a dignidade da diferença
29 de Agosto de 2013

 

 

«A teoria das cordas, tal como é entendida, postula que o mundo é essencialmente diferente do mundo que conhecemos. Se a teoria das cordas estiver certa, o mundo tem mais dimensões e muito mais partículas e forças do que as observadas até ao momento. Muitos teóricos das cordas falam e escrevem como se a existência dessas dimensões e partículas adicionais fosse um facto comprovado, de que nenhum bom cientista pode duvidar. Mais de uma vez algum teórico das cordas me disse coisas como “quer dizer que tu achas que é possível não existirem dimensões extra?”. Na verdade, nem a teoria nem a experiência oferecem qualquer indício de que existam dimensões extra. Um dos objectivos deste livro é desmistificar as afirmações da teoria das cordas. As ideias são bonitas e com boa motivação. No entanto, para entender por que razão não levaram a um progresso maior temos de ser claros precisamente quanto ao que os dados apoiam e ao que ainda está a faltar. Uma vez que a teoria das cordas é um empreendimento de tão alto risco – não sustentado pela experiência, apesar de muito generosamente apoiado pelas comunidades académicas e científicas -, existem apenas duas maneiras de a história acabar. Se a teoria das cordas se revelar correcta, os teóricos das cordas passarão a ser os maiores heróis da história da ciência. Com base num punhado de pistas – tosas elas de leitura ambígua -, terão descoberto que a realidade é muito mais vasta do que se imaginava. (…) Por outro lado, se os teóricos das cordas não tiverem razão, não podem estar apenas um pouco errados. Se as novas dimensões e simetrias não existirem, incluiremos os teóricos das cordas entre os maiores fracassados da ciência, como aqueles que continuaram a trabalhar nos epiciclos de Ptolomeu na altura em que Kepler e Galileu avançaram. Sobre eles serão contadas histórias de advertência acerca do modo como não se deve fazer ciência, como não permitir que a conjectura teórica fique tão para além dos limites do que pode ser racionalmente argumentado que o seu autor comece a envolver-se em pura fantasia.»

Lee Smolin, O Romper das Cordas, Ascenção e Queda de uma Teoria e o Futuro da Ciência

25 de Agosto de 2013

Lou Reed: New York (1989)

 

 

Após uma longa série de álbuns sofríveis – iniciada após o lendário Berlin (1973), onde os ocasionais excessos orquestrais dificultam, contudo, a sua resistência à passagem do tempo – Lou Reed regressou à boa forma com o exemplar neoclassicismo de New York (1989). Denúncia implacável e consistente dos oito anos de administração Reagan e da sua insensibilidade social, New York é um relato cru da cultura urbana daqueles dias, apontando, num mundo crivado de dúvidas, o dedo ao racismo, à marginalidade infantil ou ao esquecimento dos veteranos de guerra. Incisivo, direto, seco e brutal, Lou Reed recuperou as qualidades evidenciadas num estilo tantas vezes copiado: o canto quase falado, uma engenhosa economia de meios, a superior expressividade sonora, os momentos de tensão quase insuportável ou o formidável talento – cada vez mais apurado – de cronista hiper-realista. Optando por uma estrutura orgânica sistematizada, Lou Reed articula as canções do álbum entre si, submetendo-as a uma unidade temática e criando uma atmosfera densa de música e palavras que irá explorar nos trabalhos imediatamente seguintes; o belíssimo Songs For Drella (construído a meias com o irmão desavindo John Cale) e o genial e negríssimo Magic And Loss. Uma trilogia inadjetivável que não ganhou, até hoje, uma única ruga.

 

 

22 de Agosto de 2013

 

 

«A Economia dos Pobres é, em última análise, acerca daquilo que as vidas e as escolhas dos pobres nos ensinam acerca da forma de lutar contra a pobreza global. Ajuda-nos a compreender, por exemplo, a razão pela qual o microfinanciamento é útil, sem constituir o milagre que alguns esperavam que fosse; porque é que os pobres acabam muitas vezes por ter cuidados de saúde que lhes fazem mais mal do que bem; por que razão os filhos dos pobres, ano após ano, vão à escola e não aprendem nada; porque é que os pobres não querem seguros de saúde. E revela por que razão tantos golpes de magia do passado se transformaram nas ideias falhadas de hoje. Este livro indica também onde reside a esperança: por que razão subsídios simbólicos poderão ter efeitos mais do que simbólicos; como melhorar o mercado dos seguros; como é que menos pode ser mais em educação; porque é que bons empregos são decisivos para o crescimento. Acima de tudo, torna clara a razão por que a esperança seja vital e o conhecimento crítico, para que tenhamos de continuar a tentar, mesmo quando os desafios parecem esmagadores. O sucesso nem sempre está tão longe como parece.»

