a dignidade da diferença
25 de Janeiro de 2014

 

«As aparências iludem. No entanto, possuímos um amplo conhecimento da vasta e desconhecida realidade que as causa e das elegantes leis universais que regem essa realidade. Esse conhecimento assenta em explicações: afirmações sobre o que existe para além das aparências, e sobre como se comporta. Não fomos muito bem sucedidos na criação deste tipo de conhecimento na maior parte da história da nossa espécie. De onde vem? O empirismo dizia que o extraíamos da experiência sensorial. Isto é falso. A verdadeira fonte das nossas teorias é a especulação, e a verdadeira fonte do nosso conhecimento é a especulação alternada com a crítica. Criamos teorias reorganizando, aliando, alterando e acrescentando ideias às já existentes com a intenção de as melhorar. O papel da experimentação e da observação é escolher entre as teorias existentes, e não originar outras novas. Interpretamos as experiências através de teorias explicativas, mas as verdadeiras explicações não são óbvias. O falibilismo implica não ter em conta a autoridade mas, em vez disso, reconhecer que podemos estar sempre errados, e tentar corrigir os nossos erros. Fazemo-lo quando procuramos boas explicações – explicações de que é difícil criar variantes no sentido em que alterar os pormenores arruinaria a explicação. Este, e não o ensaio experimental, constitui factor decisivo na revolução científica, bem como no progresso sustentado, rápido e único noutras áreas do iluminismo. Foi uma revolta contra a autoridade que, ao contrário de outras semelhantes, não tentou alicerçar-se em justificações para as teorias do poder, mas antes estabelecer uma tradição de crítica. Algumas das ideias daí resultantes têm um enorme alcance: explicam mais que o originalmente proposto. O alcance de uma explicação é um atributo intrínseco dessa explicação, não uma suposição que fazemos sobre ela, como defendiam o empirismo e o indutivismo.»

David Deutsch, The Beginning of Infinity – Explanations that Transform the World

18 de Janeiro de 2014

 

museu.gulbenkian.pt

 

A decorrer no Museu Calouste Gulbenkian (localizado no Edifício Sede da Fundação), a exposição O Brilho das Cidades: A Rota do Azulejo, exclusivamente dedicada ao azulejo, reúne uma original colecção de peças únicas (duzentas, aproximadamente) cuja produção mostra a sua dimensão transtemporal e transterritorial, atravessando séculos de existência e espalhando-se por uma vasta e variada série de culturas e regiões – trata-se de um conjunto de peças proveniente, por exemplo, do Antigo Egipto, Império Otomano, da Flandres, Inglaterra, Índia, Pérsia, entre outros cuja identificação conduziria a uma lista interminável. Dividida em módulos temáticos, os quais, como refere o próprio catálogo da exposição, «abordam questões como o mito da cerâmica dourada, as conquistas da geometria, a importância da heráldica, o valor da mitologia cristã, a estilização da natureza e a representação da utopia e do quotidiano», a exposição espelha de forma assinalável a evolução do azulejo, as possíveis e inesgotáveis combinações entre si, e a sua especial relação com a pintura e a arquitetura, merecendo globalmente o nosso aplauso. Contudo, a colecção, no espaço dedicado ao azulejo português no núcleo Presente e Futuro, esquece injustificadamente Maria Keil, a grande responsável pela sua renovação em Portugal no século XX (mais importante que Cargaleiro e Vieira da Silva, presentes na exposição).

12 de Janeiro de 2014

 

Farmacêuticas da Treta (Bad Pharma, no original), publicado no nosso país pela Editorial Bizâncio e escrito pelo médico e investigador Ben Goldacre, aponta corajosamente o dedo à indústria farmacêutica, focando-se sobretudo no insuficiente registo de dados, na manipulação dos resultados dos ensaios clínicos e nos, por vezes, inadequados períodos de experimentação (demasiados curtos ou excessivamente longos), na deficiente regulação e na pressão exercida sobre os reguladores, destacando ainda outros problemas que merecem ser sublinhados tais como, por exemplo, a aprovação apressada de medicamentos sem estar devidamente comprovada a sua eficácia, a ineficácia comparativa entre diversos tratamentos ou a preocupante promiscuidade entre académicos, médicos e indústria farmacêutica. Um conjunto de situações preocupante, descrito numa linguagem acessível – embora o autor não abdique do rigor e dos pormenores técnicos, quando necessário – o qual desagua no desconhecimento e na insegurança da classe médica no momento de tomar decisões, causando malefícios aos doentes, cujos interesses são prejudicados pelos interesses das empresas e da indústria farmacêutica em geral. Uma das questões que Ben Goldacre não esquece diz respeito ao modo como determinadas pessoas são coagidas a participar nos ensaios clínicos preliminares. Deixo aqui uma fatia considerável do seu comentário sobre o assunto:

 

 

«Até à década de 1980, nos Estados Unidos, esses estudos realizavam-se muitas vezes em reclusos. É possível argumentar que, desde então, esse tipo de coacção absoluta terá abrandado, em vez de ter sido totalmente eliminada. Neste momento, ser uma cobaia num ensaio clínico é uma fonte de dinheiro fácil para jovens saudáveis com poucas opções: às vezes estudantes, às vezes desempregados, às vezes muito pior. Decorre uma discussão ética sobre a possibilidade de um verdadeiro consentimento por parte de pessoas seriamente necessitadas e sujeitas a incentivos financeiros consideráveis. Uma situação destas cria uma tensão: os pagamentos aos participantes deverão ser baixos para reduzir quaisquer “incentivos indevidos” a experiências arriscadas ou degradantes, o que, em princípio, parece um bom mecanismo de segurança; mas dada a realidade em que vivem muitos participantes na fase 1, eu preferiria que fossem bem pagos. Em 1996, descobriu-se que a Eli Lilly andava a recrutar alcoólicos sem abrigo num centro de acolhimento local. O director de farmacologia clínica da Lilly disse:

