a dignidade da diferença
24 de Fevereiro de 2017

 

Autor Flamengo Desconhecido Vista da Rua Nova dos

Autor Flamengo Desconhecido, Vista da Rua Nova dos Mercadores

 

Segundo as organizadoras – da exposição “A Cidade Global. Lisboa no Renascimento”, no Museu Nacional de Arte Antiga – são cinco as razões que justificam conceptualizar a Lisboa quinhentista como uma cidade global: o facto de ter estado no centro da circulação de produtos comerciais; ter concentrado em si uma população misturada, de indígenas (entenda-se, lisboetas ou portugueses), outros europeus e de povos de todo o globo; ter tido uma “consciência global”; ter sido reconhecida por outras cidades como detentora dessa capacidade; e, por último, a de ter estado na vanguarda de novas formas de conhecimento, de tecnologia e de comunicação. Muito haveria a dizer acerca desta perspectiva de Lisboa, de Portugal, do seu império e dos gloriosos tempos manuelinos. Longe de ser original, ela forma uma espécie de lengalenga que se instalou, sob a forma de impensado, em teses, livros e exposições. Corresponde, em geral, a uma versão eufemística do glorioso passado português, agora recoberto de um vocabulário importado das ciências sociais, onde a noção de rede, a viagem dos objectos, a escala global e as relações entre conhecimento, informação e poder são alvo de conceptualizações superficiais. Mais: trata-se de uma perspectiva que tende a constituir-se numa espécie de cartilha neo-luso-tropicalista, que não deixa de se actualizar, incluindo uma referência aos aspectos económicos e comerciais, nem tão-pouco deixa de aludir a populações mistas, as quais sugerem uma espécie de carácter híbrido new age. Vinho novo em odres velhos (…) também agora, a propósito de Lisboa, como cidade global, volta a estar presente a cartilha luso-tropical. (…) Existem outras interpretações e outra historiografia – mais analítica, mais crítica, menos patrioteira e avessa à utilização celebrativa da história – que talvez pudesse interrogar Lisboa numa perspectiva global. Estabelecendo comparações, percebendo diferenças e desigualdades, procurando captar os diferentes modos de discriminação étnica ou racial que a cidade gerou, fruto de diferentes medos e preconceitos, historicamente situados. (…) Uma historiografia, com certeza mais pautada pelas lógicas de controlo dos poderes da coroa, do município, das diferentes confrarias e irmandades que se vão organizando e que se articulam com a Igreja renovada por Trento.

Diogo Ramada Curto, Historiador, in A Revista E, 18 de Fevereiro

publicado por adignidadedadiferenca às 18:14 link do post
20 de Fevereiro de 2017

 

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A Comissária, filme realizado em 1967 por Aleksandr Askoldov, um autor praticamente desconhecido, foi proibido na União Soviética pelas autoridades durante mais de vinte anos, revelando-se apenas em 1988, ano em que percorreu o circuito mundial de festivais de cinema e conquistou o Prémio Especial do Júri no Festival de Berlim. Situado cronologicamente durante o período da guerra civil (1918-1922), após a revolução bolchevique, a obra de Askoldov descreve a história de uma mulher, comissária do exército, fervorosamente patriótica e partidária, que, para continuar a combater, pretendia abortar o seu feto (e Askoldov explora sem concessões a crueldade dessa escolha). Tendo, contudo, deixado descuidadamente decorrer o tempo útil para o poder fazer, acabou por dar à luz um filho indesejado. Esses derradeiros dias da gravidez são vividos conjuntamente com uma família judaica que suporta a crueza e as agruras do dia-a-dia. Sustentado por uma magnífica mise-en-scène, na qual evolui com destreza um verdadeiro tratado sobre relações humanas – entre vizinhos, amigos, cônjuges, crianças, pais e filhos – o cineasta consegue convencer-nos da autenticidade da mudança que ocorre no espírito da comissária, provocada pela convivência com a dor e a visão onírica do casal de judeus, a sua desarmante simplicidade e o cuidado com os filhos, vencendo o conflito interior entre o desejo de combater ao lado dos seus camaradas e a condição maternal, demonstrando uma crescente afeição pelo rebento. O retrato dessa extrema experiência de vida, dos dramas familiares, bem como as inusitadas alusões ao holocausto ou ao regime totalitário de Estaline – ilustradas, por exemplo, numa soberba, inquietante e tensa sequência protagonizada pelas crianças, filhos do casal de judeus – sobressai num filme matizado pela magnífica fotografia a preto-e-branco, pela elaborada composição dos planos (elegantes, violentos, tranquilos ou doloridos, em tudo similares à existência que vão exibindo) e pelas profundidade, solidez e expressividade dos actores, características que contribuem necessariamente para a excelência de um filme único (em todos os sentidos) que recomendo vivamente.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:43 link do post
09 de Fevereiro de 2017

 

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A história significa as acções e as criações dos nossos antepassados, que nos trouxeram até ao ponto a partir do qual nós prosseguimos inexoravelmente. Desde tempos imemoráveis que os homens conhecem a sua história através de mitos e lendas; desde a invenção da escrita, pelo registo das suas experiências e actuações, que tinha como fim furtá-las ao esquecimento. A história como ciência é diferente. Nesse caso, queremos saber o que realmente aconteceu. Por isso nos atemos às realidades ainda presentes, às chamadas fontes, aos documentos, aos relatos de testemunhas, às edificações e às prestações técnicas, às criações literárias e artísticas. Todas elas são perceptíveis, mas contanto que se compreenda o sentido que nelas se exprime. A ciência chega até ao ponto em que nós entendemos correctamente aquilo que nos é realmente transmitido e em que podemos comprovar que são correctas as declarações de testemunhas. Para ser puro, o conteúdo da ciência separa-se do teor dos mitos e do teor das histórias sagradas. Os testemunhos das histórias sagradas não atestam factos, são antes declarações do género: «nós acreditamos que…». Aquilo que os crentes nos dão prova é algo que nós, mesmo que então tivéssemos estado presentes, não poderíamos, sem a crença, atestar como facto. Tal como todas as ciências, também a ciência história se debate com limites. A enorme ampliação do nosso saber, penetrando no passado e em domínios antes desconhecidos, gerou a expectativa de se poderem ultrapassar os limites. Ou seja, chegaremos até ao início da história. Mas a ciência ensina-nos a modéstia perante o segredo. Não é possível prever, na verdade, a abertura dos espaços de tempo em que ainda não penetrámos e que somente se denunciam por poucos indícios. Mas cada início, mesmo o começo de algo novo no âmbito da história, coloca-nos perante um mistério, no qual a origem permanece fechada ao saber.

Karl Jaspers, in «Pequena Escola do Pensamento Filosófico»

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