a dignidade da diferença
26 de Agosto de 2012

 

Frank Morgan: Love, Lost & Found (1995)

  

 

Frank Morgan não teve uma vida fácil; foram anos de sofrimento e múltiplas convulsões, marcados sobretudo pela sua submissão à droga e pelas consequentes e indesejáveis visitas às prisões da Califórnia. Porém, a crer no testemunho deixado por este magnífico Love, Lost & Found (gravado durante o mês de março de 1995), a maturidade proporcionou-lhe o reencontro tranquilo e gracioso com a paz. Auxiliado musicalmente por Cedar Walton, Ray Brown e Billy Higgins, cujo rigor instrumental é quase sempre sobreexcelente, Morgan dedica-se exclusivamente à interpretação de standards do jazz, abordando-os como se de uma viagem interior se tratasse: com sentimento, lirismo e sabedoria, através de uma depuração profunda, uma atenção ao detalhe e uma economia narrativa - onde cada nota é suficiente e nunca está a mais - que atingem nesta obra a sua máxima expressão artística. Um disco admirável, contagiante e comovente.

 

All the Things You Are, numa versão anterior...

18 de Agosto de 2012

 

 

Questionar, pôr em causa conceitos adquiridos: uma regra de oiro que deveria ser seguida sem limites de qualquer espécie e cuja validade é inquestionavelmente absoluta. Trágica e infelizmente, porém, por causa de uma obediência cega aos dogmas estabelecidos, a sua interiorização, apreensão ou utilização são cada vez mais, sobretudo nos tempos hodiernos, diminutas, raríssimas. Quem fica a perder é o conhecimento. Simon Singh, físico de méritos reconhecidos, no seu magnífico Big Bang (que a Gradiva editou no nosso país e Paulo Ivo Cortez Teixeira e José Braga traduziram), põe pertinentemente o dedo na ferida: «A descoberta de Baade não só contribuíra imenso para colmatar uma das principais falhas do modelo do Big Bang, como, o que é mais importante, pusera a descoberto uma fraqueza da astronomia em geral – o hábito de obediência cega. A reputação de Hubble levara os astrónomos a aceitar sem hesitação os valores que ele propusera para as distâncias a Andrómeda e às outras galáxias. Não questionar nem pôr em causa afirmações tão fundamentais, mesmo quando proferidas por autoridades eminentes, é uma das caraterísticas da ciência de fraca qualidade.»

14 de Agosto de 2012

 

 

«O tema deste livro é, em primeiro lugar, a história das noites arrancadas à sucessão normal do trabalho e do descanso: interrupção impercetível, inofensiva, dir-se-á, do curso normal das coisas, onde se prepara, se sonha, se vive já o impossível, a suspensão da ancestral hierarquia que subordina aqueles que estão destinados a trabalhar com as mãos aos que receberam o privilégio do pensamento. Noites de estudo, noites de embriaguez. Dias de trabalho prolongados para ouvir a palavra dos apóstolos ou a lição dos educadores do povo, para aprender, sonhar, debater ou escrever. Manhãs de domingo antecipadas para irmos junto para o campo surpreender o nascer do dia. Dessas loucuras, alguns sair-se-ão bem: acabarão empresários ou senadores vitalícios – não necessariamente traidores. Outros morrerão delas: suicídio das aspirações impossíveis, definhamento das revoluções assassinadas, tísica dos exílios nas brumas do Norte, pestes desse Egito onde se procurava a Mulher-Messias, malária do Texas onde se ia construir Icária. A maioria passará a vida nesse anonimato, de onde por vezes emerge o nome de um poeta operário ou do dirigente de uma greve, do organizador de uma efémera associação ou do redator de um jornal logo desaparecido.»

Jacques Rancière in A noite dos proletários (prólogo)

publicado por adignidadedadiferenca às 00:28 link do post
09 de Agosto de 2012

 

 

Depois da contribuição para a escassa mas essencial produção musical dos cinemáticos Blue Nile, Paul Buchanan regressou com o seu primeiro álbum a solo. Se a música dos Blue Nile já era um monumento de rarefação sonora projetada a horas noturnas, Buchanan, neste recente e superlativo Mid Air, amplia infinitamente a estética do silêncio até ao limite da depuração sonora, divulgando o seu conteúdo quase sílaba a sílaba, numa demonstração inequívoca de domínio absoluto do tempo e do espaço musical. Um trabalho cujos elementos da matéria musical se reduzem ao estritamente necessário no qual a mínima vibração instrumental parece francamente excessiva e só virá abalar a estrutura das canções e perturbar definitivamente o ambiente transparente e intimista criado pelo seu autor. Um disco essencial, único e aparentemente irrepetível.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:08 link do post
02 de Agosto de 2012

 

 

A história da evolução e da vida não obedece a qualquer ordem ou lógica de progresso. O homem não é o ser mais complexo nem o objeto supremo da criação; apesar do impacto e do peso inegável da sua presença no planeta, o aparecimento do homem foi provavelmente imprevisível e a sua evolução correspondeu a uma série de alterações casuais das circunstâncias e dos meios geográficos. Na realidade, a tese que defende a ideia de que o homem é o culminar de uma evolução que começa nos micro-organismos e se estende pelos invertebrados, peixes e mamíferos, encontra-se viciada pelo facto de ser aquela que gostamos de ouvir. É assim que pensa, pelo menos, o paleontólogo Stephen Jay Gould. O enfoque de Gould, no magnífico Full House, sustenta que a variação, a espontaneidade e a diversidade são a realidade de grau mais elevado da excelência (numa comparação deliciosa com o full house num jogo de póquer), utilizando, para o efeito, variadíssimos exemplos, análises e enigmas, como forma de concretizar a essência do seu entendimento segundo o qual se deve «encarar a origem do homo sapiens como um acontecimento fortuito, não passível de repetição, não podendo os seres humanos ocupar qualquer posição privilegiada no topo ou constituir o culminar de alguma coisa». No fundo, como o autor de resto já defendia no anterior A Vida é Bela, é bem provável que o ser humano só tenha aparecido por mero acaso. O livro, dezasseis anos depois, mantém todo o fascínio.

publicado por adignidadedadiferenca às 01:10 link do post
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