a dignidade da diferença
25 de Janeiro de 2017

 

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Com a notícia da morte do avô de Jake os seus pais resolvem mudar-se para um apartamento em Brooklyn que receberam da herança, sendo aí recebidos pelos futuros vizinhos, Tony e sua mãe (que explora a loja arrendada pelo falecido). A história rapidamente evolui para uma situação de conflito crescente entre os pais de Jake e a mãe de Tony, o qual proveio dos problemas financeiros que afectam o mundo dos adultos e vai condicionar a progressiva cumplicidade entre os miúdos, até colocar um ponto final nessa bela relação de amizade. Adoptando um registo contido e realista em que sobressai uma intencional ausência de estilo, a câmara tem uma presenta discreta e minimalista. Esta atitude do cineasta não significa, contudo, qualquer desinteresse pela matéria de que se ocupa, pois o olhar que prevalece sobre os gestos mais banais do quotidiano e esses momentos em que se diz definitivamente adeus à inocência, provavelmente assimilado na escrita de um Raymond Carver ou na visão de Moonfleet (genial filme de Fritz Lang), é, não obstante a subtileza e a economia narrativa, bem sentido e penetrante. Sucessor do magnífico Love is Strange, Little Men é uma belíssima e agridoce composição sobre o ciclo de uma amizade, cuja sensibilidade para encenar as angústias do crescimento soa como sublime música de câmara.

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:06 link do post
31 de Dezembro de 2016

David Bowie e Leonard Cohen ofereceram-nos duas magníficas despedidas. Blackstar é o melhor trabalho de Bowie desde 1.Outside (1995) e Cohen não gravava nada tão bom desde o sublime Songs of Love and Hate (1971). Mas a terceira idade não ficou por aqui: também Paul Simon deixou a sua marca este ano com o extraordinário e ousado Stranger to Stranger e Iggy Pop com o inesperadamente óptimo Post Pop Depression. Se adiantarmos que PJ Harvey (autora do fabuloso The Hope Six Demolition Project) e os Tindersticks (que exploraram novos caminhos, ampliando a sua paleta sonora em The Waiting Room) já andam nestas andanças há três décadas, será caso para afirmar que em 2017 impôs-se a veterania. Numa lista tão curta ficou de fora algo injustamente o regresso de Shirley Collins, após um longuíssimo interregno, bem como as óptimas gravações de Charlie Hilton, Christy Moore, Fred Hersch e Gisela João, o prodígio de improvisação do último álbum do saxofonista Henry Threadgill, a voz extraordinária de Anna Netrebko (oiçam-na em Verismo), La Mascarade, de Rolf Lislevand, e ainda as clássicas interpretações de Harnoncourt (quarta e quinta sinfonias de Beethoven) e Daniil Trifonov.

 

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PJ Harvey, "The Hope Six Demolition Project"

 

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Michael Formanek/Ensemble Kolossus, "The Distance"

 

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BADBADNOTGOOD IV 

 

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Ensemble Céladon/Paulin Bündgen, "The Love Songs of Jehan de Lescurel"

 

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Paul Simon, "Stranger to Stranger"

 

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William S. Burroughs, "Let Me Hang You"

 

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Alisa Weilerstein/Pablo Heras-Casado, "Shostakovich: Cello Concertos 1, 2"

 

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Anna Meredith, "Varmints"

 

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Tindersticks, "The Waiting Room"

 

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Sampladélicos, "Não Nos Dexeis Cair em Tradição"

 

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Mark Dresser Seven, "Sedimental You"

 

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Lucia Cadotsch, "Speak Low"

publicado por adignidadedadiferenca às 21:12 link do post
26 de Dezembro de 2016

 

