a dignidade da diferença
30 de Março de 2014

 

 

O regresso da singer-songwriter Annie Clark (St. Vincent) – após a feliz colaboração com David Byrne – confirma aquilo que já suspeitávamos há bastante tempo: actualmente, ninguém melhor do que ela consegue, sem perder a unidade no espaço próprio de uma canção, conjugar superiormente a acessibilidade do imediatismo pop com arrojados devaneios experimentalistas, aptos a empurrar um pouco mais para lá as previamente definidas fronteiras tradicionais da música popular contemporânea. Simultaneamente luminoso, romântico e suavemente esquizofrénico, a excelência de St. Vincent resulta do amadurecimento natural de uma artista de excepção, cuja personalidade e domínio autoral lhe permite devorar as suas múltiplas e, por vezes, inesperadas influências – do metal à erudição clássica, pisando o funk, o glam ou a world music -, organizando, dispondo e construindo a matéria musical sob uma elástica e vibrante arquitectura sonora, filtrada por uma cultura digital, capaz de, nos momentos de maior inspiração, decifrar e resolver enigmas ou vencer labirintos formais aparentemente sem solução à vista, enriquecendo e ampliando um universo narrativo convencional, preenchido com memórias, conversas e histórias comuns. Directamente para a lista dos melhores do ano.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:49 link do post
29 de Março de 2014

robsonceron.blogspot.com 

A propósito das reformas estruturais implementadas pelos nossos governantes: Segundo José Félix Ribeiro, economista e ex-subdirector do Departamento de Prospectiva e Planeamento, numa entrevista dada ao semanário Expresso de 22 de Março, «estão a ser utilizadas por marxista de direita, que acreditam que a luta de classes é o motor da história só que desta vez o proletariado é que é o péssimo».

publicado por adignidadedadiferenca às 20:14 link do post
24 de Março de 2014

 

 

Já assistimos, no lado do PSD, à mudança de opinião do Secretário de Estado Carlos Moedas sobre a reestruturação da dívida pública – convictamente a favor quando não fazia parte deste Governo, actualmente contra. Inverteram-se agora os papéis, com o declarado apoio de José Sócrates ao manifesto do Grupo dos 70. É que em 2011, como já todos sabem, num debate com Francisco Louçã, Sócrates respondeu-lhe afirmando que a mensagem enviada aos credores (reestruturação da dívida pública) «seria a de um calote, que colocaria o país e as suas empresas numa lista negra. Isso seria pagar com miséria, desemprego e falências». Percebemos, a cada dia que passa, que se diz uma coisa na oposição e o seu contrário no governo, sem qualquer ponta de vergonha. É verdade que já Fernando Pessoa, nas suas Ideias Políticas, dizia que «Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural. A coerência, a convicção, a certeza são demonstrações evidentes de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade». Mas, caramba! Mudar tanto e assim tão de repente? Eis José Sócrates, um troca-tintas (no meio de tantos), exemplo notável da actual política à portuguesa.

 

23 de Março de 2014

 

 

No seguimento do texto anterior, relendo o catálogo de Jean Renoir, editado pela Cinemateca Portuguesa, a propósito do centenário do seu nascimento – 1994, ano de Lisboa Capital Europeia da Cultura -, recordo a pouca importância que o cineasta dedicava ao argumento do filme. Segundo ele, numa entrevista a Jacques Rivette, a genialidade de filmes como La Nuit du Carrefour, Tire-Au-Flanc, Le Déjeuner Sur L’Herbe ou Le Testament du Docteur Cordelier provinha da convicção «qu’il nous faut débarrasser du souci de racconter l’histoire. Ou seja, «porque há uma coisa, que não tem nenhuma importância em arte e que é ter uma história. A história não tem importância nenhuma. O que é importante é a maneira como se conta». Mais adiante, Renoir explica melhor: «O que era importante, para mim, era o grande plano. Acontecia que, para engolir um grande plano, o público precisava de uma história. Submeti-me a essa necessidade, mas submeti-me de muito má vontade». Em suma, como exemplo da necessidade de usar uma história com a finalidade de não espantar a caça, não conheço melhor.

