a dignidade da diferença
08 de Fevereiro de 2009

 

BÉLA TARR, “A MAN FROM LONDON

 

Um funcionário de uma estação dos caminhos-de-ferro (Maloin) assiste, no momento em que os passageiros de Londres desembarcam e mudam de comboio, a um homicídio. O assassino desaparece e a vítima afoga-se na água com uma mala que trazia na mão. Maloin apanha a mala e abre-a. Qual não é o seu espanto quando verifica que está cheia de dinheiro. Depois de secar as notas molhadas, esconde a mala no seu armário.

Quando, posteriormente, é interrogado pela polícia, o protagonista não lhe revela o sucedido e age como se nada de anormal tivesse acontecido

Esta é a história (como se pode, aliás, verificar no verso da embalagem do DVD) que o cineasta Béla Tarr conta no seu último filme “O homem de Londres”. Mas como acontece com a maioria dos grandes autores, o que mais interessa neste filme existencialista e profundamente perturbador está muito para além da história que nos é narrada.

 

Tarr, apostando uma vez mais na dilacerante fotografia a preto-e-branco, acerta em cheio na forma como nos transmite o universo de desolação interior que se vai apossando de Maloin (magnificamente interpretado por Miroslav Krobot). Para isso, serve-se dos lentíssimos movimentos de câmara – possuidores de uma beleza plástica muito próxima da estética do mestre japonês Kenji Mizoguchi – e de uma obsessiva, arrepiante e extraordinaria banda sonora, que, por não terem nada de gratuito, descrevem com uma perfeição absoluta a angústia e a perturbação moral crescente que acompanham o protagonista principal do filme. Tudo para ele é um terrível e desesperante jogo sombrio: a decadente vida familiar, com uma mulher e uma filha que não consegue suportar, e uma profissão rotineira e entediante.

Com mão de mestre e uma visão muito particular sobre o modo como se deve fazer cinema, Béla Tarr ergue, perante os nossos olhos, um assombroso e visionário monumento estético, revelador do vazio existencial contemporâneo que se apoderou da grande maioria dos seres humanos, os quais se vão martirizando interiormente até atingirem, como único meio de salvação, uma incontrolável e redentora implosão final.

Uma obra-prima inesquecível, encenada de forma devastadora e dolorosa, mas com um rigor e detalhe prodigiosos.

Para quando a sua exibição numa sala de cinema comercial?

 

A man from London

publicado por adignidadedadiferenca às 23:06 link do post
Bem, este texto ainda me fez mais vontade de ver o filme rapidamente! Ainda não o consegui comprar na Fnac...

Já agora, a banda sonora é assinada por quem?
Victor Afonso a 9 de Fevereiro de 2009 às 12:13
Mihály Míg, Victor. Só o conheço dos filmes do Tarr.
(mandei-lhe um mail)

quanto ao post:
ainda não vi o filme, mas já tinha dado pela sua edição em dvd. mais um...
sem-se-ver a 10 de Fevereiro de 2009 às 09:28
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