a dignidade da diferença
12 de Outubro de 2008

Esta minha preocupação recente com a Teoria da Evolução de Charles Darwin tem que ver com a publicação de um óptimo artigo na edição de ontem do semanário Expresso sobre a superficialidade com que os programas do ensino básico e do secundário  estão a tratar a teoria evolucionista e que está a ser alvo de críticas condundentes por parte de um grupo de biólogos do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa.

Reagindo, pertinentemente, contra «a ameaça que se pressente pairar sobre o ensino do evolucionismo nas escolas portuguesas, ou seja, a pretensão dos criacionistas de introduzir nas aulas de ciências o ensino da criação a par da evolução».

Uma das investigadoras do CFCUL critica, como se pode ler nas páginas do jornal, a recomendação «para evitar o estudo pormenorizado das teorias evolucionistas» e admira-se com a ausência de capítulos essenciais para compreender a história da vida terrestre nos actuais programas de ensino, com são «a origem da vida e a evolução do Homem», quando, anteriormente, «estavam contemplados e eram abordados com alguma profundidade».

Sendo um notório disparate a pretensão de ensinar o criacionismo nos mesmos termos e condições do evolucionismo, uma vez que aquele pertence ao domínio da religião e não da ciência, a verdade é que, lentamente, a ameaça pode tornar-se real mesmo que num futuro longínquo - apesar do destaque que lhe tem sido dado ultimamente pela candidadata do partido republicano a vice-presidente. Sarah Palin é uma cristã evangélica adepta do ensino do criacionismo nas escolas em vez da Teoria da Evolução (mas aqui, segundo julgo perceber, já se trata de um caso evidente de demência).

Uma curiosidade que me ocorre: O que terão os amigos do projecto «Magalhães» a dizer sobre isto?

 

Curiosa e francamente interessante é a opinião do padre jesuíta e cientista Luís Archer. Considerando que «o criacionismo é uma tolice de todo o tamanho. Os criacionistas defendem que a vida na Terra e as espécies foram criadas por Deus, tal como é relatado na Bíblia, e não que evoluíram em resultado de um processo natural. (...) É um disparate as pessoas pensarem que a Bíblia é um livro de ciência. Deus não é necessário para explicar a origem da vida e do Homem».

Para que a situação não piore, termino com uma pequena sugestão. A magnífica introdução que Janet Browne, professora de História da Ciência na Universidadede Harvard, faz à obra e ao pensamento de Charles Darwin no livro – que acaba de ser publicado no nosso país pela Gradiva - «A Origem das Espécies de Charles Darwin».

 

Esta gravura foi acrescentada hoje, 2008-10-13, porque não a consegui colocar na devida altura.

publicado por adignidadedadiferenca às 21:24 link do post
what??

vou já conferir com os meus colegas de Biologia! não sabia disto!
sem-se-ver a 13 de Outubro de 2008 às 10:26
Depois diga-me. Para avaliar a credibilidade do Expresso (eh eh)
Concordo com o que escreveu.
Sou ateia ( o que é isso?) e sou racional.
Mas... quando entro numa igreja, sinto uma paz!
Será o silêncio e a frescura?
E... gosto de ler a Biblía.
E... muito havia para dizer sobre tudo isto.
O carbono 60, esse, é seguro.
ionesco a 13 de Outubro de 2008 às 19:08
Também gosto de ler a Bíblia. Mas considero-a "apenas" uma magnífica obra de ficção. Também gosto de igrejas e sinto uma paz interior quando as visito (nunca durante as missas, claro). Claro que sobre o evolucionismo muito há a dizer e desde Darwin muitas interpretações já foram feitas. E algumas "correcções também". Mas a matriz continua lá. P.S. Gosto de conversar consigo.
Calma! Não li o artigo do Expresso, mas não me parece que o criacionismo ande a rondar os programas. Se as coisas estiverem como no meu tempo, a síntese moderna é que tem sido ignorada, com o trabalho complexo de conciliação da genética e das teorias na tradição darwinista. Mas isso é uma lacuna, não resulta de nenhuma tentativa de substituir a ciência pela mitologia bíblica. Nunca ouvi dizer que essa gente tivesse representantes na Europa. Já agora, por acaso li há pouco tempo este livrinho da J. Browne, de que gostei muito, é realmente simples para começar, e o assunto é muito mais complicado do que parece, mas aproveito para recomendar um outro mais aprofundado e realmente fascinante, Evolution for Everyone, de David Sloan Wilson, que não sei se está traduzido ou vai estar — mas valia a pena. E agora acho que vou ganhar balanço para ler mais um ou dois do S. Jay Gould e depois vou voltar à minha vida que não ganho para isto. Estou sempre a dizer a mim mesma que não tenho vagar para estas coisas, mas acho que o género da divulgação científica ganhou uma tal qualidade que quase somos levados a ler contra a nossa vontade. Enfim, podemos não ir longe, mas acho que se fica com uma espécie de orientação funcional com alguma utilidade na nossa postura cívica. (Já agora explico que sou de Letras...)
Gosto do seu blogue. tiro sempre ideias para conhecer coisas que não conhecia e já tenho comprado uns discos por sua causa. Não desista.
Anónimo a 14 de Outubro de 2008 às 11:07
Não costumo responder a anónimos, mas o comentário é tão brilhante que merece resposta! Também acho que devemos ter calma. Não me parece que o criacionismo esteja a chegar às nossas escolas, mas a ligeireza com que está a ser tratada a matéria não anuncia nada de bom... Obrigado pela dica do livro - vou pesquisar - e continuarei a dar música, obviamente.
É realmente tenobroso a possibilidade de uma senhora como Sarah Palin vir a ocupar a Casa Branca. como diz, é mesmo um caso de demência. E o criacionismo anda lá perto...
Victor Afonso a 16 de Outubro de 2008 às 00:33
Totalmente de acordo. Vamos ver se isto não piora.
vou roubar o boneco para a pastelaria...
ana cristina leonardo a 18 de Outubro de 2008 às 19:08
À vontade. É uma honra...
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