a dignidade da diferença
31 de Dezembro de 2011

 

Foi um ano bom para a música portuguesa. É certo que não tivemos direito a ofertas de valor absolutamente extraordinário, não houve música que rompesse com os critérios previamente definidos, inventando novas coordenadas ou fronteiras estéticas. Mas houve uma muito razoável diversidade sonora e louváveis e afirmativas demonstrações de personalidade e maturidade musical, com especial destaque para o magnífico regresso dos Dead Combo, com o waitsiano Lisboa Mulata, a inesperada gravação dos fados e das canções de Fernando Alvim - na medida em que nos habituámos a ver nele apenas a sombra de Carlos Paredes -, o esqueleto sonoro do depurado e essencial Animal (Osso Vaidoso), o ágil e sedutor clacissismo de Cristina Branco ou para a surpreendente e singular visão reichiana vinda do interior do país pela mão dos Campanula Herminii. Desilusões? Talvez duas, porque totalmente inesperadas: as mais recentes gravações de B Fachada e de Sérgio Godinho. Aqui fica então a nossa lista dos prováveis dez melhores (que podia perfeitamente incluir mais dois ou três discos sem perda assinalável de qualidade - estamo-nos a lembrar, por exemplo, do último trabalho de César Prata).

 

Aquaparque, Pintura Moderna

 

 Campanula Herminii, Cumeada

 

Carlos Bica & Azul, Things About

 

Ciclorama, A Presença das Formigas

 

Cristina Branco, Não Há Só Tangos em Paris

 

Dead Combo, Lisboa Mulata

 

Fernando Alvim, Fados & Canções do Alvim

 

Kubik, Psicotic Jazz Hall

 

Os Lacraus, Os Lacraus Encaram o Lobo

 

Osso Vaidoso, Animal

 

25 de Dezembro de 2011

 

A nossa lista dos filmes mais marcantes que foram exibidos ao longo do ano não é, para manter a tradição, muito extensa (bem pelo contrário). Não só porque a qualidade média daqueles esteve longe de nos surpreender, mas ainda por força do escasso tempo disponível para assistir às diversas estreias cinematográficas. Dois factores que, em conjunto, contribuíram decisivamente para esta escolha francamente reduzida. Como forma de ultrapassar esta pequena insuficiência achámos por bem juntar à nossa lista um conjunto de obras-primas que mereceram a sua primeira edição nacional em DVD, cuja excelência da mise-en-scène merece obviamente figurar nesta e em quaisquer outras listas que se venham a elaborar sobre os melhores filmes do ano, da década ou do século. Razão pois então para aqui deixarmos, no total, dez filmes e mais um, Faust, cuja estreia nacional aguardamos ansiosamente dado o carácter singular e o talento genial do seu autor, Alexander Sokurov. E não vamos embora sem referir que, contra a opinião quase generalizada, não ficámos deslumbrados com a mais recente obra de João Canijo, o hipervalorizado Sangue do Meu Sangue, cujas mise-en-scène (forçada em demasia) e visão estética do realizador perdem ingloriamente quando comparados com o excelso trabalho dos admiráveis actores.

 

Woody Allen, Meia-Noite em Paris

 

David Cronenberg, Um Método Perigoso

 

 Monte Hellman, Road to Nowhere

 

Charles Laughton, A Sombra do Caçador (DVD)

 

Kenji Mizoguchi, Os Amantes Crucificados (DVD)

 

 Kenji Mizoguchi, Os Contos da Lua Vaga (DVD)

 

Nanni Moretti, Habemus Papam

 

 Alexander Sokurov, Faust

 

Andrei Ujică, Autobiografia de Nicolae Ceauşescu 

 

Luchino Visconti, Senso (DVD)

 

Frederick Wiseman, Crazy Horse 

18 de Dezembro de 2011

 

Julian Barnes, O Sentido do Fim

 

Saul Bellow, Jerusalém Ida e Volta

 

Elias Canetti, Auto-de-Fé

 

Dulce Maria Cardoso, O Retorno

 

Frédéric Chaubin, CCCP Cosmic Communist Constructions Photographed
 

Witold Gombrowicz, Ferdydurke

 

