a dignidade da diferença
25 de Abril de 2012

 

 

Brandos Costumes, de Alberto Seixas Santos, e 48, de Susana de Sousa Dias, são os dois melhores filmes portugueses cujo tema se associa sem dificuldade ao 25 de abril, mesmo que neles não se retrate o dia da liberdade propriamente dito mas sim o longo e anterior período de ditadura. Contudo, são eles que melhor retratam a inércia e a encruzilhada civilizacional a que chegáramos (Brandos Costumes) ou os mecanismos odiosos utilizados pelo regime de então para perpetuar o seu modelo autoritário e impiedoso sem se preocupar com o sofrimento causado aos muitos que ousaram resistir-lhe. Brandos Costumes, de 1974, magnífica reflexão sobre a História de um país a partir do retrato minucioso de uma família burguesa, das suas relações ou trajetória, tornou-se um clássico do cinema português, embora, na verdade, apenas seja conhecido por uma pequena minoria. O documentário 48 (que foram os anos vividos em ditadura), de 2011, focado no rosto de dezasseis presos políticos para explicar a essência de todo um sistema político, acabou agora mesmo de ser editado em DVD e ficou assim disponível para os interessados. Duas boas ideias para diminuir a ignorância sobre o tema.

 

22 de Abril de 2012

 

 

Uma das cadeiras mais difíceis do curso, para a maioria dos estudantes de Direito, é Direitos Reais, sendo a posse, enquanto titularidade aparente, uma das matérias mais discutidas do seu programa. A doutrina discute a natureza da posse em função de duas conceções: direito subjetivo de natureza real ou mero facto jurídico. A fim de evitar que a explicação se torne assaz maçadora, direi que a questão se coloca não só para apurar a razão por que merece aquele instituto a tutela (proteção) jurídica, mas também para qualificar a sua constituição. Quem já concluiu Direitos Reais sabe que o nosso direito adotou a conceção subjetiva da posse - ou seja, que a existência da posse advém do corpus, o qual consiste no domínio de facto sobre uma coisa, e da intenção do possuidor agir como titular do direito correspondente ao corpus -, afastando-se da conceção objetiva que sustenta a constituição da posse apenas com o domínio de facto sobre uma coisa. Esta pequena peça dirige-se, contudo, àqueles que sentem gosto pela leitura e se interessam pelo conhecimento que não se adquire nos cadernos de apontamentos. Sobre o Fundamento da Proteção Possessória, de Rudolf von Jhering, traduzido e adotado pelo Dr. José Alberto González, é o desafio que lhes deixo e que permite compreender uma discussão que faz parte da tradição jurídica. Um ótimo livro para consolidar ideias e verdadeiramente completar o curso universitário.

15 de Abril de 2012

 

 

Wes Montgomery, músico de Indianapolis, falecido em 1968, foi, com Charlie Christian e Django Reinhardt, um dos mais importantes guitarristas da história do jazz que, como praticante, definiu o som e ampliou o significado do instrumento como motor estético do jazz. Echoes of Indiana Avenue, publicado há dias, fornece alguns dados à fase inicial da carreira de Montgomery, quando este praticava o seu talento musical nos clubes noturnos da cidade natal, onde desenvolve o seu estilo singular; e contém gravações desconhecidas realizadas durante os anos de 1957 e 1958. Aí se revela uma maturidade estética e musical já bastante apreciável, um modo muito peculiar e precioso de tocar o instrumento, digno de um mestre, substituindo o uso da palheta pelo polegar, uma fusão subtil de estilos e géneros musicais, moldando-os a uma forma única, nova e sedutora, e, por fim, tão ou mais importante, um espírito criativo capaz de incluir em todos os números musicais uma quantidade imparável de prodigiosas e emocionantes improvisações sonoras. Um disco fabuloso.

