a dignidade da diferença
03 de Junho de 2009

 

A gravação já tem dois anos, mas só agora tive oportunidade de escutar a magnífica, assimétrica e lunar poesia musical de Jesca Hoop em Kismet. Após as primeiras audições, parece-me a sequência natural das canções subtilmente experimentais do notável Carbon Glacier de Laura Veirs, ligeiramente modificadas pelo tubo de ensaio de Hanna Hukkelberg. Ou seja, mais um belíssimo conjunto de histórias contadas por quem acha que este não é, definitivamente, o melhor lugar para se viver, dominadas por uma visão musical preciosamente ecléctica – soul, folk-rock, duas ou três ideias de pop-meets-quarteto de cordas, jazz, country servido em cubos de gelo, um ou dois esgares eléctricos e pedaços do Tom Waits boémio (haverá outro?) -  alimentada por pequenas doses de melodias sinuosas e semi-abstractas, mas de contágio imediato. Um grande e solitário disco.

 

Com o álbum de estreia de David Ackles foi amor à primeira vista. Tudo o que tinha lido sobre o compositor norte-americano confirma-se nesta fulgurante montra de ourivesaria musical. O retrato sublime e cinemático da América profunda, que arrastou consigo óbvios e notáveis irmãos gémeos; desde as alucinações de Tim Buckley, passando pela solidão e poesia de Cohen ou pela amargura de Sail Away de Randy Newman, sem esquecer esse paradigma do cantor-contador de histórias que é Nighthawks At The Diner do genial Tom Waits (outra vez este gajo?), ou gerando os mais recentes – e devotos – Tindersticks, Elvis Costello e Divine Comedy.

Se American Gothic  tem a mais-valia dos sublimes arranjos orquestrais, escutar uma e outra vez The Road to Cairo, When Love is Gone, Sonny Come Home, Lotus Man ou Be My Friend, vai-me deixar francamente indeciso na altura em que quiser eleger o Ackles vintage.

Directamente para a lista dos melhores de sempre.

 

David Ackles, The Road to Cairo

 

Jesca Hoop, Money

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:14 link do post
Não conhecia.
Gostei mais de Jesca Hoop do que do David Ackles.
Victor Afonso a 3 de Junho de 2009 às 23:35
Pelos gostos e sensibilidade que me vou apercebendo que o Victor tem, parece-me uma coisa absolutamente natural gostar mais da Jesca Hoop. Música pop, mas muito longe daquela que se consome diariamente. O Ackles é mais para "desafortunados" como eu... De resto, os discos só fazem sentido ouvidos integralmente. Um abraço.
"Se American Gothic tem a mais-valia dos sublimes arranjos orquestrais, escutar uma e outra vez ..., vai-me deixar francamente indeciso na altura em que quiser eleger o Ackles vintage".Já tinhamos falado em tempos sobre estes 2 discos....Ainda me vais dar razão.
A Jesca Hoop é execlente e referência ao Carbon Glacier da Laura Veirs é feliz.Infelizmente, pelos vistos, ainda não ouvi nada da Hanna Hukkelberg.Apesar do João Lisboa...
Manuel Carvalho a 4 de Junho de 2009 às 23:40
Quando me disseste isso, julguei que te referias ao "Subway to the country". O disco de estreia do Ackles nunca tinha ouvido. Se este é, para ti, o melhor, não sei como negá-lo. As tendências mudam e as opinões também; a ver vamos. De momento, este e o "American Gothic" são os "Ackles vintage".
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