a dignidade da diferença
30 de Setembro de 2013

 

Embora tardia, deixo-vos aqui a minha derradeira homenagem ao poeta, ensaísta e tradutor António Ramos Rosa (1924-2013), Prémio Pessoa em 1988, e à sua magnífica e duradoura obra, enraizada numa persistente procura de um espaço livre e focada numa angústia existencial amarrada ao absurdo da vida. Um autor imenso cuja trajetória literária exibe um distanciamento e um assinalável desprezo pela vida, envoltos num mundo inesgotável de interrogações e variações estéticas, seladas pela energia, pela complexidade e pelo aperfeiçoamento da palavra. Quase Nada ou Nada, poema publicado em 1979, é um exemplo feliz do percurso estético e literário que, muito resumidamente, vos acabei de descrever.

 

 

Por quase nada ou nada

que junção de alegria corpo e terra

que mão sobrou entre as ruínas

que braço ainda respira sobre as pedras?

Isto é uma árvore ou a sombra de umas ancas?

Isto é a terra ou o suor dos ossos nus?

 

Ainda dirias aqui a sombra azul?

Que mulher te acompanha até ao muro?

Isto é um mar ou um nome sem espessura?

 

Por quase nada, uma sombra apenas,

uma sombra de quê, breve horizonte, altura

ou boca unida ainda à árvore obscura

ou só a mão que sobra entre ruínas.

 

Por nada eu te diria,

Por um espasmo de frescura nas palavras,

ó voz entre formigas,

ó forma de desejo já perdida,

ó junção da terra ao corpo em que respiras!

 

publicado por adignidadedadiferenca às 19:10 link do post
21 de Setembro de 2013

 

 

How to Lie with Statistics, escrito por Darrell Huff - publicado recentemente no nosso país pela Gradiva, integrado na coleção Ciência Aberta, intitulado Como Mentir Com a Estatística e traduzido por Rui Filipe Graça, ficando, por sua vez, a revisão científica a cargo de Carlos Fiolhais -, tornou-se um hiperclássico com mais de meio século de existência. Concebido essencialmente com o objetivo de preparar as pessoas contra quem as procura enganar através do (ab)uso da estatística – cujas médias, correlações, tendências e gráficos, como refere Huff, nem sempre são aquilo que parecem -, e construído numa linguagem bastante acessível, simples e clara, sem esquecer contudo o necessário rigor científico, este livro tem ainda hoje a capacidade para ensinar e divertir os seus leitores, explicando como se deve encarar e enfrentar uma estatística falsa (certificando-se, por exemplo, se esta faz algum sentido). Retirados da sua pequena introdução à obra, ficam aqui referidos alguns dos propósitos iniciais do seu autor:

 

 

«A linguagem secreta da estatística, tão atraente no quadro de uma cultura baseada em factos, é usada para causar sensacionalismo, para amplificar, para confundir e para simplificar o mais possível. Os métodos e termos estatísticos são necessários para comunicar um grande volume de dados sobre tendências socioeconómicas, condições de mercados, pesquisas de opinião e recenseamentos. Todavia, sem autores que usem as palavras com honestidade e sentido e sem leitores que saibam o que elas querem dizer, o resultado só poderá ser um completo disparate semântico. Na escrita popular sobre assuntos científicos, os abusos estatísticos quase nunca aparecem associados ao lugar-comum do herói de bata branca que trabalha horas a fio num laboratório mal iluminado, sem direito a pagamento de horas extraordinárias. Como se fossem uns pozinhos de perlimpimpim, as estatísticas fazem muitos factos importantes parecerem aquilo que, de facto, não são. Uma estatística bem embrulhada é melhor do que a “grande mentira” da propaganda hitleriana – engana, mas não revela a origem do engano. Este livro é uma espécie de introdução às várias formas de usar a estatística para enganar alguém. Pode parecer um manual para vigaristas. Talvez eu possa justificá-lo com a imagem do ladrão aposentado cujo livro de memórias equivale a uma licenciatura em arrombar fechaduras e andar com pezinhos de lã: os bandidos já conhecem esses truques, mas as pessoas honestas devem aprendê-los para sua própria defesa.»

15 de Setembro de 2013

 

 

Confesso que a música dos Everly Brothers nunca me agradou especialmente. Demasiado agarrada ao espírito da época, consistia numa preocupação excessiva com as harmonias vocais, amparadas em bonitas mas algo inócuas melodias e demasiado presas a um conceito estético despropositadamente pueril e juvenil, inconsistente e por desenvolver. Bonnie ‘Prince’ Billy e Dawn McCarthy – que criou, com Nils Frykdahl, os excelentes e praticamente desconhecidos Faun Fables –, recolhendo os ensinamentos da pop/folk profunda e clássica dos anos sessenta e setenta; a dos Jefferson Airplane, dos Steeleye Span e, especialmente, da trupe dos Fairport Convention (com Sandy Denny e Richard Thompson à cabeça), pegaram nas canções menos conhecidas que os Brothers criaram ou apenas interpretaram, e releram-nas sob uma nova perspetiva. Descobriram e associaram-lhe novos elementos sonoros, modificaram-lhe as arestas, pesaram e ampliaram-lhe o volume e desenvolveram a sua carga dramática, transformando quase milagrosamente as características exageradamente açucaradas da matriz original – indicada para duplas do género Simon & Garfunkel, uns anos antes de mudarem o curso da história da música pop, com as magníficos Bookends e Bridge Over Troubled Water –, num conjunto soberbo de peças musicais densas, elétricas, inesperadamente livres e amadurecidas. Ao disco chamaram-lhe apropriadamente What the Brothers Sang.

 

 

10 de Setembro de 2013

 

 

Satyajit Ray foi o cineasta indiano mais conhecido e admirado no ocidente (basta recordar que foi galardoado, por exemplo, pela Academia com um Óscar honorário em 1992) e tornou-se - a par do genial Guru Dutt (com quem, confesso, sinto mais afinidades), autor de Kaagaz Ke Phool (Flores de Papel, de 1959), esse excessivo e mágico melodrama, associado a um desenho perfeito do perfil psicológico das personagens, que é, ainda hoje, uma das obras-primas absolutas do cinema - um dos expoentes máximos da cinematografia indiana e, por acréscimo, do cinema mundial. Autor de uma obra com profundas raízes realistas, caracterizada por uma forte componente social, como é o caso, por exemplo, da famosa Trilogia de Apu (O Lamento da Vereda, O Invencível e O Mundo de Apu), a qual chegou ao mercado nacional há uns anos numa edição da Costa do Castelo em DVD, Satyajit Ray atingiu com Charulata, realizado em 1964, o seu cume estético, uma dimensão superior que se afasta do anterior realismo social e exibe um assombroso retrato feminino assente na personagem de Charu. A protagonista, pertencente à burguesia indiana dos finais do século XIX, amada mas negligenciada pelo marido, que vive ocupado com o jornal que dirige, desenvolve uma paixão inesperada pelo primo, com quem partilha o gosto pela literatura e o seu talento notável para a escrita, tornando-se uma espécie de paradigma da mulher moderna. Neste filme (e não só), Ray criou e desenvolveu um estilo minucioso, depurado e minimalista, com uma noção do tempo e do espaço bem assimilada, dotado de uma admirável invenção plástica e dramática que amplia de modo assinalável o seu microcosmos vivencial e afetivo. Uma obra magnífica que resistiu bem à passagem do tempo.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:34 link do post
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