a dignidade da diferença
20 de Abril de 2013

 

 

Cristina Branco descreve o seu mais recente trabalho como «um retrato com tanto de cru como de irónico e sensível do homem e da mulher de todos os dias, do café, do fim da rua, do virar da esquina, de qualquer parte do país ou largado no mundo». O sentido dos textos não engana, os tempos são difíceis e a autora endurece o seu discurso. Assumindo como missão despertar algumas consciências adormecidas, Cristina Branco vai, contudo, muito mais longe: o significado que atribui às palavras não é unívoco e o título Alegria não esconde a ideia paradoxal que se estende por todo o álbum («as duas faces da mesma moeda», como refere Cristina Branco). Por sua vez, a voz doce, cristalina e expressiva da cantora amacia o tom grave da maioria das canções, mas combina surpreendentemente aquela aparente suavidade com uma ironia, um atrevimento, uma graça e uma carga dramática que foram crescendo ao longo da sua carreira e permitem, por fim, que aquela voz atinja o cume da sua capacidade. Afastando-se deliberada e definitivamente da matriz cristalizada do fado, a matéria musical diversificada de Alegria amplia, identifica e desmonta o sentido dos textos, enriquecendo-o com uma cuidada atenção aos detalhes, uma disposição e um encaixe perfeitos dos diferentes materiais sonoros e um rigor e uma precisão típicos de um relojoeiro, cuja conjugação se materializa num disco com uma qualidade imprevisível, numa música sem tempo e sem fronteiras que não se sente limitada quando parte em busca dos seus estímulos.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:41 link do post
13 de Abril de 2013

 

 

Soube, pelo blogue do Victor Afonso, que a revista Sábado publicou uma interessante secção, intitulada O Que o Seu Filme Preferido Diz de Si, onde o psicólogo Nuno Amado procurou relacionar a preferência cinéfila das pessoas com a sua personalidade. Mas borra a pintura quando, sobre O Sétimo Selo, escreve: «Quem diz que este é o seu filme preferido costuma achar que a palavra “intelectual” é sempre um elogio. São pessoas que nunca leram um livro porque estão sempre a reler qualquer coisa, a maior parte das vezes filosofia alemã, e que se acham especiais por conseguirem assistir a este filme sem adormecer. Dizer que estas pessoas se levam demasiado a sério é um pouco como dizer que no Brasil até há quem goste de futebol. O segredo dos adeptos de 'O Sétimo Selo' é que, no fundo no fundo, preferem 'O Cinema Paraíso', mas não o querem admitir». Embora prefira outras obras de Ingmar Bergman, se há filme dele que discute magistralmente a dicotomia entre, por um lado, a angústia existencial e, por outro, a face solar da simplicidade vivencial - com óbvia vantagem para a segunda - é o celebérrimo O Sétimo Selo. Explicando melhor: se é o próprio filme a optar, na oposição entre um existencialismo sofrido e a simplicidade feliz da vida, pela ligeireza (ehrrr...) desta última, fará algum sentido afirmar que este é o filme preferido das «pessoas que nunca leram um livro porque estão sempre a reler qualquer coisa, a maior parte das vezes filosofia alemã, e que se acham especiais por conseguirem assistir a este filme sem adormecer»? Por conseguinte, perante o significado e o conteúdo do seu comentário (que o autor parece levar a sério), só se pode tirar uma de duas conclusões: ou o psicólogo Nuno Amado não quis compreender a profundidade do filme ou então acumulou uma série de preconceitos que se transformou progressivamente num incompreensível vírus anti-intelectual. Ainda assim, tamanho equívoco não justifica o chorrilho de disparates nem o fel que vomita. Incapaz de entender que os fenómenos culturais não têm como função exclusiva a mera distração, Nuno Amado despreza o universo diversificado de opiniões e posições de um determinado tipo de cinema, muito particularmente Bergman e o cinema europeu. Não o conseguindo explicar, cai no facilitismo torpe de enfiar tudo no saco do pretensiosismo. Para psicólogo, acho pouco.

10 de Abril de 2013

 

 

Quando tantos se babam com os excessivos méritos atribuídos a uns meros pontapés na bola, tecem louvores ao sobrevalorizado engenho na elaboração de uma estratégia que supere os obstáculos próprios de um jogo de futebol, ou desmaiam perante as inexpressivas representações de um ator de sucesso em convencionais séries de cariz histórico, sabe bem constatar que, por vezes, não são esquecidos aqueles que foram realmente à procura do conhecimento, que se preocuparam verdadeiramente com os destinos de uma comunidade e fizeram da sua carreira algo que, no plano axiológico, sob o ponto de vista valorativo, cabe numa esfera completamente distinta. Esqueçam lá então, por uma vez, os Ronaldos, os Mourinhos ou os Morgados. Isto sim, dada a sua superior dimensão intelectual, é grande motivo de orgulho. E este homem, pelo seu labor e pela sua persistência numa área que tão bem domina (a arquitetura paisagista), tanto no plano académico como no domínio prático, bem merece esta distinção – o prémio IFLA Sir Geoffrey Jellicoe. Infelizmente, neste país politicamente à beira-mar perdido, poucos lhe deram crédito.

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