a dignidade da diferença
29 de Janeiro de 2012

 

As Unthanks apossaram-se literalmente do reportório musical de Robert Wyatt e de Antony & The Johnsons (magnífico e peça central na história da música popular contemporânea o do primeiro, francamente sobrevalorizado e xaroposo o do segundo), dispensando eventuais adornos excessivos e lapidando-o até este atingir a sua forma mais pura e transparente, isto é, apenas vozes e o acompanhamento instrumental rigorosamente indispensável. As irmãs Rachel e Becky oferecem-nos assim uma jóia rara e preciosa, bela, frágil e delicada como o cristal. E, já agora, aproveitando a publicidade que vi a um filme recente (creio que ocorreu no passado dia 24 de Janeiro), apetece-me dizer algo como isto: melhor disco do ano até ao momento...

 

publicado por adignidadedadiferenca às 18:43 link do post
29 de Janeiro de 2012

 

 

A obra de um dos mais estimáveis cineastas da história do cinema francês, Jacques Demy, tem visto lentamente a luz do dia através do seu lançamento periódico em DVD, cuja edição mais recente - de Lola, (1960), La Baie des Anges (1962) e Une Chambre en Ville (1982) - se deve à excelente iniciativa tomada pela Midas. Conhecido principalmente pelos seus filmes cantados, Les Parapluies de Cherbourg (1963) e Les Demoiselles de Rochefort (1966), torna-se forçoso reconhecer que a restante obra de Demy merece uma reavaliação estética, designadamente, mas não só, o belíssimo Lola (estreia de Demy como autor de longas-metragens) e o magnífico e viciante La Baie des Anges. Correspondendo ao começo da sua carreira, ambos revelam já por inteiro o universo particularíssimo do cineasta francês: os encontros e desencontros amorosos, o cruzamento natural entre fantasia e realidade, ou uma acentuada tonalidade melancólica que funciona como contraponto à doçura generalizada dos ambientes, adicionando à mise en scène um travo final agridoce. A maestria técnica – que sobressai em cada plano da sua mise en scène – e a dinâmica de Demy, esta última influenciada pelo trabalho de Max Ophuls ou de Jean Cocteau, têm uma elegância misteriosa e rara. Às suas personagens, Demy atribui-lhes uma doçura (mas também o seu negativo), uma fragilidade e uma sensibilidade únicas, características essenciais que, acompanhadas por uma tensão que nasce das suas relações recíprocas, conferem ao cinema do autor francês o estatuto certeiro de clássico moderno, para cujo equilíbrio e diversidade estética contribui significativamente a óptima música de Michel Legrand.

 

 La Baie des Anges

24 de Janeiro de 2012

 

 

«Os romancistas devem agradecer a Flaubert, da mesma forma que os poetas agradecem à Primavera: tudo começa de novo com ele. Podemos realmente falar de um tempo antes de Flaubert e de um tempo depois dele. Flaubert estabeleceu decisivamente aquilo que grande parte dos leitores e escritores vêem como a moderna narração realista, e a sua influência é quase demasiado familiar para ser visível. Quase nunca elogiamos a boa prosa quando esta favorece o detalhe brilhante e revelador; quando privilegia um alto nível de registo visual; quando mantém uma pose não sentimental e sabe quando se abster, como um bom valete, de fazer comentários supérfluos; quando busca a verdade, mesmo sob o perigo de nos repelir; e quando as impressões digitais do autor sobre tudo isto são, paradoxalmente, identificáveis mas invisíveis. Conseguimos encontrar alguns destes factores em Defoe, Austen ou Balzac, mas todos eles só em Flaubert.»

James Wood, A mecânica da ficção (tradução: Rogério Casanova)

 

 

Conferir, por favor, nos magníficos e inovadores (para a época) bordados literários que são Salammbô, Madame Bovary e, sobretudo, A Educação Sentimental.

18 de Janeiro de 2012

 

 

Fazemos aqui um pequeno intermezzo à interrupção anteriormente anunciada para homenagear um dos mais conhecidos e dos maiores intérpretes de J. S. Bach , o holandês Gustav Leonhardt, que morreu esta semana com 83 anos de idade. Fazêmo-lo através deste excerto de um dos mais célebres filmes de Jean-Marie Straub e de Danièle Huillet, o magnífico Crónica de Anna Magdalena Bach, para o qual Gustav Leonhard contribuiu ao representar - ninguém seria, de facto, mais adequado - o papel do genial compositor. A ideia foi roubada descaradamente daqui.

 

15 de Janeiro de 2012

 

Regressamos na próxima semana. Por agora, motivos de força maior impedem-nos de dar um mínimo de atenção ao blogue. De qualquer forma, a pausa vai ser tão curta que nem vão reparar. Até já…

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 12:46 link do post
12 de Janeiro de 2012

  

 

Há música de que gostamos muito mas da qual, por falta de tempo ou de espaço, não tivemos oportunidade de falar na devida altura, ou seja, no momento em que se deu a conhecer ao mundo. Este disco de Bugge Wesseltoft, intitulado Playing, já é de 2009 – embora suponhamos que no nosso país apenas foi lançado em 2010 – e é uma pequena maravilha, à qual apetece voltar repetidas vezes. Trata-se de um registo introspectivo com um subtil acento electrónico, uma releitura da tradição com a louvável e conseguida intenção de lhe oferecer um enquadramento contemporâneo através de um eloquente cunho pessoal. No fundo, uma síntese belíssima das matrizes musicais de Charlie Parker ou de John Coltrane, passadas pelo crivo de Miles Davis (o de Kind of Blue) e do piano de Bill Evans, revistas pela sóbria maturidade musical de Wesseltoft e espelhadas no seu temperamento nórdico e na sua alma cheia de blues. Um candidato legítimo a futuro clássico.