Vassili Grossman, Vida e Destino

 

A.C.Grayling, O Livro dos Livros

  

Guy de Maupassant, Contos Escolhidos

 

 Cesare Pavese, A Praia

11 de Dezembro de 2011

 

Senso, mítico filme de 1954, foi editado finalmente em DVD (parabéns à Alambique, mais ainda se nos recordarmos que também é a responsável pela edição do singularíssimo The Night of the Hunter, filme único do celebérrimo actor Charles Laughton). A obra-prima absoluta de Luchino Visconti (lugar potencialmente disputado apenas por Il Gattopardo) é um dos mais extraordinários filmes europeus de toda a história do cinema. Nele se retratam os últimos meses da ocupação austríaca do Veneto, filmados em prodigioso registo operático e sob uma cor luminosa (inclassificável fotografia), dando lugar a um magnífico e paradoxal drama musical, uma abissal vertigem de traições políticas e paixões desesperadas, a qual, num percurso paralelo ao do som da enleante Sétima Sinfonia de Bruckner pelas ruas de Veneza, oferece a Alida Valli a sua entrada directa para a mitologia. Um filme admirável, cuja mise en scène se destaca de modo superlativo - como acontece, quase sempre, com o verdadeiro cinema de autor - , e que deve ser visto e revisto muitas vezes.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 03:17 link do post
08 de Dezembro de 2011

 

Ainda a propósito da homenagem, levada a cabo pela Cinemateca Portuguesa nos meses de Dezembro e Janeiro, a Nicholas Ray, por ter ocorrido o centenário do seu nascimento, pareceu-nos uma óptima ideia trazer à colação este magnífico texto de João Bénard da Costa, retirado do catálogo sobre o genial cineasta publicado pela própria Cinemateca - quando organizou o primeiro ciclo sobre a obra daquele -, onde é explicada, se preciso fosse, à luz do pensamento godardiano, a absoluta modernidade do cinema de Nick Ray. Melhor e mais bela explicação não conheço. Uma das razões que ajuda a compreender a necessidade de continuar a existir críticos (e crítica), seja do que for, desde que, obviamente, não se limitem a olhar para o seu umbigo. Como se percebe neste texto, para o qual contribuem duas funções vitais: a didática e a transmissão da paixão pelo cinema (e o cinema de Ray é daqueles que mais se proporciona para criar paixões excessivas nos seus espectadores). Fiquem então com a prosa:

 

 

«Muitas vezes citei Godard, nessa tão bela crítica que escreveu “au-delà des étoiles” – porventura o seu mais belo texto. Encontrarão na antologia a citação integral e no artigo de Victor Erice também. Mas, numa e noutra, falta uma nota de pé de página capital (de Godard, obviamente). Era quando dizia, no início do texto, que já “havia o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein), a música (Renoir). Agora há também o cinema. E o cinema é Nicholas Ray”. E remetia para uma nota em que afirmava: “Esta classificação pode parecer arbitrária e sobretudo paradoxal. Não é nem uma coisa nem outra. É verdade que Griffith era inimigo jurado do teatro, mas do teatro do seu tempo. A estética de The Birth of a Nation ou One Exciting Night é a mesma da do Richard III ou do As You Like It. Se Griffith inventou o cinema, inventou-o com as mesmas ideias com que Shakespeare inventou o teatro. Inventou o “suspense” com as mesmas ideias com que Corneille inventou a “suspensão”. Do mesmo modo, dizer que Renoir é a música ou Rossellini é a pintura, quando se sabe que o primeiro adora quadros e o segundo odeia telas, não é gosto do paradoxo. É simplesmente reconhecer que o autor de The River se aproxima de Mozart e o de Europa 51 de Velazquez. Um procura pintar estados de alma, outro caracteres, se é legítimo simplificar tão grosseiramente.

