a dignidade da diferença
23 de Fevereiro de 2014

 

 

«Esta transformação na tecnologia da nossa vida de todos os dias foi acompanhada por uma transformação similar na tecnologia da guerra. Graças à industrialização, também a guerra se tornou mais desigual. Os países ricos têm actualmente armas de tal sofisticação e poder que podem semear a morte e a destruição nos países pobres em escala industrial, sofrendo eles próprios baixas e estragos negligenciáveis. (…) De momento, esses países estão livres da ameaça de guerras nas quais eles próprios possam ser sujeitos a grandes sofrimentos. No que lhes diz respeito, a guerra é apenas para exportação. E, apesar dos enormes arsenais de armas de destruição em massa que esses países mantêm prontas a atacar, os seus cidadãos dormem calmamente, sabendo que, por agora, a incineração e o desmembramento são destinos reservados aos habitantes de países que cometeram o pecado de ser pobres e fracos. É melhor convencermo-nos de que esta situação pode ser temporária. A presunção dos políticos de mentalidade imperial dos Estados Unidos faz lembrar os seus equivalentes britânicos de há 150 anos, antes de as realidades de um equilíbrio de poderes em transformação terem quebrado as ilusões que alimentavam sobre si próprios. Para os que estudaram a história do século XIX, não seria uma surpresa que a força e a autoconfiança crescentes da China, da Índia e da Rússia pusessem fim ao “novo século americano” em menos de cem anos. Se isso acontecer, o mundo regressará aos blocos rivais do final do século XIX. (…) As rivalidades de poder futuras não terão a ver com princípios políticos. Serão movidas pelas forças que sempre governaram esse tipo de rivalidades: competição por recursos naturais e por influência comercial, e, acima de tudo, medo – o mesmo medo primitivo dos “outros” que governou as relações humanas desde que os nossos antepassados se levantaram e olharam para a vasta savana.»

Cyril Aydon, The Story of Man – An Introduction to 150,000 Years of Human History

16 de Fevereiro de 2014

 

 

O momento até era propício. Tal como afirma Nuno Rebelo - um dos fundadores dos Mler Ife Dada -, depois da ditadura, o que era urgente era a música de intervenção política. Quando essa urgência terminou, quem viesse já não sentia necessidade de criar uma música carregada politicamente, mas mais aberta. Foi neste contexto que apareceram os Mler Ife Dada, cuja patente ficou registada sobretudo pela influência de Nuno Rebelo e de Pedro D’Orey (só mais tarde, quando este último foi viver para o Brasil, Anabela Duarte entrou para o grupo). Ainda assim, a música do grupo foi uma autêntica pedrada no charco no panorama musical português. Iniciando o seu percurso criativo com o EP Zimpó, marcado pelo surrealismo e pela improvisação, a música dos Mler Ife Dada cresceu e ampliou a sua paleta sonora com os estupendos Coisas Que Fascinam (de 1987) e Espírito Invisível (de 1989). Exemplares transportadores para o seio da música portuguesa do espírito tropicalista «act local, think global», os Mler Ife Dada ofereceram a quem os soube escutar uma música ecléctica e experimental, colorida, lúdica e contagiante, conceptual e formalmente transgressora, cuja diversidade estética, contudo, nunca a fez perder o rumo nem uma indesmentível unidade artística. Sintonizando no mesmo espaço musical a atmosfera do norte de África, as sirenes de Edgard Varèse, as teias do fado, a impovisão do jazz, o minimalismo electro-acústico, uma canção tradicional da Arménia (numa interpretação notável de Loosin Yelav), ou nacos apetecíveis de funk e de rap, a obra dos Mler Ife Dada desdobra-se e expande-se numa assombrosa colecção de canções que explode num rodopio de formas onde já não se distingue o erudito do popular. Vem tudo isto a propósito do regresso do grupo para uma série de concertos intermitentes, iniciada na passada sexta-feira no CCB. Se, em tese, deve sempre recursar-se qualquer exercício de pura nostalgia, este, embora não dispense um evidente regresso ao passado, não pode ser encarado exactamente como tal pois recupera uma música sem rugas - que contribuiu significativamente para a época de oiro da música moderna portuguesa -, cujo espírito de aventura lhe permite ainda estar um passo à frente de tudo quanto se faz actualmente neste país.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:59 link do post
09 de Fevereiro de 2014

  

Modigliani, Nu Adormecido com os Braços Abertos (Nu Vermelho), 1917

 

«Os nus não-académicos de Modigliani constituem um caso de algum modo distinto. Embora também possamos empregar as palavras luxúria, calma e sensualidade para os descrever, em termos formais, os nus de Modigliani estão muito mais estreitamente associados às tradições da história de arte do que os dos seus contemporâneos franceses e alemães. Quando mais não fosse pela sua técnica, mas também pela composição, os seus nus denunciam uma clara influência dos mestres do Renascimento italiano, de Sandro Botticelli, Ticiano e Giorgione. Modigliani remete, assim, para um capítulo pré-académico da história da arte, para uma época em que uma Vénus nua ou Danae, para nomearmos apenas os modelos mais célebres, não era representada segundo um catálogo de poses impostas. Em vez disso, a sua composição ficava a dever-se essencialmente à iconografia de uma história subjacente e à inventividade do artista que as retratava.»

Doris Krystof, Amedeo Modigliani

 

Giorgione, Vénus Adormecida, c. 1508
Ticiano, Vénus de Urbino, c. 1538
02 de Fevereiro de 2014

Incluído numa recolha de poemas dispersos dos anos 70, do século XX, publicada já num período de completo amadurecimento estilístico do seu autor, Pornocine é aqui recordado como um fiel e conseguido exemplo da poesia feroz, comunicativa, inesperada, solta e obstinada de Alexandre O’Neill; autêntico canto maior da nossa literatura. Em suma, um testemunho feliz de uma escrita rica e complexa, uma linguagem nova, avessa ao conforto e às boas maneiras, plena de contradições, desencantos e portentosas invenções formais (uma coisa em forma de assim…), que merece um lugar único e privilegiado na história da poesia portuguesa e da sua modernidade, e não esse imperdoável e vil esquecimento a que injustificadamente tem sido votada mais recentemente.

 

 

Ah, deixem-se de abraços e de beijos,

de grandes planos de frentes e traseiros!

Não se lambam sob a luz cruenta

dos projectores.

Poupem-nos a essas cópulas

tecnicolores.

Na posição de «o missionário», denegrida,

ainda se move muita gente, muita vida.

                                       

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

A gratificação oral, que põe os olhos

do homem iguais aos do carneiro

mal morto,

é barco balanceiro

que encontra, no cinema, alguns escolhos,

por isso não se pisam os canteiros

ao entrar em tal horto.

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

Das cruas sodomias

pé ante pé a câmara se aproxima.

Por ângulos interessantes,

quase espiritualizam os amantes.

Bertolucci emprega a margarina

no seu escabroso edificante.

Porém, lambe de mais o filme,

lambe de mais a cria,

e é assim – clássico! – que já está na estante…

 

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

Mais corajoso – e feio – o Pasolini serve-se

do amor com truculência, verve

e poucas ilusões.

Nele, a fornicação é quase sempre assalto

a privilégios.

Talvez por isso não mandem os colégios

Ver as suas sessões…

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana!

 

De modo que a câmara aguenta

mais depressa a velatura que a franqueza.

Para que Eros durma em nossa casa

É preciso saber abrir-lhe a cama

E pôr-lhe a mesa…

 

                                        E se a Carole não gosta, gosta a Ana!

                                        E viva o sexual fim-de-semana,

                                        eroturismo à portuguesa!

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