 

Singing

publicado por adignidadedadiferenca às 13:12 link do post
09 de Janeiro de 2012

 

 

«E deve notar-se que, sendo a arte a forma intensa de individualismo, o público trata de exercer sobre ela uma autoridade que é tão imoral como ridícula e tão corruptora como desagradável. A culpa não é toda sua. O público foi sempre, em todos os tempos, mal educado. Pede-se constantemente que a arte seja popular, para satisfazer a sua falta de gosto, para adular a sua absurda vaidade, para lhe dizer o que já antes lhe foi dito, para lhe mostrar o que já devia estar cansado de ver, para o divertir quando se sente pesado depois de ter comido de mais, e para distrair os seus pensamentos quando está cansado da sua própria estupidez.» (A Alma do Homem sob o Socialismo, traduzido por Maria da Graça Morais Sarmento)

Pensamentos, Relógio D’Água Editores

06 de Janeiro de 2012

 

 

Hoje revimos  Luz de Inverno, de Ingmar Bergman, o nosso filme preferido dele logo após o genial Persona. Tivemos a oportunidade de assistir à mais absoluta interpretação de Ingrid Thulin e, sobretudo, de rever uma cena da qual já não nos recordávamos: o diálogo assombroso estabelecido entre o pastor Tomas Eriksson (representado por Gunnar Björnstrand) e o sacristão Algot Frövik. Na perspectiva deste último – que padecia de uma prolongada e dolorosa deficiência física – é dado nos Evangelhos um ênfase excessivo ao sofrimento físico de Cristo (e, por experiência própria, sabia bem do que falava) quando comparado com o abandono a que foi votado pelos apóstolos (sem excepção) – um deles, Paulo, chegou até a contradizê-lo – e pelo Pai. Naquele momento, crivado pelas dúvidas que lhe surgiram sobre a veracidade do que andara a pregar, isto é, confrontando-se com o definitivo silêncio de Deus, insuportável para ele foi o sofrimento moral. Arrepiante e inesquecível. Exemplo supremo - mas não único - de um filme espantoso sobre a tragédia das relações humanas, o silêncio, a razão e o vazio.

 

Outra das sequências admiráveis do filme...

publicado por adignidadedadiferenca às 01:21 link do post
05 de Janeiro de 2012

Mais do que a relevância dada aos eleitos, o que realmente marca nas habituais listas dos melhores do ano é o esquecimento a que imerecidamente são votadas algumas das mais belas gravações daquele período. Aproveitamos, por conseguinte, a ocasião para reparar essa injustiça. De fora ficaram e não deviam: The Unthanks, Amy Winehouse (uma recolha que, embora algo desequilibrada, revela que o melhor ainda estava para vir), Nina Nastasia (escutado apenas em 2011, mas foi afastado porque o disco é do ano anterior), PJ Harvey, St. Vincent (do género primeiro estranha-se depois entranha-se), Fujiya & Miyagi, Joe Lovano, The Bill Dixon Orchestra (com a reedição do revolucionário e inclassificável Intents and Purposes), Wave Pictures, o veteraníssimo Paul Simon (há anos que não reunia numa única gravação uma colecção de canções tão boa), The Feelies (um óptimo e abrasivo regresso), a magnífica leitura que Christina Pluhar fez de Vespro Della Beata Vergine, de Monteverdi, e a soul clássica de Sharon Jones & The Dap-Kings. Deixamos então a nossa lista (perfeitamente aleatória) dos preferidos. Hoje apresentamos esta, amanhã, muito provavelmente, seria outra bem diferente.

 

Alela Diane & Wild Divine

 

 Anna Calvi

 

Björk, Biophilia

 

Charles Bradley, No Time For Dreaming

 

Donizetti/Netrebko/Garanča/Pidò, Anna Bolena (DVD)

 

Fred Hersch, Alone at the Vanguard

 

 Hidden Orchestra, Night Walks

 

Jono McCleery, There Is

 

June Tabor, Ashore (ou Ragged Kingdom, com a Oyster Band)

 

Laura Marling, A Creature I Don't Know

 

 Lisa Batiashvili/Esa-Pekka Salonen, Echoes of Time

 

Liszt/Barenboim/Boulez, The Liszt Concertos

 

Liszt/Nelson Freire, Harmonies du Soir

 

Marty Ehrlich's Rites Quartet, Frog Leg Logic

 

Miles Davis Quintet, Live in Europe 1967

 

My Brightest Diamond, All Things Will Unwind

 

Steve Reich/Kronos Quartet, WTC 9/11

 

Thao & Mirah

 

Tom Waits, Bad As Me

 

tUnE-yArDs, Whokill
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