 

 

Trata-se, pois, como se vê, de definir cineastas pelo que há de mais profundo neles, pela qualidade da sua invenção. Em Renoir, por exemplo, o número três corresponde a um “tempo” musical, enquanto que em Eisenstein corresponde a uma obsessão espacial. Eisenstein é a dança porque, no mais profundo dos seres e das coisas, procura, como a dança, a imobilidade no movimento.” Se, nessa nota, Godard explicou, quase didaticamente, as fórmulas aparentemente arbitrárias, a crítica a Bitter Victory é feita para explicar porque é que o cinema é Nicholas Ray. Explica-o através do “gouffre” que separa este filme de todo o cinema anterior, ainda redutível a outras artes. Victor Erice, no artigo que adiante se publica, fala admiravelmente dessa acepção e de como Godard podia ser dos raros a perceber a dimensão do “abismo”, do “gouffre”, que separava Bitter Victory de todo o cinema anterior. Este filme já é outra coisa, como só o cinema posterior ajudou a perceber e particularmente o de Godard. É o filme em que a banda-imagem abre para a banda-palavra e não a cega nem a oculta. Por isso, Godard dizia que “como o sol, Bitter Victory nos faz fechar os olhos”. O que Nick tentou e não conseguiu (por intervenções alheias) no Jesse James, aconteceu em Bitter Victory. A obra de cinema total.»

 

 

04 de Dezembro de 2011

 

 

Este é o ano do centenário do nascimento de Nicholas Ray (falecido em 1979) e a Cinemateca Portuguesa decidiu homenagear o genial cineasta norte-americano exibindo, durante este mês de Dezembro e o próximo mês de Janeiro, a sua obra completa. É uma oportunidade única para avaliarmos como a passagem do tempo tratou o cinema de Ray: a sua inquietude, o seu lirismo, a ambiguidade, a dimensão poética e humana das personagens, a abissal poesia visual ou a prodigiosa arquitectura dos cenários. Nick Ray, o mais secretamente amado, sobretudo pela crítica europeia, dos cineastas de Hollywood, criou uma das obras mais assombrosas e emocionais da história do cinema. Os seus filmes, mesmo quando revelam algumas imperfeições, são, ainda assim, quase sempre admiráveis, provocando fatalmente uma atracção nos espectadores.

 

 

Na sua essência está a sensação de perda e a dor magoada dos seus heróis, o conflito de gerações, as suas relações obsessivas, excessivas, tormentosas, demasiado humanas e sentimentais. Mas não só, também por lá passa, muitas vezes, uma dimensão trágica, cruel ou confessional, o delírio pungente do cinemascope, uma fulgurante visão estética personalizada ou a exploração profunda da vida enquanto experiência humana íntima e irrepetível. Um cineasta que atravessa os mais variados géneros cinematográficos, deixando em todos eles a visão pessoal de um realizador como é timbre do genuíno cinema de autor, cuja relevância estética alguma crítica recente e ignorante procura desvalorizar. Uma carreira que começou com o belíssimo e premonitório They Live By Night, da qual, sem negar a importância relativa que uma lista destas terá, os nossos filmes preferidos talvez sejam In a Lonely Place, On Dangerous Ground, The Lusty Men, Johnny Guitar, Rebel Without a Cause, Bigger Than Life, Bitter Victory ou Party Girl.

 

 
«Havia o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rossellini), a dança (Eisenstein), a música (Renoir). Agora, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray.»
Jean-Luc Godard 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 01:56 link do post
02 de Dezembro de 2011

 

 

Acabou de ser publicado, em edição nacional da Quetzal, o mais recente trabalho do escritor Julian Barnes, The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, na tradução portuguesa de Helena Cardoso), o qual, como é do conhecimento comum, foi galardoado com o Man Booker Prize 2011. Depois, sobretudo, dos extraordinários O Papagaio de Flaubert e Nada a Temer, Barnes, neste livro, apura ainda mais a sua escrita elegante, aperfeiçoando a construção das frases, recorrendo mais habilmente ao humor e à mordacidade ou descobrindo soluções surpreendentes para a narrativa, conjugando superiormente um clima de crescente tensão com não raros momentos de sublime delicadeza. Tudo magistralmente aproveitado para o seu autor nos oferecer uma agridoce meditação sobre o peso da memória e a instabilidade do nosso conhecimento. Um livro soberbo.

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