Entre o que de mais relevante passou pelas salas de cinema portuguesas, o destaque vai para os inconformistas e desafiantes Apichatpong Weerasethakul e Paul Verhoeven (com o inquietante e moralmente ambíguo Elle), os promissores e desconcertantes László Nemes (autor de um soberbo filme sobre os campos de extermínio nazis) e Corneliu Porumboiu, o sublime classicismo de Ira Sachs, o belo regresso de Pedro Almodóvar ao melodrama ou a descoberta dos prodigiosos Boris Barnet (o mudo A Casa na Praça Trúbnaia) e Larissa Shepitko (com Asas e, sobretudo, Ascensão) na recente e marcante exibição do Ciclo de Cinema Russo no Cinema Nimas. O último e magnífico filme de Hou Hsiao-Hsien, A Assassina, fica de fora por já ter feito parte das escolhas de 2015. Uma última palavra para Well Or High Water (Custe o Que Custar!), cujo autor, David Mackenzie, foi capaz de trabalhar e renovar a herança de Sam Peckinpah e para Os Oito Odiados, um Quentin Tarantino peculiar, que só não integra a lista porque apenas reservei lugar para dez escolhas, que também poderiam incluir os óptimos A Academia das Musas, de José Luis Guerín, e Eu, Daniel Blake, de Ken Loach...

 

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Experimenter, de Michael Almereyda

 

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Julieta, de Pedro Almodóvar

 

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A Casa na Praça Trúbnaia, de Boris Barnet

 

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Hell Or High Water, de David Mackenzie

 

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O Filho de Saul, de László Nemes

 

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Tesouro, de Corneliu Porumboiu

 

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O Amor é Uma Coisa Estranha, de Ira Sachs

 

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Ascensão, de Larissa Shepitko

 

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Ela, de Paul Verhoeven

 

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Cemitério do Esplendor, de Apichatpong Weerasethakul

publicado por adignidadedadiferenca às 19:56 link do post
23 de Dezembro de 2016

 

Escutamos com frequência o velho discurso com cheiro a mofo sobre a falta de valores. Diz-se, então, que o mundo está perdido e que vivemos na era do vazio e da ausência de valores. A ladainha repete-se em vários registos: No meu tempo havia valores que agora já não existem, dizem os mais velhos de espírito. Na minha época o respeito era uma coisa muito bonita. Hoje, os jovens estão perdidos e não têm valores; os pais não educam os filhos, os filhos não respeitam os pais, os estudantes não respeitam os professores, ninguém respeita a autoridade nem os mais velhos. É o discurso de quem já se esqueceu que foi jovem, que já ouviu em tempos essas palavras da boca de alguém mais velho e, agora, se esqueceu de que não gostou. (…) Este discurso fácil e que deixa transparecer algum azedume pouco acrescenta à nossa reflexão. A ideia de que não existem valores, de que o mundo está perdido e os jovens desorientados, de que impera a lei do mais forte, de que tudo é uma selva sem referências é, segundo Hegel, o manifesto da consciência infeliz. Na realidade, nunca há crise de valores. O que há são discursos pouco entusiastas que afirmam a falta de valores. Há azedumes que ficam como calcário agarrado e incrustado nos canos velhos. Temos solução para os canos. Também haverá solução para o azedume. (…) Nunca existiram tantos valores como hoje. Talvez tudo se tenha tornado mais confuso ou complexo, apenas isso. Deus, pátria e família deixou de ser um menu exclusivo. Hoje temos uma multiplicidade de escolhas.

 

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O mundo está repleto de valores e de causas (…) Ecologia, ambiente, sustentabilidade, energias renováveis, acessibilidades, direitos dos animais, defesa da terra, defesa das minorias, defesa das vozes diferentes, defesa das mulheres, das crianças, dos velhos, defesa dos deficientes, dos direitos humanos, do património, da qualidade de vida, dos pobres, dos emigrantes, dos excluídos, da equidade, contra o tráfico de pessoas, protecção às vítimas, protecção aos dissidentes e aos refugiados. Contra a ganância de banqueiros, a sociedade criou bancos alimentares, bancos de ajuda, bancos de horas e bancas de voluntários prestes a ajudar. Existem dias de tudo e mais alguma coisa. Cidadania. Associações locais, culturais, desportivas e recreativas. Talvez nunca, como no século XXI, tenha havido tantas associações cívicas, tantas movimentações, tanta consciência de direitos e deveres. Para uns, mais consciência de direitos do que deveres, mas sempre apelos à sociedade civil. (…) O mundo tornou-se mais complexo (…) A perplexidade surge quando descobrimos incoerências e contradições ou quando somos confrontados com um problema ao qual podem ser aplicados princípios conflituantes. (…) O problema não é geracional. Já não é preocupante se os filhos afirmam valores diferentes dos pais. No mesmo espaço, no mesmo tempo, na mesma geração, coexistem visões distintas, causas diversas.