16 de Março de 2014

Embora lhe reconheça alguns excessos e não menospreze pequenas mas significativas omissões – Anthony Mann e Rouben Mamoulian serão os exemplos mais flagrantes –, concordo, na generalidade, com a tese que advoga a política de autores, entusiasticamente defendida pelos Cahiers du Cinema nos seus anos de mais intensa e gloriosa actividade cinéfila. Não compreendo, de resto, alguma insistência entre a maioria das pessoas com quem convivo em sustentar que a razão por que vai ao cinema ou procura um livro é apenas a história que estes têm para contar. Nada mais errado, suponho. A história é um elemento comum às mais diversas formas de expressão artística; nessas artes, o que distingue os seus autores será o modo como pegam naquilo que têm para dizer esculpindo-o segundo o seu ponto de vista. Conhecendo o conjunto da sua obra, descobrimos as características e os elementos que lhe são comuns; a sua identidade, as suas preocupações estéticas e a sua personalidade. Podemos, em última análise, afirmar que mais importante do que a história é a forma como ela é contada. Por vezes, daí resulta um confronto inexistente entre forma e conteúdo, quando, na realidade, nos melhores exemplos a substância reside na própria forma. Polémica (ou não) à parte, Gerald Mast explica, num notável ensaio sobre Howard Hawks, intitulado Auteur ou Story Teller e traduzido por Maria José Paletti, a importância relativa da história (segundo ele, apenas a premissa), caracterizando a substância por tudo aquilo que se lhe acrescenta, designadamente a matéria fílmica. Mesmo num cineasta como Hawks, que afirma preocupar-se exclusivamente com a história, se percebe a importância que dedica à sua composição, aparentemente de forma instintiva e quase mecânica, através do recurso sistemático aos planos simultaneamente objectivos e subjectivos, à invenção dos diálogos às três tabelas, ou à exploração da metonímia; construindo uma narrativa em torno de um sistema moral específico onde os personagens se descobrem, paralela à criação de um espaço psicológico recheado de sentimentos, valores e atitudes. É essa perspectiva de autor que torna, por exemplo, em Red River, a história de Howard Hawks muito superior à história (original) de Borden Chase: graças à sua magnífica e obstinada realização ou a actores como Walter Brennan, Montgomery Clift e John Wayne. Ora vejamos:

 

 Red River (1948)

«O que é que Howard Hawks achava que tornava melhores os seus melhores filmes? Se lermos as entrevistas que concedeu nos últimos quinze anos de vida, encontramos repetidamente a palavra “história” – “Estou apenas a tentar contar uma história”, “é o estilo de história que me interessa”, “isso dá uma boa história”, “era assim que eu gostava de contar essa história” e por aí fora. Muitos dos admiradores “auteurists” de Hawks fogem a sete pés desta palavra embaraçosa: história significa argumento, história significa personagens, história significa “literatura” e não “cinema”, história significa intriga e não ângulos de câmara, montagem, composição, ilustração e décor. As histórias não são exclusivo do cinema mas comuns aos romances, às peças de teatro, às óperas, aos ballets, aos poemas, até às pinturas. Sob este ponto de vista (subjacente à maioria das teorias mais importantes do filme como meio de comunicação) a história é apenas a premissa, o dado de qualquer obra de cinema, e a verdadeira matéria – o cinema – é aquilo que se lhe acrescenta. Esta perspectiva funciona melhor em relação àqueles realizadores que mais acrescentam – e são mais fáceis de discutir precisamente por causa desse acrescentamento. Mas uma tal perspectiva pura e simplesmente não funciona com Hawks, que não acrescenta cinema às suas histórias, mas converte as suas histórias em cinema. Demonstrar que Hawks tem algum valor é demonstrar que ele contou boas histórias.»

 

Only Angels Have Wings (1939)

09 de Março de 2014

 

Morganrlevy.blogspot.com

 

«She Always sang with her eyes closed, at least in the photos that have come down to us, in direct communion with her inner muse, the better to hear herself think, to channel the next note as it revealed itself, the outsider world held at bay by her shuttered lids. Her voice was as much horn as vocal chord, a muted trumpet or alto saxophone that slid downward toward the bluish. In the pair of records she left as mementoes, one caught on the sly, the other this more formal occasioning of “In My Own Time”, she eludes arrangement, turning over phrases and lyrical scannings until she winds up on the other side of the beat, more akin to jazz than the folk music world with which she was associated, and that gave her honor, and tried to pave her way to stardom.»

Lenny Kaye, In Her Own Time

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 14:35 link do post
02 de Março de 2014

 

 

«Se há tema comum no extenso conjunto de crises que estudamos neste livro, é o de que a excessiva acumulação de dívida, de dívida pública, dos bancos, das empresas ou dos consumidores, traz frequentemente consigo um risco sistémico maior do que parece durante o boom. É com demasiada frequência que os booms induzidos por dívida fornecem uma falsa abonação das políticas públicas, da capacidade de uma instituição financeira de gerar enormes lucros, ou do nível de vida de um país. A maior parte deles acaba mal.» Com o contributo decisivo do trabalho de investigação dos seus autores, os académicos Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, Desta Vez é Diferente oferece-nos uma panorâmica significativa de oito séculos de história financeira, focada essencialmente nos momentos de crise, centrando-se nos efeitos do endividamento excessivo – que os autores consideram atingido quando o rácio da dívida pública excede 90% do PIB, durante um período superior a cinco anos. Auxiliada por uma base de dados compacta, uma vasta documentação e factos precisos, e recorrendo ainda a uma datação sistemática das crises, a investigação de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff abre o caminho para uma reflexão assinalável sobre as crises nas suas múltiplas vertentes – crises de dívida soberana, crises bancárias, cambiais e de aumento da inflação -, e sobre as consequências do aumento do crédito concedido pelo sector bancário às famílias, empresas e Administração Pública. Uma lição bem estudada que denuncia a quase universalidade do incumprimento das dívidas soberanas (sejam ricos ou pobres os países) e procura semelhanças com experiências anteriores para concluir que: «a acumulação excessiva de dívida pelo sector público, pelos bancos, pelas empresas não financeiras e pelas famílias está na raiz da grande maioria das crises.»

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