a dignidade da diferença
30 de Novembro de 2014

onde pára o estado1.png

 

 «Onde Pára o Estado? Políticas Públicas em Tempo de Crise», organizado e coordenado por Renato Miguel do Carmo e João Rodrigues, já foi publicado em 2009. Desde então, as principais questões que sobressaem no livro mantêm a sua pertinência e actualidade. Como garantir a sustentabilidade e a estabilidade financeira do Estado, defender a justiça social e promover o crescimento económico? Sucede que a maioria das respostas dos políticos e dos agentes económicos descai frequentemente para a demagogia ou para as conclusões apressadas. Não obstante, não se deixem enganar: independentemente do modelo político-económico idealizado, evitar o desperdício dos recursos disponíveis e alcançar o ponto de equilíbrio entre investimento privado e intervenção pública, incentivando o crescimento económico sem impedir a justiça e equidade social, continua a ser uma das tarefas mais difíceis de fazer e concretizar. Ora vejamos: «Se há algo que a actual geração aprendeu, foi que crescimento económico não significa necessariamente maior justiça social. A própria criação de empregos, embora vital, por si só não garante a diminuição do fosso socioeconómico. O que separa um Estado neoliberal de um Estado neo-social é que para este último, mesmo em períodos de crescimento económico nulo, ou até especialmente nestes, é prioritário atender ao problema da desigualdade através de políticas reformistas, tendentes à maior eficiência e maior equidade nas áreas do sistema de impostos, da segurança social, da saúde e da educação. (...) No fundo, o que está aqui em jogo é que resposta dará a nossa geração à questão de se a prioridade da acção do Estado deve ser concedida ao imperativo da estabilidade macroeconómica se ao imperativo político da cidadania social. Tal questão não admite meias respostas. A escassez de recursos impede que se possa ter o melhor dos dois mundos. Ou se opta por um modelo de organização da vida colectiva inspirado no mercado e, por conseguinte, se aceitam as desigualdades como uma consequência «natural» e inevitável de um bem maior (crescimento da economia), ou, pelo contrário, se escolhe um modelo orientado pelo ideal político de justiça e equidade social, mesmo que o crescimento agregado da economia seja imperceptível nos próximos anos. (...) Penso que a escolha da nossa geração recairá sobre esta segunda opção, a opção por um Estado neo-social.»

23 de Novembro de 2014

 

carpenter.png

 

«A América não tem assim tantos realizadores que lhe permitam dar-se ao luxo de pôr John Carpenter de lado. Viesse tal a acontecer, e quase aconteceu, e seria ele o último a rir: a obra fala por si. Mas por que razão foi tão marginalizado? O senso comum diz que Carpenter entrou num declínio abrupto depois dos dias de glória de “Assault on Precint 13” e “Halloween”, mas será que alguém pode sustentar semelhante julgamento? Existirá outro tipo de julgamento na actual cultura do cinema? Examinando a sua obra com atenção, percebe-se que tem uma das mais consistentes e coerentes obras do cinema moderno, no qual os triunfos – os dois sucessos dos primórdios, “The Fog”, “Escape From New York”, “Prince of Darkness”, “They Live” e “In The Mouth of Madness” – superam de longe os filmes menores ou problemáticos.

 

carpenter 2.png

 

Nunca fez nada que envergonhasse. Nunca fez um filme desonesto ou preguiçoso. Mesmo e seu “remake” universalmente ignorado de “Village of the Damned” está feito lindamente, ainda para mais com uns 20 minutos brilhantes. Diria que a marginalização de Carpenter se deve a algo mais triste e menos difícil de identificar, sobre o qual não tem controlo. Quer gostemos, quer não, regemo-nos por normas e paradigmas de realização, enquanto as mesmas mudam como placas tectónicas provocando-nos mudanças inconscientes em relação à forma de ver filmes, e à forma como vemos uns em relação a outros. E sem sabermos, muitos de nós fazemos algo que frequentemente censuramos noutras pessoas: cedências às modas. Não há dúvida de que as modas no cinema Americano mudaram a milhares de quilómetros de distância de John Carpenter. Ele é um homem do analógico num mundo digital, que rege o próprio trabalho de acordo com critérios de valor a que já ninguém presta atenção. Carpenter mantém-se totalmente sozinho enquanto último realizador de género na América.»