Abhijit V. Banerjee e Esther Duflo, A Economia dos Pobres

16 de Agosto de 2013

 

 

Começa a ser insustentável a ideia apresentada pelos nossos governantes de que a atual crise da dívida pública resulta do facto de os portugueses andarem nestes últimos anos a viver e a gastar acima das suas possibilidades. Dois livros recentes procuram demonstrar precisamente o contrário; Da Corrupção à Crise, de Paulo de Morais, e Os Privilegiados, do jornalista Gustavo Sampaio. Se o compararmos com as intervenções públicas na televisão do seu autor, o primeiro trabalho é, contudo, uma rotunda desilusão. Populista e demagogo, o antigo vice-presidente da Câmara Municipal do Porto usa e abusa de um estilo excessivamente incendiário e acusatório, recorrendo por diversas vezes a insinuações mais ou menos vagas e genéricas, tirando daí conclusões que na sua maioria não se afastam de meros lugares comuns ou de chavões gastos, repetidos e vazios na sua essência. Os políticos são todos uns corruptos, bandidos e ladrões. Trata-se de uma análise bastante rudimentar da nossa classe política, pecando por uma manifesta falta de profundidade. O que se lamenta, pois Paulo de Morais aponta, por vezes, o dedo às pessoas certas e denuncia com eficácia situações concretas. Mas, infelizmente, cai demasiadas vezes num estilo típico das conversas corriqueiras de café ou numa linguagem intencionalmente polémica que nos habituámos a ver em pasquins do género do Correio da Manhã. Enfim, um livro bastante sofrível que poderia fazer muito mais pela denúncia de uma certa casta política. Bastante superior é a notável obra do jornalista freelancer Gustavo Sampaio.

 

 

Os Privilegiados consiste num magnífico trabalho de investigação sobre o regime das incompatibilidades e o conflito de interesses na Assembleia da República, sobre o trânsito de ex-políticos para as administrações de empresas – exemplificando entre as cotadas no índice PSI 20 –, cumprindo ou não o período de nojo (três anos), sobre o Estatuto remuneratório dos titulares de cargos públicos e as Subvenções vitalícias dos titulares de cargos políticos, e sobre as nomeações para cargos dirigentes na administração direta e indireta do Estado, setor empresarial do Estado e gabinetes ministeriais, comparando os privilégios adquiridos pela nossa classe política com os modelos de diversos países europeus. Se o livro não fornece especiais novidades a quem anda bem informado, oferece, porém, com a sua rigorosa contextualização e sistematização, uma portentosa visão panorâmica sobre a promiscuidade existente entre o mundo da política e as atividades económicas e financeiras, a conexão entre as funções públicas e os interesses privados, o tráfico de influências ou a escandalosa rede de interesses convergentes entre a classe política, as empresas públicas e os negócios privados. Concretizando a crítica no lugar de a generalizar, como propõe de resto o seu autor, Os Privilegiados distingue os maus políticos daqueles que servem efetivamente a causa pública e deixa o leitor munido de suficiente informação para tomar a liberdade de pensar e procurar entender quem são os verdadeiros responsáveis pela situação ruinosa a que chegou o nosso Estado. Um livro obrigatório.

13 de Agosto de 2013

 

 

A propósito da derrapagem do custo com a construção da ponte de São João, no Porto, em 1991, da autoria do Engenheiro Edgar Cardoso, cujo orçamento inicial era de 6,3 milhões de contos e foi concluída com um custo que ultrapassou os 40 milhões, recordam-se as palavras do então ministro Ferreira do Amaral (retiradas da revista do semanário Expresso, 100 Anos 100 Portugueses, dedicada às figuras que moldaram o século XX). Foi este espírito que nos tramou e levou à mais recente crise da dívida pública: «Quanto terá derrapado a construção dos Jerónimos? Afinal, a São João também é um monumento.»

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