Mendo Henriques e Nazaré Barros in Olá, Consciência! Uma Viagem Pela Filosofia

14 de Dezembro de 2016

Entre edições e reedições de uma série de obras de ficção, poesia, história, política, cinema, religião, ensaio, divulgação científica e filosofia, estes terão sido os livros que mais gostei de ler durante o corrente ano. De fora ficaram os óptimos e potencialmente elegíveis Sangue Azul Gelado, do russo Iúri Buida, retrato desencantado e original de uma actriz que procura ambientar-se num clima hostil, e O Antigo Egipto, de Donald P. Ryan, onde é sugerida uma fascinante viagem a lugares míticos do Egipto. Doze livros para doze meses, correspondendo cada um deles a um dos meses do ano, dispostos por ordem alfabética. Injusto seria não realçar que também poderiam estar aqui o Ricardo Araújo Pereira, com as suas singulares considerações sobre o humor, enunciadas no recente A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar, bem como a reedição das labaredas do intenso Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar, prémio Camões 2016...

 

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Poemas Escolhidos, de T. S. Eliot

 

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Pequena Escola do Pensamento Filosófico, de Karl Jaspers

 

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Bisonte, de Daniel Jonas

 

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A Paixão da Física, de Walter Lewin e Warren Goldstein

 

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Uma Causa Improcedente, de Claudio Magris

 

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O Islão e o Ocidente, A Grande Discórdia, de Jaime Nogueira Pinto

 

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Judas, de Amos Oz

 

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Eugénio Onéguin, de Aleksandr Púchkin

 

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A Descrição da Infelicidade, de W. G. Sebald

 

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O Caso do Camarada Tulaev, de Victor Serge

 

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Como Ver Um Filme, de David Thomson

 

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Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes

publicado por adignidadedadiferenca às 17:52 link do post
12 de Dezembro de 2016

 

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Hell Or High Water (Custe o que Custar), de David Mackenzie, vale pela destreza de uma história bem contada, acerca de dois irmãos que se tornam assaltantes de bancos para salvar um rancho da família hipotecado e de um xerife (interpretado por Jeff Bridges) à beira da reforma que os persegue, sustentada pela solidez e inspiração de um argumento engenhoso (escrito pelo promissor Taylor Sheridan), e serve de pretexto para uma visão desencantada do mundo, em que sobressai a agilidade e a secura de uma câmara que se apega com naturalidade a personagens de carne e osso, bem como à paisagem deserta que os envolve, movimentando-se com desembaraço num clima de progressiva tensão, compondo um determinado tipo de cinema que recebe a herança marcante de Sam Peckinpah, reinventando um método capaz de dosear de forma equilibrada mas apaixonada, sangue, drama, violência e acção, com banda sonora a condizer. Eis uma das boas surpresas do ano.

 

 

28 de Novembro de 2016

 

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«De certo modo a passagem de Maurice Pialat pelo cinema francês pode comparar-se à da sua personagem pela festa (e pelo resto) de Aos Nossos Amores. Também ele veio trazer a desordem e a perturbação à “festa” pós-Nouvelle Vague, provocando, inclusive, com a sua imprevisibilidade, reacções violentas, de que a conquista da Palma de Ouro por Ao Sol de Satanás foi uma das mais mediatizadas. O seu cinema surge como algo de “único” ao lado da produção que lhe é contemporânea, seja ela comercial ou de vanguarda. Realista, sem o ser, inovador dentro da continuidade, os seus filmes são encenados quase sempre de uma maneira que se pode entender como uma forma particular de psico-drama, lançando momentos de perturbação numa cena construída de forma clássica para provocar uma reacção espontânea dos intérpretes, conseguindo que esta se faça de acordo com a psicologia das personagens. (…) Ao explorar este tipo de provocação aos seus colaboradores, Pialat projecta na cena, de forma assumida ou inconsciente, questões de ordem pessoal, da sua relação com o mundo e com os outros. A cena torna-se, assim, uma espécie de psico-drama de características autobiográficas. Pialat talvez tenha sido um dos raros cineastas, à semelhança de um Woody Allen ou de um John Cassavetes nos EUA, cujo cinema é indissociável (…) da sua vida. A comparação talvez se justifique mais em relação a Cassavetes, pela forma como ambos exploram uma “improvisação” ferozmente controlada, na forma como ambos dirigem os actores e num estilo de montagem que reforça a sensação de “desequilíbrio” e improviso».

