a dignidade da diferença
05 de Abril de 2009

 

Ainda a propósito das recentes polémicas sobre o nazismo-fascismo e o Holocausto, nada melhor do que ler este livro:

 

Foi uma sorte para mim ter sido deportado para Auschwitz só em 1944, isto é, depois de o governo alemão, devido à recente escassez de mão-de-obra, ter decidido prolongar a vida dos prisioneiros a eliminar, concedendo sensíveis melhorias nas condições de vida e suspendendo temporariamente as execuções individuais arbitrárias.

Por isso, este meu livro nada acrescenta, no que diz respeito a pormenores atrozes, a quanto já é do conhecimento dos leitores de todo o mundo acerca do tema inquietante dos campos de extermínio. Ele não foi escrito com o objectivo de formular novas acusações; servirá talvez mais para fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspectos da alma humana. Pode acontecer que muitos, indivíduos ou povos, julguem, mais ou menos conscientemente, que «todos os estrangeiros são inimigos». Na maioria dos casos esta convicção jaz no fundo dos espíritos como uma infecção latente; manifesta-se apenas em actos esporádicos e desarticulados e não se constitui num sistema de pensamento. Mas quando tal acontece, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, no fim da cadeia, encontra-se o Lager. Ele é o produto de uma concepção do mundo levada às extremas consequências com rigorosa coerência: enquanto a concepção subsistir, as consequências ameaçam-nos. A história dos campos de extermínio deveria ser interpretada por todos como um sinal sinistro de perigo.

Estou consciente, e peço compreensão, dos defeitos estruturais do livro. Ele nasceu, se não de facto, pelo menos como intenção e como concepção, já nos últimos dias do Lager. A necessidade de contar aos «outros», de tornar os «outros» conscientes, tomara entre nós, antes e depois da libertação, o carácter de um impulso imediato e violento, ao ponto de rivalizar com as outras necessidades primárias: o livro foi escrito para satisfazer essa necessidade; em primeiro lugar, portanto, como libertação interior. Daí o seu carácter fragmentário: os capítulos foram escritos não em sucessão lógica, mas por ordem de urgência. O trabalho de coordenação e de fusão foi feito à secretária, e é posterior.

Parece-me supérfluo acrescentar que nenhum dos factos é inventado.

 

Primo Levi, Se isto é um homem. Tradução de Simonetta Cabrita Neto e edição da Teorema.

 

E, já agora, porque não ouvir também a magnífica gravação de homenagem ao trabalho dos artistas internados (e muitos assassinados) em Terezín, que no meio do horror continuaram a sua obra até morrer e, até lá, cantando para viver?

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:11 link do post
Coincidência: comprei-o hoje.
Foi sobretudo isto que me interessou nas linhas iniciais: «Ele não foi escrito com o objectivo de formular novas acusações; servirá talvez mais para fornecer documentos para um estudo sereno de alguns aspectos da alma humana.»
Ana a 5 de Abril de 2009 às 02:01
E é precisamente essa serenidade e sobriedade que o distingue dos outros livros sobre o mesmo tema. Foi uma boa escolha, Ana.
O comentário pode ser um pouco desajustado.
Não vou falar do "seu" livro. Vou falar daquele que estou a ler- " A espuma dos dias" de Boris Vian.
É tão surrealista! É surrealismo do mais "puro".
Nem sei se deva rir ou chorar.
Considero o livro uma obra prima.
Em relação ao que aconteceu há muitos, muitos anos...não quero comentar.
É muito doloroso.
ionesco a 7 de Abril de 2009 às 09:42
Fiquei com vontade de ler o Boris Vian. Quanto ao meu "tema": é doloroso, mas convém não esquecer. Boa Páscoa.
«Tenho o mundo inteiro dentro da cabeça».

Leia o Boris Vian,por favor! "L'écume des jours".

E...

Não é meu hábito esquecer-me. Pelo contrário.

Descansemos.
ionesco a 10 de Abril de 2009 às 02:41
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