a dignidade da diferença
26 de Julho de 2010

 

Como evitar, na literatura, os lugares-comuns? No delicioso Como Proust Pode Mudar a Sua Vida – publicado pela Dom Quixote e traduzido por Sónia Oliveira -, Alain de Botton dá-nos um magnífico exemplo. Obviamente que umas pitadas de génio ajudam e muito. Aqui fica o excerto, retirado do capítulo Como Exprimir as Emoções. Uma lição magistral:

 

«Em 1904, porém, Gabriel abandonou a vida nocturna para tentar fazer uma incursão pela literatura. O resultado foi um romance, O Amante e o Médico, cujo manuscrito Gabriel enviou a Proust mal o terminara, com um pedido de comentários e conselhos. (…) Aparentemente o livro estava repleto de lugares-comuns: “Existem algumas paisagens grandes e bonitas no teu romance”, explicou Proust, avançando delicadamente, “mas por vezes apeteceria que estivessem pintadas de uma forma mais original. É bem verdade que o céu está incendiado ao pôr-do-sol, mas isso já foi dito demasiadas vezes, e o brilho suave da Lua é uma maçadora trivialidade.” (…) O problema dos lugares-comuns não é que contenham ideias falsas, mas o facto de serem articulações superficiais de ideias muito boas. Os lugares-comuns são prejudiciais na medida em que nos fazem acreditar que descrevem adequadamente uma situação apesar de tocarem apenas a superfície. (…) A Lua que Gabriel mencionou teria com certeza um brilho suave, mas deveria ser muito mais que isso. Quando o primeiro volume do romance de Proust foi publicado (…) será que Gabriel (…) se deu ao trabalho de reparar que Proust inclui também uma lua, mas evitou dois mil anos de discursos prontos-a-usar sobre a Lua, criando uma metáfora invulgar para melhor captar a realidade da experiência lunar?

 

 

Por vezes no céu da tarde passava uma Lua branca como uma nuvem, furtiva, sem brilho, como uma actriz fora da sua hora de representar e que, da sala, com roupa de sair, observa por um instante os seus companheiros, encoberta, sem querer atrair as atenções para si mesma.»

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:37 link do post
Por fim, descoroçoado, arrojou a pena que tão desastrosarnente emperrara. E fechando na gaveta, com uma pancada, o volume precioso do Bardo:

- Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois aquele animal do Casco, toda a manhã!...

Ainda releu, coçando sombriamente a nuca, a derradeira linha rabiscada e suja:

- "... Na sala altaneira e larga, onde os largos e pálidos raios da lua..." Larga, largos!... E os pálidos raios, os eternos pálidos raios!... Também este maldito castelo, tão complicado!... E este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão antigo!... Enfim, um horror!

Atirou, num repelão, a cadeira de couro; cravou. com furor, um charuto nos dentes; e abalou da livraria, batendo desesperadamente a porta, num tédio imenso da sua obra, daqueles confusos e enredados Paços de Santa Irenéia, e dos seus avós, enormes, ressoantes, chapeados de ferro, e mais vagos que fumos.

A Ilustre Casa de Ramires
Manuel a 26 de Julho de 2010 às 02:22
Belo naco de prosa...
adorei! (podia agora expressar o meu contentamento ao ler este post com umas palavras que fizessem mais justiça a Proust...)
beatriz a 9 de Agosto de 2010 às 20:48
«podia agora expressar o meu contentamento ao ler este post com umas palavras que fizessem mais justiça a Proust...»

Força!
Que clareza de raciocínio e delicada escrita! Proust está sempre a mudar minha vida....
variz a 13 de Agosto de 2010 às 14:34
Sem dúvida.
Julho 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
21
24
25
28
29
31
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
Não consigo vislumbrar uma ligação directa entre a...
Parece-me que existe uma grande crise de valores e...
Não me parece que a crise de valores ou os valores...
Muito bem! Embora nos dias de hoje e na sociedade ...
Certo; tudo bem que existissem questões políticas ...
Já tive o livro, de facto. Contudo, foi mais ou me...
CaroEstou a procura do livro fatima nunca mais mas...
Não deixa de ser um belo aforismo...
O que é a vida, senão um turbilhão de pensamentos ...
Pelo tema, enquadra-se nela sem grande esforço...
Fausto n e da tetralogia. Mas dolce. Q trata do du...
Parece-me uma boa escolha. O som é bom e a qualida...
blogs SAPO