a dignidade da diferença
25 de Novembro de 2012

 

 

De Béla Tarr, no mercado português, só existia O Homem de Londres em DVD e a estreia comercial nas salas de cinema do último O Cavalo de Turim. Porém, com a recente edição a cargo da Midas Filmes de uma caixa com quatro dos seus filmes mais importantes, a obra do cineasta húngaro tem a possibilidade de alargar o seu culto em Portugal. Autor de um cinema que exige a máxima atenção e uma participação ativa do espectador e só a esse se entrega e se deixa descobrir plenamente, Tarr criou um universo cinematográfico único assente num retrato esmagador do mundo contemporâneo, um realismo árido e apocalíptico cuja visão nos conduz a uma camada da humanidade que vive sem esperança, cercada pela paisagem inóspita e eternamente condenada a um sacrifício que não leva a lugar nenhum. Metáfora do pesadelo comunista, da solidão e do sofrimento contemporâneos, a arte de Béla Tarr encontra nos longos planos-sequência, na densidade, na espessura e no contraste carregado do preto e branco, o meio adequado para nos contar a história derradeira da condição humana. O seu cinema distingue-se das outras linguagens pela forma como trabalha admiravelmente a imagem e o som, como constrói dramaticamente um espaço fechado ou coreografa o dilúvio que deixa aquela gente sem escapatória possível. Ao presenciar esta visão tão hipnótica, transcendente e poética, parece impossível evitar, usando uma expressão de João Lopes, a partilha duma «experiência sensorial e intelectual» absolutamente irrecusável, estimulante e irrepetível. Um olhar austero e desolador sobre personagens que se aproximam inevitavelmente do seu fim, onde a luz acaba e aquelas se sentem apenas acompanhadas por uma paisagem lamacenta e pelo tempo chuvoso, ventoso e extenuante. Danação, O Tango de Satanás, As Harmonias de Werckmeister e O Cavalo de Turim aí estão para combater a indiferença.

 

17 de Novembro de 2012

 

 

The Velvet Underground & Nico, o hiperclássico da banda originalmente formada por Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker, celebra 45 anos de existência e terá sido provavelmente o primeiro disco de rock de vanguarda.  Vendeu pouco, mas na opinião de Brian Eno «quase todos os que o compraram formaram de seguida uma banda». Com o patrocínio de Andy Warhol, os velvets reuniram no seu corpo musical a crueza e secura das palavras de Reed, a experimentação, o negrume e o espírito vanguardista de Cale, o rigor rítmico de Morrison e a energia e tensão de Moe Tucker. Com a cumplicidade ocasional da voz gélida de Nico, o álbum de estreia ampliou todas estas qualidades convertendo-as numa massa sonora simultaneamente lírica e primitiva, quase sempre dissonante, angustiante e duma violência extrema, sem contudo rejeitar uma aproximação a delicadas e sedutoras melodias pop (embora com uma dose de veneno nada desprezível). Deliberadamente contra corrente, opositora natural do hippismo e flower power da época, a música dos Velvet Underground era prodigiosamente densa e rugosa, tensa e dramática, crescia avassaladoramente entre acelerações e desacelerações constantes, qual comboio elétrico imparável, e mostrava pela primeira vez uma visão crua da realidade, percorrendo com lentes desfocadas um quadro negro, esquizofrénico e dilacerado, onde cabia a androgenia, o sadomasoquismo, o mundo da droga, a violência das ruas ou a angústia de quem vive num mundo com poucas escolhas possíveis. Com Femme Fatale, Venus in Furs, All Tomorrow's Parties, Heroin, I'll Be Your Mirror ou Black Angel's Death Song, foi aqui que o rock alternativo verdadeiramente criou a sua matriz fundadora.

 

11 de Novembro de 2012

 

 

«Costumo regressar eternamente ao Eterno Retorno; nestas linhas vou tentar (com o socorro de algumas ilustrações históricas) definir os seus modos fundamentais. O primeiro tem sido imputado a Platão. Este, no trigésimo nono parágrafo do Timeu, afirma que os sete planetas, equilibradas as suas diferentes velocidades, regressarão ao ponto inicial de partida: revolução que constitui o ano perfeito. (…) Algum astrólogo que não tinha examinado em vão o Timeu formulou este irrepreensível argumento: se os períodos planetários são cíclicos, também a História Universal o será; ao cabo de cada ano platónico renascerão os mesmos indivíduos e cumprirão o mesmo destino. (…) Neste primeiro modo de conceber o eterno retorno, o argumento é astrológico. O segundo está vinculado à glória de Nietzsche, o seu mais patético inventor ou divulgador. Justifica-o um princípio algébrico: a observação de que um número n de objetos – átomos na hipótese de Le Bon, forças na de Nietzsche, corpos simples na do comunista Blanqui – é incapaz de um número infinito de variações. Das três doutrinas que enumerei, a mais racional é a de Blanqui. (…) Desta série perpétua de histórias universais idênticas observa Bertrand Russell: Muitos escritores são de opinião que a História é cíclica, que o presente estado do mundo, com os seus pormenores mais ínfimos, mais tarde ou mais cedo voltará. Como formulam esta hipótese? (…) A hipótese de a História ser cíclica pode enunciar-se desta maneira: formemos o conjunto de todas as circunstâncias contemporâneas de uma determinada circunstância; em certos casos todo o conjunto se antecede a si mesmo.

 

 

Chego ao terceiro modo de interpretar as eternas repetições: o menos pavoroso e melodramático, mas também o único imaginável. Quero dizer, a conceção de ciclos similares, não idênticos. É impossível formar o catálogo infinito de autoridades (…) De tal profusão de testemunhos basta-me copiar um, de Marco Aurélio: Mesmo que os anos da tua vida fossem três mil ou dez vezes três mil, lembra-te de que ninguém perde outra vida senão a que vive agora nem vive outra senão a que perde. (…) Lembra-te de que todas as coisas giram e voltam a girar pelas mesmas órbitas e que para o espectador é igual vê-la um século ou dois ou infinitamente. (…) Se lermos com alguma seriedade as linhas anteriores (…) veremos que declaram, ou pressupõem, duas ideias. A primeira: negar a realidade do passado e do futuro. Enuncia-a esta passagem de Schopenhauer: A forma de aparição da vontade é só o presente, não o passado nem o futuro: estes só existem para o conceito e pelo encadeamento da consciência, submetida ao princípio da razão. Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no porvir, o presente é a forma de toda a vida. (…) A segunda: negar, como o Eclesiastes, qualquer novidade. A conjetura de que todas as experiências do Homem são (de qualquer modo) análogas, pode à primeira vista parecer um simples empobrecimento do mundo.»

História da Eternidade, de Jorge Luis Borges

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