a dignidade da diferença
08 de Março de 2009

 

Eis mais um magnífico livro que se debruça sobre as preocupações ambientais, cujo autor, Edward O. Wilson, é um dos mais reputados biólogos contemporâneos.

E. O. Wilson defende que a solução para alguns dos maiores problemas do planeta virá da união entre ciência e religião. Embora entendam o mundo de forma diferente e tenham uma visão contrária acerca do nascimento e da evolução das espécies, o autor apela para a junção destas duas forças em busca de um objectivo que deve ser de todos: viver em harmonia com a natureza, pondo de parte as suas diferenças, pouco relevantes face ao perigo que espreita o mundo real.

Numa linguagem fascinante e clara que se transforma, para os seus leitores, num autêntico farol, o biólogo descreve-nos uma cativante visita guiada por alguém que é um profundo conhecedor dos temas, rumo a uma melhor compreensão do mundo e dos seres vivos, e da relação que existe entre eles, alertando-nos para o perigo que ameaça o futuro do planeta.

A poluição, o aquecimento global ou o declínio da diversidade biológica devem ser preocupações comuns, que só o respeito mútuo poderá ultrapassar.

A obra chama-se The Creation: An Appeal to Save Life on Earth e foi publicada pela Gradiva – na colecção Ciência Aberta - em Novembro de 2007, com o título A Criação, Um Apelo para Salvar a Vida na Terra. A tradução é de Maria Adelaide Ferreira.

Para terminar, deixo-vos com um pequeno excerto do primeiro capítulo, onde o autor mostra, de forma brilhante, ao que vem.

 

 

Carta a um pastor baptista sulista: saudação

 

Caro pastor: Nunca nos encontrámos e no entanto sinto que o conheço suficientemente bem para lhe chamar amigo. Antes de mais, crescemos na mesma fé. Quando rapaz, também eu respondi ao apelo do altar; fui imerso na água baptismal. Embora já não pertença a essa fé, estou certo de que, se nos encontrássemos e falássemos em privado sobre as nossas crenças mais profundas, o faríamos num espírito de respeito mútuo e de boa vontade. Sei que partilhamos muitos dos preceitos da conduta moral. Talvez também importe o facto de sermos ambos americanos e, na medida em que tal possa ainda afectar a civilidade e as boas maneiras, sermos ambos sulistas.

Escrevo-lhe agora para lhe pedir conselho e ajuda. Claro que, ao fazê-lo, não vejo forma de evitar as diferenças fundamentais nas nossas respectivas visões do mundo. O pastor é um intérprete literal da Escritura Sagrada cristã. Rejeita a conclusão alcançada pela ciência de que a humanidade evoluiu a partir de formas inferiores de vida. Acredita que a alma de cada pessoa é imortal, fazendo deste planeta uma plataforma de transição para uma segunda vida, eterna. A salvação está assegurada para aqueles que se redimem em Cristo.

Eu sou um humanista secular. Penso que a existência é aquilo que dela fazemos enquanto indivíduos. Não existe qualquer garantia de uma vida depois da morte e o Céu e o Inferno são aquilo que criamos para nós próprios, neste planeta. Não existe nenhum outro lar. A humanidade teve origem aqui, por evolução a partir de formas inferiores de vida, ao longo de milhões de anos. E sim, vou dizê-lo claramente, os nossos antepassados eram animais parecidos com macacos. A espécie humana adaptou-se, física e mentalmente, à vida na Terra e a nenhum outro lugar. A ética é o código de conduta que partilhamos com base na razão, na lei, na honra e num sentido inato de decência, mesmo que alguns o atribuam à vontade de Deus.

 

Para si, a glória de uma divindade invisível; para mim, a glória de um universo finalmente revelado. Para si, a crença num Deus transformado em carne para salvar a humanidade; para mim, a crença no fogo de Prometeu, roubado para libertar os homens. O pastor encontrou a sua verdade absoluta; eu continuo à procura. Eu posso estar enganado, o pastor pode estar enganado. Podemos ambos estar parcialmente certos.

Será que esta diferença entre as nossas visões do mundo nos separa em todos os aspectos? Não. O pastor e eu e qualquer outro ser humano lutamos pelos mesmos imperativos de segurança, liberdade de escolha, dignidade pessoal e por uma causa em que acreditar que seja maior do que nós próprios.

Vejamos então se podemos, e se o pastor está disposto a isso, encontrar-nos no lado próximo da metafísica, de forma a lidarmos com o mundo real que partilhamos. Expresso-me assim porque o pastor tem o poder de ajudar a resolver um enorme problema, que é uma grande preocupação para mim. Espero que tenha a mesma preocupação. Sugiro que ponhamos de lado as nossas divergências de forma a salvarmos a criação. A defesa da natureza viva é um valor universal. Não resulta de nenhum dogma religioso ou ideológico, nem o promove. Ao invés, serve, sem discriminação, os interesses de toda a humanidade.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
«O pastor encontrou a sua verdade absoluta; eu continuo à procura.» Esta frase resume com grande precisão o problema. É que há uma grande diferença entre estes dois tipos de pessoas: entre quem encontra e quem procura. Quem encontra a verdade entende que é um dever, simultaneamente religioso e moral, espalhar essa verdade, ou chamar outros a essa verdade (lembro-me da metáfora da pesca na Bíblia).
Talvez na ideia de que há algo que nos une enquanto humanos (o «sentido inato de decência»...) esteja a base para o acordo que O. Wilson propõe.
Ana a 9 de Março de 2009 às 00:03
«Talvez na ideia de que há algo que nos une enquanto humanos (o «sentido inato de decência»...) esteja a base para o acordo que O. Wilson propõe»

Esse é que deve ser o ponto fulcral. A ver vamos.
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