o líder fundador do PAIGC, Amílcar Cabral. Ao contrário das habituais biografias bajulatórias ou que procuram apenas o éxito fácil através do relato de acontecimentos supostamente escandalosos do visado, esta é uma pesquisa séria e preocupada, principalmente, em trazer novamente a importância histórica e política dessa fascinante figura de África para o contexto actual, remediando alguma injustiça de que tem sido alvo por ter sido praticamente esquecido pelas gerações futuras.

É um retrato certeiro, eficaz e incisivo, próprio de uma linguagem que naturalmente denuncia a formação jornalística do seu autor, que procura fazer compreender aos seus leitores a importância da utopia do histórico líder africano – aquele que mais respeito mereceu do mundo ocidental pela sua formação intelectual e generosidade de pensamento -, reflectindo sobre o rumo que a sua vida tomou desde as suas raízes até ao seu assassinato, pairando, sobretudo, a ideia de unidade e independência que sempre atravessou o pensamento de Amílcar Cabral e que este procurou incutir a todos aqueles que com ele se cruzaram, mas que, ao mesmo tempo, lhe trouxe imensos problemas criados pelos opositores e inimigos que foi angariando ao longo da sua curta existência.

O livro foi publicado no ano passado, mas só agora tive a (feliz) oportunidade de o ler e aconselho-o vivamente a quem se interessa por história e política e, nomeadamente, pela história de África e da independência dos seus países.

 

 

«Amílcar Cabral nasceu guineense e cabo-verdiano, numa generosidade pan-africanista que, paradoxalmente, haveria de ser a sua desgraça.

Tenho para mim que foi uma das figuras mais interessantes do século XX, uma espécie melhorada (muito melhorada mesmo) de Che Guevara africano. O facto de o seu nome e de a sua obra dizerem hoje tão pouco às novas gerações de intelectuais africanos, e de ser praticamente desconhecido fora do continente, afigura-se-me uma enorme injustiça.

Este livro tenta devolver ao grande público essa figura maior de África. Fá-lo numa linguagem jornalística, apoiada numa investigação rigorosa. O facto de o seu autor, António Tomás, ser angolano, não me parece irrelevante. Trata-se de dar a ver um pensador e combatente africano numa perspectiva africana. Algo que teria certamente agradado a Amílcar Cabral

 

José Eduardo Agualusa, escritor angolano

 

CONTOS DE NATAL

 

Mudando de assunto e aproveitando a época natalícia, aqui vos deixo com mais umas recomendações musicais perfeitas para a época. Primeira recomendação, o belíssimo «Songs for Christmas» da autoria de Sufjan Stevens, soberbo autor de canções recheadas e enriquecidas por panorâmicos bordados orquestrais, que, neste conjunto de presentes musicais oferecidos à família – entre temas clássicos e muitos originais -, gravados entre 2001 e 2006 (com pausa em 2004), contraria a tendência habitual para a banalidade costumeira destes discos de espírito natalício.

 

 

Em segundo lugar, o óptimo «One More Drifter in the Snow» de Aimee Mann, em que a artista norte-americana se dedica a interpretar, com a sua banda habitual, uma série de clássicos de natal e termina o disco com uma canção da sua autoria que - já seria de esperar num texto seu - contraria tudo aquilo que se espera de uma canção natalícia, a espantosa «Calling On Mary».

Ambos apareceram nas lojas em 2006 e, desde então, têm sido a minha companhia musical para os últimos dias de cada ano.

 

 

Sufjan Stevens "Sister winter"

 

Aimee Mann "Calling on Mary"

 

14 de Julho de 2008

 

Nos blogs onde sinto mais afinidades musicais a coisa parece estar a passar um pouco despercebida, de modo que, ao que parece, cabe-me a mim avançar. Pois bem, Aimee Mann regressou com um novo e excelente disco. Se à primeira vista arriscamos dizer que tudo parece do género «mais do mesmo», pouco a pouco vamos reparando e descobrindo, na singularidade e subtileza dos arranjos, coisas novas e inesperadas que tornam a música, uma vez mais, um pouco diferente da que Aimee Mann já tinha criado.

Nota-se, aqui e ali, uma base musical mais acústica a servir de suporte às canções, uma secção de cordas e de metais mais presente do que é habitual e, no resto, reaparece tudo aquilo que já conhecemos da autora, mas apetece sempre voltar a ouvir: melodias memoráveis e intemporais - inexplicavelmente arredadas do gosto da maior parte dos potenciais ouvintes -, roubadas, essencialmente, à matriz Beatles/XTC/Costello com mais uns pozinhos da inevitável Suzanne Vega (letras angustiantes/melodias contagiantes), personagens destinadas a sofrer as agruras da vida e, por fim, a confirmação da incapacidade congénita que Aimee Mann possui (motivo para lhe prestarmos a nossa eterna gratidão) para compor canções felizes que, a acreditar no que ela diz, não servem para nada. Num ano onde as mulheres têm mostrado muito do seu talento, mais um disco de cabeceira.

No conjunto da sua discografia, será apenas superado pela obra-prima «Lost in space», pela BSO de «Magnolia» (banda sonora que tem o motivo extra de, ainda por cima, reduzir a música dos Supertramp à sua miserável e real expressão, por comparação directa com as magníficas e clássicas canções de Aimee) e por «Bachelor n.º 2»

 

Freeway

31 today

Phoenix

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:08 link do post
25 de Junho de 2008

Wise up, de Magnolia (BSO) - Aimee Mann

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:18 link do post
27 de Abril de 2008

Run to ruin - Nina Nastasia (2003)

 

 

 

Depois de «Dogs» e «The blackened air», a arte de Nina Nastasia surge refinada em todos os seus pormenores. Um canto fúnebre, falsamente doce e impossivelmente tenso, encaixado em melodias que de tão sinuosas e transviadas que são, parecem sobreviver fragmentadas e, aparentemente, à deriva, e que tem para nos oferecer uma quase oração cujas palavras têm o peso mais profundo que uma alma negra e esquizofrénica pode habitar. Prejudica um pouco a empatia com as canções, quando julgamos ser todo o suporte instrumental exageradamente rude, cru e desarrumado, até nos apercebermos que, afinal, os sons artesanais criam uma ambiência folk  irresistível e venenosamente melódica onde, afinal, tudo está no sítio certo. Desde o ruído das serras eléctricas, aos gemidos de um doente em estado terminal, sem esquece a dissonância, as explosões e os sussurros até aos cortes brutais a golpes de machado. Neste universo, convive-se, sem perigo, com pedaços de tango, sublimes arranjos de cordas, espasmos e murmúrios de violinos, atingindo os seus pontos altos na intensidade dramática de «You her and me» e nessa prodigiosa música de câmara que é «Superstar». Não haveria Nina Nastasia se não tivessem aparecido P. J. Harvey, Aimee Mann, Suzanne Vega, Laura Nyro e, talvez, Carla Bozulich, mas criou um universo tão pessoal, que já não precisa delas para coisa nenhuma. 

 

 

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