 

 

“Estes indivíduos querem ajudar a sociedade.” (…) Segundo a Declaração de Helsínquia, o código ético que enquadra a actividade médica mais actual, a investigação justifica-se se a população de que provêm os participantes vier a beneficiar dos resultados. A ideia subjacente +e a de que, por exemplo, um novo medicamento para a sida não deve ser testado em pessoas de África que nunca poderiam comprá-lo. Mas, nos Estados Unidos, os desempregados, sem seguros médicos, tão-pouco têm acesso a tratamentos médicos dispendiosos, pelo que não é claro que possam beneficiar dessa investigação. (…) O dinheiro é um aspecto central deste processo, e como o pagamento é muitas vezes deferido, a pessoa só o recebe na totalidade se completar o ensaio, a não ser que consiga provar que o abandono se deveu a efeitos secundários graves. Os participantes costumam ter poucas alternativas económicas, sobretudo nos Estados Unidos, e é frequente darem-lhes a assinar formulários de consentimento compridos e impenetráveis, difíceis de ler e de compreender. (…) Os participantes sentem relutância em queixar-se das más condições, porque não querem perder a oportunidade de futuros estudos, e não recorrem a advogados pelas mesmas razões. Também podem não abandonar ensaios desagradáveis ou dolorosos por medo de perder o rendimento. Um participante descreveu isto como “uma espécie de tortura paga”: “Não somos pagos para fazer um trabalho… somos pagos para aguentar”.»

04 de Janeiro de 2014

 

«A mente humana não tem acesso à totalidade das causas dos fenómenos. A alma humana, porém, foi provida da necessidade de procurar as causas. Assim, a mente humana, incapaz de penetrar na imensidade e na complexidade das condições que geram os fenómenos, cada uma das quais em separado pode afigurar-se-lhe a causa, agarra-se à primeira e mais próxima, mais compreensível, e diz: eis a causa. Nos acontecimentos históricos (em que o objecto de observação são as acções humanas), apresentava-se outrora como causa próxima, da maneira mais primitiva, a vontade dos deuses; depois, passou a ser a vontade dos homens que ocupam o lugar de maior ressonância na história: os heróis históricos. Basta porém que aprofundemos a essência de qualquer acontecimento histórico, ou seja, a actividade de toda a massa de pessoas que participaram no acontecimento, para nos convencermos de que a vontade do herói histórico não só não dirige as acções das massas como é dirigida, ela própria, permanentemente.

 

 

À primeira vista, a compreensão do acontecimento histórico deste ponto de vista ou de outro é indiferente. No entanto, entre uma pessoa que diz que os povos do Ocidente foram para o Leste, porque Napoleão assim o quis e uma pessoa que diz que isso ocorreu, porque tinha de ocorrer, existe a mesma diferença que havia entre as pessoas afirmavam que a Terra está parada e os planetas giram à sua volta e aquelas que afirmavam que não sabiam em que se apoiava a Terra, mas sabiam que existem leis que gerem o movimento tanto da Terra como dos outros planetas. As causas do acontecimento histórico não existem, nem podem existir, para além da única causa de todas as causas. No entanto, há leis que gerem os acontecimentos, em parte desconhecidas, em parte pressentidas por nós. A descoberta de tais leis será possível quando desistirmos por completo de procurar as causas na vontade individual de uma pessoa, tal como a descoberta das leis do movimento dos planetas só se tornou possível quando as pessoas rejeitaram o conceito de imobilidade da Terra.»

Lev Tolstói, Guerra e Paz, Livro IV, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

01 de Janeiro de 2014

Fim da recolha. Entre novidades e (primeiras) reedições, sem restrições de categorias ou géneros musicais, aqui ficam os discos que mais gostei de escutar em 2013 – no total são trinta discos os escolhidos. Destaque merecido para o opus 2 de Anna Calvi, o extraordinário e inesperado regresso da folk de Linda Thompson, a feliz aventura jazzística de June Tabor (no coletivo Quercus), Machineries Of Joy, dos British Sea Power, em cujas veias circulam revitalizados a tensão e o magnífico sangue musical dos Echo & The Bunnymen, o instinto melódico conjugado com o experimentalismo subtil do último trabalho de Laura Veirs, e para a reedição da obra integral da admirável Banda do Casaco. De fora ficaram, injustamente, Shaking the Habitual, dos arrojados The Knife - embora de digestão algo difícil, mas o futuro pertence-lhes -, o precioso classicismo de Electric, de Richard Thompson, ou o mais recente, introspectivo e belíssimo trabalho dos These New Puritans. Não é possível, contudo, incluir todos. The Jazz Age, da Bryan Ferry Orchestra, e The Sparrow, de Lawrence Arabia, também ficaram de fora. Estes, porém, deixei-os à margem por outra razão. Embora só os tenha escutado em 2013, foram na realidade publicados durante o ano de 2012.

 

  

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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