a dignidade da diferença
12 de Agosto de 2008

 

Complete Billie Holiday-Lester Young, 1937-1946 (editado em 1999 sob a responsabilidade de Alain Gerber)

 

«Os cerca de 90 minutos que Billie e Lester deixaram gravados são um marco da música ocidental, de Bach a Mozart e Ornette»

 

Will Friedwald in «Jazz Singing»

 

 

Billie Holiday e Lester Young, falecidos, respectivamente, a 17 de Julho de 1959 e a 15 de Março do mesmo ano, encontraram-se pela primeira vez em estúdio a 25 de Janeiro de 1937.

Esta caixa de 3 cds reúne o mais apetecível das gravações que os juntaram nas décadas de 30 e 40 do século passado. Billie e Lester acompanharam-se um ao outro numa vida de excessos, não conseguindo evitar um destino previsivelmente trágico. Aquilo a que se vulgarizou chamar um caso típico de criadores geniais sobrevivendo numa situação de miséria que, de resto, estava em perfeita sintonia com as condições sociais em que a maioria dos músicos de jazz daquela época nasceram e cresceram.

Se a caixa é toda recomendável, a matriz essencial do namoro musical entre a voz de Billie Holiday e o saxofone tenor de Lester Young concentra-se no intervalo compreendido entre os anos de 1937 e de 1942.

É este período que vê nascer a grande maioria das canções de antologia e as que provocaram as paixões mais arrebatadoras. Um momento de plenitude musical raramente atingido por outros (grandes) músicos de jazz!

Como esquecer a marca indelével da individualidade de cada um ou a comunhão corporal e espiritual que fazia dos intérpretes dois irmãos/amantes artísticamente inseparáveis?

De tudo o que a dupla assinou, apetece-me recordar a riqueza da substância musical e interpretativa devidamente comprovada pelas mudanças de tempo, pequenas variações melódicas ou recriações do fraseado musical conseguidas no espaço limitado de uma canção, condicionado pelas restrições técnicas da época. Apetece-me falar de um conjunto fulgurante de canções, por onde corre um brilho intenso, narrando relações sofridas e amores doridos que se deseja guardar num estojo pessoal para, mais tarde, transmitir secretamente apenas a mais um dois dos pobres mortais de adoramos intimamente. E não é tudo.

Não saio daqui sem testemunhar que Billie e Lester Young foram gémeos tanto na originalidade da arte que ousaram criar como nos problemas que enfrentaram durante o seu ciclo de vida. Problemas que provocaram, como seria inevitável, um final de carreira menos merecedor de elogios.

Se há quem prefira esquecer os últimos anos de actividade musical do duo, a verdade é que mesmo aí, para mim, é difícil ficar indiferente à emoção que emana de cada uma das suas composições, mesmo que o brilho se desvaneça ou o fulgor pareça ausente.

E antes que a luz se apague, volto ao período de oiro para vincar que é impossível ficar sereno perante a audição de prodígios como «All of me», «Back in your own backyard», «I can’t get started», «Let´s do it», «The man I love» e tantas, tantas outras cuja referência integral se tornaria num verdadeiro calvário.

Um dos marcos indiscutíveis da música do século XX, onde um punhado de canções absolutamente viciantes e inquietantes atiçam e ferem os nossos orgãos vitais de forma inabalável durante breves mas longos momentos, porque nunca mais nos largam, onde o que mais impressiona é aquela sensação de querermos ser cúmplices de dois músicos que parecem tocar apenas para si.

 

 

 

I can't get started

publicado por adignidadedadiferenca às 00:02 link do post
Isto é das melhores coisas da vida. Não sei se já viste aquele pequeno filme sobre o Lester Young que está no tube. É magnífico.
Manuel a 12 de Agosto de 2008 às 01:04
Nãp conheço o vídeo, mas vou investigar. A caixa dos 3 cds já a tenho desde a altura em que foi editada, mas continua a fazer-me companhia regularmente.
O artista do qual tenho mais cd's é a Billie. Durante um tempo era religião mesmo. Depois larguei...
Manuel a 12 de Agosto de 2008 às 01:10
subscrevo por inteiro.
sem-se-ver a 12 de Agosto de 2008 às 19:58
Obrigado. Continua «sem-se-ver», mas aos poucos lá vamos descobrindo algumas afinidades musicais (e não só).
Tudo isto é verdade. Mas a Billie Holiday que mais ouvi (ou que mais ouço ou que mais amo) é a do fim. Do fim da vida. Dela. Todas as marcas da vida estão lá. Álcool e fumo. Lady in Satin. Gravado um ano e meio antes de morrer.
Manuel Carvalho

Manuel Carvalho a 14 de Agosto de 2008 às 21:48
Embora não estejamos em sintonia. como se percebe facilmente pelo texto, compreendo perfeitamente o que diz. Mesmo no final de carreira, não consigo ficar impassível perante o canto de Billie Holiday, precisamente porque as marcas da vida estão lá. Mas, também as sinto a partir de 1937 e, nessa altura, continuo a achar que o talento da Billie (e do Lester Young) tinha mais fulgor. Obrigado pelo comentário e pela visita ao blog.
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