Kent Jones

16 de Novembro de 2014

 

maus.png

 

Da autoria de Art Spiegelman (nascido em 1948), Maus é muito provavelmente uma das mais extraordinárias e comoventes obras de banda desenhada criadas até hoje. Spiegelman conta-nos a história de Vladek Spiegelman, um judeu que sobreviveu ao Holocausto, bem como a do seu filho (trata-se do próprio autor do livro, Art), do qual nos vamos apercebendo que sente uma grande dificuldade em compreender o heroísmo do pai, para quem não passa de uma pessoa banal. Alternando a acção entre o que se passou na Polónia - as memórias do pai durante o período da Europa de Hitler - e a actualidade vivida em Nova Iorque, o livro cruza entre si duas histórias intensas e comoventes. A primeira assenta no testemunho do pai de Art e da mulher sobre a sua luta diária pela sobrevivência num ambiente de permanente terror e desafio perante a visão próxima da morte. Está recheada de paixões, traições e tentativas de fuga desesperada. A segunda revela-nos o difícil relacionamento de Art com o seu pai, os quais, tal como o mais comum dos mortais, procuram seguir uma vida normal, atravessada contudo, pelas angústias do narrador e pelos dramas do passado de Vladek. Trabalhando uma história aparentemente simples elaborada com previsíveis factos do quotidiano, o autor confere, no entanto, uma profunda e complexa densidade psicológica às personagens, enriquecendo a narrativa com múltiplas situações de conflito, tensão e apelo à memória de acontecimentos tão distantes que já pareciam esquecidos, abrindo feridas que já estavam cicatrizadas. Maus caracteriza-se ainda pela forma minimalista como Spiegelman compõe o desenho, num contido e mui expressivo preto e branco, configurando os nazis como gatos e os judeus como ratos. A elaboração desse grafismo rigoroso e elementar amplia o texto, já de si magnífico, conferindo-lhe o máximo de expressividade. Maus cativa porque funciona como uma poderosíssima metáfora figurativa: o contraste no rosto dos animais, a opção feliz pelos tons negros, densos e sombrios que talvez espelhem melhor os acontecimentos dilacerantes que o autor lentamente dá a conhecer, de forma rigorosa e magistral, aos seus leitores. O livro, testemunho documental único sobre uma época que não devemos esquecer, sobrevivia no mercado nacional numa edição paupérrima da Difel em dois volumes (com erros ortográficos e assim); felizmente, numa edição recente, cuidada e num único volume, com tradução a cargo de Joana Neves, a Bertrand emoldurou a obra com a dignidade que um vencedor do Prémio Pulitzer merecia.

publicado por adignidadedadiferenca às 20:50 link do post
09 de Novembro de 2014

cale.png

 