Manuel Cintra Ferreira, in Psico-drama familiar: o cinema de Pialat 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:01 link do post
22 de Novembro de 2016

 

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Após o inesperado golpe de rins estético, iniciado com o sereno e quase invisível White Chalk, em 2007, PJ Harvey abandona definitivamente a pele que vestiu durante a intensa, descarnada e eléctrica cavalgada sonora de punk e blues, que alimentou o capítulo inicial da sua carreira - cujo opus magnum será ainda o teatral, dramático, imoral e sedutor To Bring You My Love, de 1995, - e prossegue a via dos doze amargos episódios que compunham o magnífico Let England Shake, o qual, em 2011, serviu de pretexto para fazer a ponte entre o desmedido morticínio da Primeira Guerra Mundial e a hipocrisia da política contemporânea. Nessa linha, PJ Harvey, acompanhada pelo fotógrafo Seamus Murphy, decidiu explorar alguns dos mais recentes e devastados bairros sociais e palcos de guerra contemporâneos (leste do Anacostia, em Washington D.C., Kosovo e Afeganistão), e dessa proximidade no terreno arranca um notável, pujante e arrebatador conjunto de canções eléctricas no qual o saxofone e a percussão marcial assumem uma importância primordial. E é nesse irrepreensível mosaico musical que PJ Harvey, assumindo o papel de documentada repórter de guerra, expõe, com uma admirável precisão clínica, a arrepiante e inabitável realidade, macerada por múltiplas feridas que a crescente perversidade do poder, da religião e das desigualdades sociais impede de cicatrizar. Posicionando-se na dianteira como um dos indiscutíveis do ano, The Hope Six Demolition Project , vibrante colecção de onze corais eléctricos, plenos de acuidade melódica e insistência rítmica, será também, na linha de Let England Shake, um dos grandes discos políticos da última década.

 

 The Wheel

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:46 link do post
09 de Novembro de 2016

 

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Nós ensinamos a guerra.

Nós construímos a destruição.

Estamos todos muito orgulhosos dos nossos pais,

edificaram um império

com o fio de prumo da espada

e as roldanas ergueram as cabeças tenras nativas

como torrões levantados do solo,

recebendo cartas de aplauso

e terras de comendas,

lavrando solos e espevitando os campos

com o adubo da cinza mortuária.

 

Quando observo o lento corrimão da história,

filhos meus, sou renitente a deslizar a mão

seja para subir seja para descer,

e inglório me estaco no degrau pungente de mim mesmo

e acendo uma luz tíbia de náufrago

na grande escadaria da noite,

mar crespo

colapso dos meus pés enfim perdidos.

Excerto de «Dos Fuzilamentos da Montanha do Príncipe Pío»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
31 de Outubro de 2016

 

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Elisabet Vogler (interpretada por Liv Ullmann), uma actriz de sucesso, fica subitamente muda durante uma representação da peça Electra. Por sua vez, uma jovem enfermeira, Alma (papel atribuído a Bibi Andersson), é contratada para cuidar da actriz. Lentamente, desenvolve-se um enigmático processo de influência recíproca que leva as protagonistas a trocar de manifestações, numa relação de confronto: Enquanto Elisabet recupera Alma - que adorava conversar e lida com o silêncio da actriz conversando com esta - emudece. Uma estrutura formal progressivamente auto-reflexiva e auto-observadora, configura um conjunto de variações sobre a duplificação e faz avançar uma aparente história de possessão, do acto quase doentio entre duas mulheres que acabam por se unificar. Ocupando um lugar central na história do cinema do século XX, Persona, provavelmente a obra-prima de Ingmar Bergman, dispensa todas as meticulosas dissertações que pretendem esclarecer o sentido de cada plano ou imagem, numa contínua e excessiva explicação psicanalítica das relações entre os protagonistas e destes com o próprio autor.

 

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 Quando Liv Ullmann/Bibi Andersson são uma só...

