a dignidade da diferença
30 de Junho de 2014

 

 

Num mundo dependente do vil dinheiro onde, como diria Anselm Jappe: «estamos dispostos a tudo sacrificar para apaziguar as suas cóleras», três vigaristas compulsivos - que fascinam tanto pela sua inteligência como pelo seu glamour - não olham a meios nem os laços familiares limitam o seu comportamento agressivo, criando um jogo viciado e demasiado perigoso. Uma realização empenhada de Stephen Frears, apoiada num óptimo argumento e nos assinaláveis desempenhos de um notável trio de ases - formado por John Cusack, Annette Bening e Anjelica Huston (perturbante no papel de ave predadora) -, constrói, sob o olhar penetrante e obsessivo da câmara de filmar, uma adequada atmosfera de film noir na qual, na ausência de códigos morais, sobressai um progressivo clima de cinismo, confronto e tensão, cujo realismo brutal destrói qualquer possibilidade de sobrevivência. Vinte e quatro anos após a sua estreia, The Grifters continua a ser um filme sedutor, terrível e magnífico.

 

 

23 de Junho de 2014

 

 

«The late 60’s in Brazil produced an explosion of creativity that is still reverberating throughout the world… and Os Mutantes (The Mutants) were the most outrageous band of that period. Their creative cannibalism produced psychedelic gems unlike anything else, and they sound as relevant today as anything happening anywhere. They were exactly what their name implies – a mutant genetic recombination of elements of John Cage, The Beatles, and bossa nova. A creature that was too strange and beautiful to live for very long, but too strong to ever fade away. It lives again. Be prepared.»

David Byrne

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:24 link do post
19 de Junho de 2014

 

 

Em 1967, quando a Bossa Nova já dava alguns sinais de desgaste e cristalização, a música brasileira voltou a sintonizar-se com a modernidade e a ocupar o centro das atenções, ganhando nova importância à escala mundial. Com o Tropicalismo, um dos mais míticos movimentos culturais no campo das artes - sobretudo na música e no cinema -, aconteceu uma nova e vibrante revolução estética cujo plano de actividades girava em torno da ideia «act local, think global». Tropicália, o mais recente documentário de Marcelo Machado, aborda os acontecimentos mais marcantes daquele movimento, conduzindo-nos aos sons e às imagens da época, numa montagem feliz de depoimentos dos seus protagonistas intercalados com imagens de arquivo praticamente inéditas. O autor apresenta-nos o interior de uma imparável encenação artística, na qual evolui toda a dinâmica do movimento e, sem esquecer o talento e o papel fundamental de Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão ou Tom Zé, sobressai o génio criativo de Caetano Veloso, dos Mutantes e de Rogério Duprat, criadores e encenadores de um glorioso canibalismo musical, onde, vítimas do seu apetite devorador, cabiam todas as músicas do mundo, magnificamente equilibradas num trapézio de sons subversivos, guitarras eléctricas, acordes dissonantes e orquestrações vanguardistas.

 

11 de Junho de 2014

 

 

No plano das relações dos poderes públicos entre si, princípio fundamental da Democracia e do Estado de Direito é o da divisão de poderes. Como defendia Montesquieu, nos primórdios da teorização da separação de poderes, para se defender a liberdade contra o abuso do poder era necessário encontrar um travão que tornasse este abuso impossível. Concluiu o autor de L’Esprit de Lois que a única forma de limitar o poder é pelo poder. Para que tal acontecesse, era preciso partilhar e atribuir diversas funções a diferentes titulares que as exercessem equilibrada e simultaneamente. A ideia base consistia em organizar o Estado em três vectores, nos quais se distinguiam três poderes: o legislativo, o executivo e o judicial. Ao Poder Judicial competia exercer um certo controlo sobre os Poderes Legislativo e Executivo, impossibilitando-os, tanto quanto possível, de lesar os direitos fundamentais dos cidadãos. Esta ideia evoluiu com a transição do Estado Liberal para o Estado Social de Direito, não se caracterizando actualmente aquele princípio por uma separação (rígida) de poderes, pois foi-se verificando progressivamente uma divisão de poderes. Ou seja, cada função pode ser distribuída por vários órgãos do poder político, não competindo a nenhum deles em exclusivo uma determinada função. Quanto ao seu núcleo essencial, seguindo a doutrina da Comissão Constitucional, este princípio assenta em duas linhas gerais: «por um lado, a função legislativa é atribuída, em princípio, ao Parlamento, a função executiva ao Governo, a função judicial aos Tribunais; por outro lado, os órgãos do Legislativo, do Executivo e do Judiciário controlam-se e limitam-se mutuamente de modo a atenuar o poder do Estado e proteger a liberdade dos cidadãos. A Constituição da República Portuguesa estabelece o princípio da separação e da interdependência dos órgãos de soberania e o da divisão das suas competências». Fazer o que o nosso primeiro-ministro fez, depois do Tribunal Constitucional ter chumbado várias das medidas orçamentais, confundindo claramente os poderes que lhe foram atribuídos, para além de descabido, traduz-se num comportamento que viola claramente este princípio estrutural e constitutivo do Estado Constitucional, fundamental ainda hoje para sustentar o Estado de Direito e a Democracia. E sobre esta conduta polémica, infelizmente, o nosso Presidente disse nada…

04 de Junho de 2014

 

 

«Já sabemos que não vivemos num mundo sem sentido. As leis da física fazem sentido: o mundo é explicável. Existem níveis de emergência mais elevados e níveis mais elevados de explicação. Temos acesso a profundas abstracções na matemática, na moral e na estética. São possíveis ideias de um alcance tremendo. Mas há ainda muito no mundo que não faz sentido e não fará até sermos nós a fazê-lo. A morte não faz sentido. A estagnação não faz sentido. Uma bolha de sentido no seio de uma insensatez infindável não faz sentido. Se o mundo faz efectivamente sentido, em última análise, dependerá do modo como as pessoas – os nossos semelhantes – escolherem pensar e agir. Muitas pessoas têm aversão ao infinito sob várias formas. Mas há coisas que não podemos escolher. Há só uma maneira de pensar que é capaz de propiciar o progresso, ou a sobrevivência, a longo prazo, e esse caminho é a busca de boas explicações através da criatividade e da crítica. Não há, portanto, uma terceira via entre finito e infinito. O que nos separa no horizonte é sempre o infinito. Tudo o que podemos escolher é se é um infinito de ignorância ou de conhecimento, de certo ou errado, de morte e de vida.»

David Deutsch, The Beginning of Infinity – Explanations that Transform the World

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