a dignidade da diferença
29 de Setembro de 2015

 

Turner

 J. M. W. Turner, Dido builbing Carthage (1815)

 

O mais recente documentário de Frederick Wiseman, National Gallery – editado comercialmente em DVD há cerca de duas semanas -, investiga a grande instituição cultural britânica, focando o seu espaço e a realização de todo o tipo de actividades ou tarefas que ali se praticam, onde todos os seus colaboradores são protagonistas e intervenientes num amplo, trabalhoso e dinâmico processo cultural. Wiseman avalia o museu e aborda a sua história como um todo, exibindo as características do museu e a política cultural de quem o administra, bem como os princípios que unem as oficinas de conservação e restauro, as actividades pedagógicas para crianças ou o programa para grupos de invisuais, por exemplo. O seu modus operandi – com uma rara inclinação narrativa e um uso minucioso da luz e da cor - consiste na utilização de planos fixos, rigorosamente iluminados, neles fixando conversas e imagens de quadros, onde se detém para fazer sobressair uma singular visão da história da pintura. Notável será ainda a forma como o cineasta utiliza a profundidade de campo para revelar um museu que é todo salas e janelas dispostas em volta de um espaço circunscrito, criando, como acertadamente escreveu Vasco Baptista Marques, um lugar simultaneamente «aberto e fechado, fisicamente delimitado pelas fronteiras do museu, e esteticamente infinitizado pelas inumeráveis camadas de representação que cada uma das suas galerias e cada um dos seus quadros comporta». Seguindo meticulosamente as enriquecedoras apresentações e elaboradas explicações dos curadores e dos guias do museu sobre as telas de Vermeer, Rubens, Turner, Ticiano, Leonardo ou Caravaggio, por exemplo – atravessando a composição dos elementos, a utilização dramática da luz, a configuração psicológica das personagens ou o uso dos materiais -, Wiseman aproveita as suas magníficas lições de pinturas para os configurar como mui dignos representantes de uma prodigiosa cultura clássica.

 

rubens

Peter Paul Rubens, Samson and Delilah (1609)

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:21 link do post
16 de Setembro de 2015

 

cláudio e constantino

 

Publicada em 2014 pela D. Quixote, a mais recente e consistente obra da escritora Luísa Costa Gomes reúne um conjunto versátil de episódios rústicos que resume a vida afectuosa de duas crianças - os irmãos Cláudio e Constantino, que inspiraram o título do livro - num encantador universo ficcional, edificado a partir das ideias resgatadas nas pequenas contradições observadas nas questões filosóficas que o conhecimento do mundo lhes arranja - o ovo de colombo, o infinito,  ou o círculo vicioso, por exemplo. Singular no seu género, Cláudio e Constantino é um livro assaz sugestivo e cativante, porque pleno de inteligência, humor e graça, onde sobressai uma linguagem fina, cuidada e agradável. Convida os seus leitores a pensar durante o divertimento, oferecendo-lhes um encontro precioso e irrecusável com a rara beleza das coisas simples.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:43 link do post
09 de Setembro de 2015

 

vermeer

 Vermeer, Rua de Delft (1657-58)

 

Não há comunicação entre as poucas pessoas do quadro de Vermeer «Rua de Delft». As suas actividades silenciosas são todas separadas e independentes umas das outras; no entanto, somos convidados a prestar atenção à natureza paralela e simultânea dessas actividades. O efeito é semelhante ao do quadro de Pieter de Hooch, pintado um pouco antes de 1658, intitulado «Pátio de Uma Casa de Delft» (presentemente em Londres, na National Gallery). É provável que Vermeer estivesse familiarizado com esse quadro. À esquerda, a senhora da casa pode ser vista na entrada de um pátio que dá para a rua; à direita, completamente à parte, a sua jovem filha sai de um telheiro com a criada.

Norbert Schneider

 

pieter de hooch

 Pieter de Hooch, Pátio de Uma Casa de Delft (1658)

 

02 de Setembro de 2015

 

SS.jpg

 

O aviso sobre o perigo da insustentabilidade da Segurança Social a curto prazo devia ser levado mais a sério, pois não vem de pessoas conotadas, por exemplo, com o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista ou o Livre, isto é, alguém da oposição cuja crítica ao partido do governo se considerasse um feito natural. Não, o aviso vem de alguém de dentro, mais precisamente do Prof. Mira Amaral, que, no domínio dos princípios, até concorda com a proposta da coligação CDS/PSD. Na crónica que assinou na edição do semanário Expresso de 22 de Agosto, Mira Amaral deixa o recado à coligação, aproveitando a sua experiência como gestor financeiro da Segurança Social entre 1983 e 1985 e como responsável governativo no biénio seguinte. Ficam aqui gravados os pontos mais relevantes da repreensão séria e honesta: «Como gestor financeira da Segurança Social (…) percebi as vulnerabilidades do sistema distributivo em que os trabalhadores activos que estão a descontar para a TSU estão a financiar a reforma dos actuais pensionistas na esperança que a geração vindoura lhe financie a sua (…) Encomendei então um estudo sobre a sustentabilidade do sistema e comecei a falar em (1) novas formas de financiamento (…) (2) implementação de um sistema de três pilares (…) no primeiro se continuava a descontar na base de um salário mínimo (…) recebendo-se então uma pensão mínima; no segundo, constituía-se obrigatoriamente uma conta poupança-reforma individual em regime de capitalização (…) no terceiro, voluntário e equivalente aos esquemas dos PPR, em que quem quer mais segurança obviamente vai pagá-la (…) O problema desta mudança é que faz um plafonamento das contribuições para o regime distributivo, diminuindo as receitas deste e colocando, por isso, em causa o pagamento dos actuais pensionistas. (…) Por isso é que a proposta da coligação CDS/PSD sobre o plafonamento dos descontos para a TSU é neste momento financeiramente inexequível! No domínio dos princípios concordo (…) com el, mas com o (…) nível de dívida pública, ela só pode constituir uma manobra de diversão (…) E curiosamente tal é proposto por um governo que destruiu aquilo que já era no fundo um segundo pilar colectivo, os fundos de pensões (…) que foram expropriados pelo Estado para tapar o buraco público, ficando os (…) trabalhadores à mercê de um regime (…) com problemas de sustentabilidade!» Sucede que, para agravar o actual estado de coisas, as propostas excessivamente optimistas do PS relativamente ao regime contributivo da segurança social também parecem apontar para uma quebra repentina das receitas, colocando em causa o pagamento imediato das pensões. Estarão a desenvolver as condições para arruinar a segurança social, apresentado então o caso como um facto consumado? Na verdade, começa a não sobrar tempo nem espaço para que os políticos, dirigentes e técnicos responsáveis e conhecedores do problema se sentem à mesa para discutir serenamente a melhor solução para ultrapassar as dificuldades, para que uma fatia considerável dos portugueses não se sinta brevemente vergada ao destino que lhes está a ser imposto…

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:09 link do post
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