a dignidade da diferença
29 de Setembro de 2014

 

 

«Tim Buckley possessed a golden voice that spanned the range from baritone to tenor. More importantly, he knew what to do with it. Sometimes he used it simply as a vehicle to carry the lyrics. Other times he used it as an extraordinary musical instrument in its own right. Standing on stage beside him, playing guitar, listening to the compassion, hope, tenderness, anguish, wistfulness, love and power surging through his voice, I often felt my spine shiver with goosebumps. Between 1966 and 1975, Buckley released nine albums. Throughout that time, he sang like nobody else I’ve ever heard.»

Lee Underwood

 

 

22 de Setembro de 2014

 

 

O programa «Prós e Contras» desta noite, sobre a reforma do mapa judiciário, veio confirmar, uma vez mais, aquilo que há muito tempo se passa nos debates públicos a partir de determinado momento da discussão. Começando num tom pausado e em ritmo de cruzeiro, a discussão torna-se, com a evolução do debate, quase ensurdecedora. Se, no início, é possível escutar os convidados, um pouco mais adiante já não conseguimos ouvir ninguém. Claro que a mediação da apresentadora Fátima Campos Ferreira não ajudou a elevar o nível da contenda: as suas desnecessárias e incontinentes intervenções, interrompendo constantemente o raciocínio dos intervenientes – governantes, advogados, funcionários judiciais, sindicalistas, procuradores e simples cidadãos -, conduziram o programa a um lamentável estado de decomposição. Cada pessoa começou a falar isoladamente ao mesmo tempo que as outras; amiúde, alguns esganiçam-se diante dos outros. Já não importa ser escutado e compreendido. A assistência cede perante os argumentos de quem eleva o tom de voz, fala em último lugar e não se preocupa sequer com a opinião dos restantes interlocutores. Com raras e meritórias excepções, o que sobressai nos sucessivos «Prós e Contras» é a incapacidade de falarmos com o outro, de o escutar, e isso, como avisou acertadamente José Gil, tem consequências no pensamento e conduz à falta de atenção e de concentração. A dispersão das palavras, por sua vez, impede a análise. Por isso, citando novamente José Gil: «pensamos tão pouco, e de forma rotineira, geral e superficial.»

16 de Setembro de 2014

 

Baco, de Velázquez, 1628/29

 

«Velázquez apanha nos seus modelos o que lhe parece importante ou digno de ser estudado. […] No entanto, com uma espantosa segurança, Velázquez transforma sempre essas influências num incomparável estilo pessoal. A delicadeza pictórica crescente exibida pelo artista, a mestria com que sonda as profundezas do conteúdo, a sua superioridade na arte da composição permitem reconhecer o génio sob a superfície do que ainda está a aprender. […] O “Baco”, pintado em 1928/29 por ordem do rei, ilustra um pouco melhor as razões artísticas de uma carreira exemplar. Sobre um fundo campestre, Baco, deus do vinho e das orgias, seminu e com o dorso roliço brilhante e de uma brancura quase doentia, coloca uma coroa de hera sobre a cabeça de um camponês ajoelhado diante de si. Homens de rostos bronzeados seguem a paródia de coroação com expressões aparentemente divertidas ou receosas, rodeando o deus como se ele fosse um dos seus companheiros.

 

Baco, de Caravaggio, c. 1598

 

Neste quadro, os camponeses não são os labregos que servem para fazer sobressair um nobre universo ideal, como acontecia tantas vezes na literatura e na pintura da época. Pelo contrário, são precisamente eles que criam pelo seu duro trabalho a base da prosperidade social; como agradecimento, o deus concede-lhes as alegrias do vinho e a liberdade de um dia de repouso. Certos pormenores deste quadro mantêm-se fiéis à tradição do “bodegón” e a influência de Caravaggio é ainda claramente sentida – tanto na utilização directa dos motivos como pela obliquidade dos modelos de tipos do caravagista espanhol Josep de Ribera (1591-1952). Mas o próprio Ribera, que criou as suas principais obras para o vice-rei de Nápoles, é a prova de que o caravagismo, considerado demasiado plebeu, não podia durar muito nas cortes reais. E Velázquez teria ele também de mudar de estilo e de se dirigir para outros modelos.»

Wolf, Norbert. Velázquez. Tradução de Maria Eugénia Ribeiro da Fonseca, Taschen, 2004.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:29 link do post
09 de Setembro de 2014

 

Portugal, Hoje O Medo de Existir, de José Gil, é uma radiografia impressiva da nossa mentalidade e dos nossos comportamentos enquanto indivíduos e comunidade. Nas palavras do autor: «nada acontece, nada se inscreve na história ou na existência individual, na vida social ou no plano artístico.» José Gil aponta o dedo a uma sociedade fechada interiormente, a um país praticamente resignado e impotente em que o espaço público é fechado e sem debate político, a crítica: «descamba maioritariamente no insulto pessoal ou no elogio sobrevalorizante», e o mundo artístico se alimenta do queixume e do ressentimento. Os males detectados são públicos: Desconhecimento das regras básicas de funcionamento da democracia, resignação perante os dissabores, medo de agir e conformismo geral. O seu conjunto terá necessariamente que conduzir um país à passividade, à inércia e ao imobilismo, ou, no limite, ao seu possível desaparecimento. Não se debruçando voluntariamente sobre o que Portugal terá de bom, escrevendo apenas a respeito das causas que durante a sua evolução impedem «a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade», José Gil elaborou um livro fundamental para compreendermos determinados sinais que obstam ao nosso desenvolvimento colectivo, não obstante nos deixar excessivamente deprimidos e preocupados.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:47 link do post
05 de Setembro de 2014

 

 

«Maurizio Pollini plays all 18 of these nocturnes (as well as the posthumously published Nocturne op. post. 72 no. 1) in the present record, a decision inspired not only by his wish to offer as complete as possible an account of one particular type of work from the Polish composer’s pen but also, and above all, to demonstrate Chopin’s development within these character pieces and to draw attention to the differences that exist between them: “All of them are of course lyrical in tone, but there are also vast differences between them. This is itself makes a cyclical recording sufficiently interesting – simply because enough contrasts can be heard in them.” Pollini has, of course, been drawn to Chopin’s music ever since winning the prestigious Chopin Piano Competition in Warsaw in 1960: “Once I’d won the Warsaw Chopin Competition, Chopin’s music became a part of my life.” It goes without saying that Pollini is interested not only in bringing out the sense of dramatic development within these pieces but also in the element of bel canto, which in his eyes plays a major role here. But in stressing the importance of this element, he also views it in a broader context.»

Carsten Dürer

 

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