a dignidade da diferença
23 de Agosto de 2008

900 - Paolo Conte (1992) 

 

 

Em 1992, Paolo Conte regressa com «900», um álbum onde volta a tomar as rédeas e a assumir a direcção musical em versão panorâmica. Escreve as letras, assina a música, a orquestração e é o responsável pela direcção artística. 

 

Se o melhor Conte andava um pouco desaparecido, ele regressa neste álbum em todo o seu esplendor. Uma voz com sabor a whisky, etilizada e pedrada, inventando um novo conceito para designar o «crooner» perfeito. E depois, para acompanhar a bebida, em vez do gelo, Conte trouxe uma big band de jazz, clássica, cosmopolita, com a alma enterrada ora no inferno, ora nos nossos sonhos mais húmidos e cheios de fantasia. O kitsch de braço dado com a broadway, Nova Iorque em Itália narrada pela visão dos olhos de um poeta que se avista na linha do horizonte de uma praia distante na hora do crepúsculo.

 

 

 

E o resultado é uma música feita de sobressaltos provocados pela solidão de um piano - acentuado, aqui e ali, pelo desespero das notas de um «bandoneon» -, ou da luxúria de uma espantosa coordenação orquestral, onde os instrumentos só aparecem quando se tornam essenciais para sublinhar a importância das palavras. E como são belas as palavras de Paolo Conte neste portento sonoro e lírico. Palavras sussurradas, soletradas, choradas e doridas, num dos maiores exemplos do amor que um homem sente pelas mulheres.

 

Se o disco é, quase todo, da estirpe dos clássicos absolutos, quatro canções estão prontas a ajoelhar o mais incrédulo: «Gong-oh» é a evocação inesperada do brilho majestoso de «In a Persian Market» de Ketèlbey, mas num ritmo muito mais alucinante; «I giardini pensili hanno fatto il loro tempo», reinventa-se construída numa espantosa lentidão que deixa marcas profundas e sombrias à primeira audição; «Chiamami adesso» é tudo isso que estão a pensar. É música de papelão, kitsch, melodramática e convencional, mas é também um exemplo superlativo de uma canção sublime que, aparentemente, tem tudo contra. E, por fim, resta-me falar da absoluta solidão da patética e assombrosa «Do do».

 

Acabei de dizer resta-me falar, mas já não o consigo fazer de forma articulada. Quando Paolo Conte nos magoa, completamente perdido, com o «da da da da da da» à deriva, eu já não estou aqui. E, então, para quê continuar com a crítica? Neste momento, não vos consigo falar nem vocês me conseguem ouvir.

 

 

 

 

   

 

publicado por adignidadedadiferenca às 21:26 link do post
que belíssimo post!!!
sem-se-ver a 24 de Agosto de 2008 às 11:52
Obrigado. Mas o culpado é o Paolo Conte. Limitei-me a descrever, instintivamente, as sensações que o disco dele me provoca.
"É música de papelão, kitsch, melodramática e convencial"

convencial ou convencional?

Tenho uma amiga que gosta muito dele, eu já ouvi (não este álbum) mas não me entrou.
Manuel a 24 de Agosto de 2008 às 22:56
Convencional, claro. Não sei como é que me escapou. Gracias.
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