 

Com efeito, o fascínio de um filme que combina naturalmente fantasia e realidade advém do poder sugestivo das suas imagens, difícil de traduzir em palavras. Esta história de duas mulheres, dos seus sonhos e enigmas, bem como das suas diferentes possibilidades, é tão mais aliciante porque, como já muitos afirmaram, nunca como aqui Bergman conseguiu reunir um tal grau de simplicidade e complexidade, conseguindo com esta experiência atingir a máxima expressividade dizendo tanto com tão pouco. Na verdade, mais enriquecedor para o espectador que as habituais discussões que giram em redor do filme, é experimentar o confronto único com Persona, seguir a sua estrutura interna e, aceitando o convite para participar na sua construção, oscilar sobre a identidade de quem fala (quem é o sujeito?), por obra e graça do talento admirável do cineasta sueco, de onde sobressai sempre a primazia absoluta do rosto humano. Concluida a trilogia sobre o silêncio de Deus, o cinema de Bergman reinventa-se de novo em 1966.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 20:16 link do post
11 de Outubro de 2016

 

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A palavra “família” banalizou-se de tal forma no nosso dia-a-dia, tão corrente é na literatura, seja ela erudita ou popular, que temos dificuldade em recensear todas as suas ocorrências. Esta polissemia constitui, sem dúvida, um bom testemunho das mutações que ao longo da história sofreu a instituição que o termo denomina. A palavra latina, “familia”, aparece em Roma como derivada de “famulus” (servidor), mas não se aplicava então ao que habitualmente entendemos pelo termo. «Designava-se por familia o conjunto dos escravos e servidores vivendo sob um mesmo tecto (…); depois, toda a “casa” - senhor, por um lado, mulheres, filhos e servidores vivendo sob o seu domínio, por outro (…). Depois, por extensão de sentido, “familia” passou a designar os “agnati” e os ”cognati”, tornando-se, pelo menos na linguagem corrente, sinónimo de “gens”» (…) “Casa”, conjunto dos indivíduos que vivem sob o mesmo tecto; ”gens”, comunidade formada por todos os descendentes de um mesmo antepassado; “agnati”, os parentes paternos; “cognati”, os maternos e, por extensão, o conjunto dos consanguíneos – todas estas unidades parentais reunimo-las nós hoje sob o vocábulo “família”. Acontece, porém, que cada um destes círculos de pertença apresenta extensões variáveis consoante o lugar e a época, os grupos sociais e as circunstâncias. Da multiplicidade de formas e designações que tais entidades sociais assumem, transformando-se e perdurando nas grandes civilizações ocidentais e orientais, dão-nos conta os textos incluídos na presente obra. Se outros não houvesse, esses testemunhos bastariam para nos convencer de que sempre e em toda a parte existiram agrupamentos familiares sob variadíssimas formas, podendo este ou aquele assumir um papel mais ou menos fundamental na organização das leis orais e escritas que governam, ou governaram, as sociedades em questão.

Françoise Zonabend, in «História da Família»

30 de Setembro de 2016

 

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Richard Wagner chegou a Veneza em Agosto de 1858. Da sua vivência na cidade recorda «uma atmosfera crepuscular e solene», onde conviviam nobreza, beleza e decadência. Por sua vez, os ecos da música de Wagner inspiraram o talentoso Uri Caine a reinventar algumas das suas composições, num registo que viria também a empregar com a música de Mozart, Schumann, Mahler e Bach (numa soberba reinterpretação das Variações Goldberg). Quebrando barreiras e devorando géneros musicais, o modus operandi do Uri Caine Ensemble consiste numa sucessiva aproximação de estilos e eliminação de fronteiras estéticas. Consegui-lo com a agilidade, a organização, a liberdade e, amiúde, a transcendência que Wagner e Venezia revela - no qual, vinte anos praticamente decorridos, ainda sobressai a vitalidade original -, fazendo as apropriações, os arranjos e as improvisações da música do genial compositor e maestro alemão soar de forma quase instintiva e natural, sem perder a erudição dos seus modelos – excertos de Tristão e Isolda, Tannhäuser ou Lohengrin, por exemplo - já é uma proeza que não estará ao alcance de muitos…

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:15 link do post
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