Paris 1919, publicado em 1973, consistia num delicado rendilhado de música sedutora, elegante e, no limite, «invisível». Editado um ano depois, Fear, por sua vez, já trazia consigo a atmosfera de medo, tensão, excesso e claustrofobia que irá perseguir, amiúde, a notável carreira do seu autor. Com Honi Soit, John Cale prosseguia e desenvolvia, em 1981, esse universo de claustrofobia sonora com um conjunto imaculado de canções elaboradas em cenários de fogo e gelo. Ainda assim, apesar desses avisos, poucos seriam os que se prepararam para escutar e digerir, no ano seguinte, o assombroso universo de escuridão, desespero, desorientação, perda e horror, que habitava as canções sedutoramente caóticas do genial Music For a New Society. Contextualizado no seu tempo, pode ser encarado como uma reacção meticulosa e crua aos anos amargos da administração Reagan/Tatcher, funcionando ainda como denúncia ácida e feroz desse período de desencanto, do qual sobressai um mal-estar individual ou até colectivo. John Cale extrai das suas canções - se nos for permitido designá-las ainda desta forma… - o derradeiro sopro de vida, sustentando-as com frágeis fragmentos de melodias à deriva, com acordes lentos e solitários de piano e guitarra, com esboços de viola de arco sussurrados ao ouvido ou lamentos e pontuações emotivas de bateria. Assim configuradas, as peças de Cale, amplamente desfiguradas, sobrevivem inesperadamente num ambiente tortuoso, ambíguo e obsessivo, apelando à absoluta necessidade de mudança. Rigorosamente construído e magnificamente executado, Music For a New Society, não ganhou uma única ruga e perdura ainda hoje como um portentoso exercício sobre a perda, o cansaço, a desorientação e a ansiedade. Exemplo superlativo da arte excessiva do seu autor será a desintegração literal da Ode à Alegria de Beethoven, convertida em Damn Life num assustador pesadelo de dor, solidão e desencanto. Essencial, perturbante, complexo e intenso, Music For a New Society, apesar da sua escuridão, colhe o género de música capaz de destruir vidas e de simultaneamente, ao cantar esses pesadelos, as salvar*.

 

  * Inspirado no comentário dos National ao seu magnífico Boxer, retirado daqui.

02 de Novembro de 2014

piketty.png

 

«A distribuição da riqueza é uma das questões mais vivas e mais debatidas hoje em dia. Mas que sabemos verdadeiramente sobre a sua evolução a longo prazo? A dinâmica da acumulação do capital privado conduzirá inevitavelmente a uma concentração cada vez mais acentuada da riqueza e do poder em poucas mãos, tal como Marx pensou no século XIX? Ou será que, à imagem do que pensou Kuznets no século XX, as forças de equilíbrio do crescimento, da concorrência e do progresso técnico levam espontaneamente a uma redução das desigualdades e a uma estabilização harmoniosa nos estádios avançados de desenvolvimento? Que sabemos realmente sobre a evolução da distribuição do rendimento e do património desde o século XVIII, e que ensinamentos podemos daí retirar para o século XXI? São justamente estas as questões às quais tentarei responder neste livro. Digamo-lo desde já: as respostas que encontrei são imperfeitas e incompletas. Mas fundam-se em dados históricos bastante mais amplos que os usados em trabalhos anteriores., abrangendo três séculos e mais de vinte países, e apoiando-se num contexto teórico repensado que permite uma melhor compreensão das tendências e dos mecanismos em presença. O crescimento moderno e a difusão do conhecimento permitiram evitar o apocalipse marxista, embora não modificassem as estruturas profundas do capital e das desigualdades – ou, pelo menos, não tanto quanto pudemos imaginar nas décadas optimistas do pós-Segunda Guerra Mundial. Desde o momento em que as taxas de rendibilidade do capital ultrapassam de forma duradoura as taxas de crescimento da produção e do rendimento – o que foi o caso até ao século XIX e indiscutivelmente parece poder voltar a ser a norma no século XXI -, o capitalismo produz de forma mecânica desigualdades insustentáveis, arbitrárias, voltando a pôr radicalmente em causa os valores meritocráticos nos quais se fundam as nossas sociedades democráticas.»

Thomas Piketty, introdução a «Le Capital au XXIe Siècle».

Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
É falso que o fenómeno tenha ocorrido no preciso m...
Acho que você é quem deveria pensar pela sua cabeç...
Experimente ler "Fátima, Milagre ou Construção?, u...
Não consigo vislumbrar uma ligação directa entre a...
Parece-me que existe uma grande crise de valores e...
Não me parece que a crise de valores ou os valores...
Muito bem! Embora nos dias de hoje e na sociedade ...
Certo; tudo bem que existissem questões políticas ...
Já tive o livro, de facto. Contudo, foi mais ou me...
CaroEstou a procura do livro fatima nunca mais mas...
Não deixa de ser um belo aforismo...
O que é a vida, senão um turbilhão de pensamentos ...
blogs SAPO