 

Round Midnight 

14 de Abril de 2012

 

 

«A outra perversidade está associada a uma propositada amnésia da História, das Histórias coletivas e das histórias particulares. Tal propósito resulta na ostracização de todo o universo da administração pública e dos serviços públicos que são diabolizados por este discurso – o que, para além de ser política e socialmente injusto, revela, da parte dos atuais governantes, uma enorme ingratidão. Não foram a maioria deles nascidos e cuidados nos hospitais públicos, educados nas escolas e universidades públicas, não lhes foi possível empregarem-se na administração pública? Imagino o primeiro-ministro e o ministro-adjunto a entreterem-se com a sua própria formação musical assistindo a programas televisivos como o Passeio dos Alegres, do Júlio Isidro, nos Verãos das suas adolescências. Porquê agora esta obsessão, sem uma razão, para já, convincente, sem um argumento sólido, de privatizar parte da RTP? Contrariamente ao economismo e à sua arrogância, uma perspetiva cultural de abordagem à atualidade não abdica de insistir na necessidade da justiça e da existência de homens justos que, seguindo a ética aristotélica da justiça e do bem maior dos imperativos éticos kantianos, reclamam que a finalidade da ação é o homem e o seu bem em si, e não o privilégio de alguns, do qual se desculpam por via do assistencialismo, a forma mais discriminatória de distinguir os incluídos dos excluídos.»

António Pinto Ribeiro, Ípsilon, suplemento do Público de 13 de abril de 2012.

09 de Abril de 2012

 

 

A elevadíssima percentagem de chumbos no exame da Ordem dos Advogados (quase 60 %), que se realizou no final do estágio de acesso à profissão de advogado, é obviamente preocupante, mas não me surpreende. De facto, sem prejuízo da estratégia de fundo adotada pela Ordem e defendida pelo seu Bastonário - cuja essência assenta na polémica e prematura eliminação do maior número possível de candidatos ao exercício da respetiva profissão, na prossecução de um objetivo que poderá eventualmente estar relacionado com o desejável afastamento de potenciais concorrentes dos seus atuais associados -, parece-me evidente que à menor duração do curso [que passou de cinco para quatro anos e, nalgumas universidades, para três (!!!) anos] terá que corresponder uma menor preparação dos alunos. Se àquela acrescentarmos outras causas como, por exemplo, a eliminação das orais obrigatórias, o menor grau de exigência, o laxismo de alguns professores, a facilidade em copiar nos exames ou a substituição da leitura dos manuais pela leitura de resumos elementares da matéria dada, não será difícil concluir que os resultados obtidos estão dentro das previsões mais realistas. Pergunto, ainda assim, se a Ordem não poderá corrigir, até ao exame final, na medida em que a formação dada no estágio ocorre durante um período de dois anos, alguma impreparação dos seus estagiários e (alguns) futuros associados? E, já agora, atendendo a alguns murmúrios que se escutaram aqui e ali, será que o tipo de exame feito é o mais adequado para se apurar os conhecimentos e a preparação dos examinados com vista à prática futura?

publicado por adignidadedadiferenca às 23:38 link do post
03 de Abril de 2012

 

 

A propósito da releitura que estou a fazer do hiperclássico Madame Bovary, a famosa história de Emma, mulher adúltera e sensual do médico de província Charles Bovary, escrito pelo soberbo Gustave Flaubert - responsável pelo desenvolvimento de  um novo tipo de realismo e acusado, na época (1857), de ofensas à moral pública e à religião -, não resisti à tentação de recordar este exemplo supremo da escrita talentosa e deliciosa de Julian Barnes, uma mistura notável de humor, crítica, ficção, realidade, solidão, arte e filosofia, retirado d’O Papagaio de Flaubert, que se constrói precisamente sobre a vida do genial romancista e que é, para mim, a sua obra-prima: «Deixem-me contar-lhes por que não gosto nada de críticos. Não pelas razões habituais: serem criadores falhados (geralmente não são, podem ser é críticos falhados, mas isso é outro assunto); ou serem por natureza maus, invejosos e vaidosos (geralmente não são; o mais de que os podemos acusar é de serem ultragenerosos, de sobrevalorizaram obras menores para que assim a sua perspicácia sobressaia). Não, a razão por que odeio os críticos – bem, às vezes – é porque escrevem frases deste género: Flaubert não constrói as suas personagens, como fazia Balzac, através da descrição exterior e objectiva; de facto, é tão descuidado com o aspecto exterior delas que uma vez dá a Emma olhos castanhos, outra olhos de um negro profundo, e outra olhos azuis. Esta acusação precisa e desanimadora foi lançada pela Dra. Enid Starkie, já falecida, leitora jubilada de Literatura Francesa na Universidade de Oxford, e a mais exaustiva biógrafa de Flaubert na Grã-Bretanha. (…) Devo confessar que todas as vezes que eu li Madame Bovary nunca notei o arco-íris dos olhos da heroína. Deveria ter notado? E vocês? Talvez eu estivesse muito ocupado a reparar em coisas que escaparam à Dra. Starkie (embora neste momento não pense quais possam ter sido). (…) A minha leitura poderá ser inútil em termos de história da crítica literária; mas não é inútil em termos de prazer. Não posso provar que os leitores leigos têm mais prazer nos livros que os críticos profissionais; mas posso apontar-vos uma vantagem que temos sobre eles. Podemos esquecer. A Dra. Starkie e os seus camaradas estão amaldiçoados com a memória: os livros sobre os quais ensinam e escrevem não se lhes podem apagar do cérebro.

 

 

Entretanto, o leitor comum mas interessado pode esquecer; pode partir para outra, ser infiel com outros escritores, voltar a extasiar-se de novo. Na sua relação, a conjugalidade não precisa nunca de se introduzir; pode ser uma relação esporádica, mas, enquanto existe, é sempre intensa. Não há vestígios de rancor diário que se cria quando as pessoas vivem juntas bovinamente. Nunca me acontece recordar a Flaubert, com uma voz fatigada, que pendure o tapete da banheira ou que use o piaçaba. O que parece é que a Dra. Starkie não é capaz de deixar de o fazer. (…) Olhos castanhos, olhos azuis. Será importante? Não, é importante se o escritor se contradiz; mas será que é importante de que cor são realmente? Tenho pena dos romancistas que têm de mencionar os olhos das mulheres: a escolha é tão limitada, e seja qual for a cor escolhida traz inevitavelmente implicações banais. (…) Acabei de reler Madame Bovary. (…) E a moral da história é, penso eu: nunca se assustem com uma nota de rodapé. Eis as seis referências que Flaubert faz aos olhos de Emma Bovary ao longo do livro. É evidente que se trata de um assunto de certa importância para o romancista: ‘O que tinha de belo eram os olhos: apesar de serem castanhos, pareciam pretos por causa das pestanas…’, ‘Os seus olhos pareciam-lhe maiores, especialmente quando estava a acordar e abria e fechava as pálpebras muitas vezes de seguida; eram negros quando estava à sombra e azul-escuros à luz do Sol; e pareciam ter camadas de cor sucessivas, que, mais espessas no fundo, se tornavam mais delgadas na superfície, que parecia esmaltada.’, (Num baile à luz das velas) ‘Os seus olhos negros pareciam ainda mais negros.’, ‘Fixando-o com os seus grandes olhos negros muito abertos.’, ‘Os seus olhos negros.’, e ‘Os seus olhos nunca tinham sido tão grandes, tão negros, tão profundos.’ Seria interessante comparar o tempo gasto por Flaubert a certificar-se de que a sua heroína tinha os olhos invulgares e difíceis de uma adúltera trágica com o tempo gasto pela Dra. Starkie a depreciá-lo.»

Excerto de O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, tradução de Ana Maria Amador.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:37 link do post
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