a dignidade da diferença
31 de Agosto de 2011

 

 

America über alles! Sorrisos, risinhos. Momentos de silêncio, e depois… o maestro Botstein compromete-se, espontaneamente, a apoiar o «relançamento» de Enescu no mundo. Solicita uma proposta detalhada para a reestruturação e informatização do arquivo, para o relançamento das gravações, para a edição e difusão internacional da obra e para o início de uma biografia monumental sobre o compositor. Uma batuta imaginária eleva, em crescendo, o apelo do maestro. «Se conseguirmos levar toda a obra enesciana para as salas de concerto, então a história da música deste século reservará a Enescu um lugar ao lado de Bartók e Szymanovski. O século está, como sabem, sob a obsessão Schönberg-Stravinski. Bartók marginalizado, por ser húngaro, Enescu, por ser romeno, os americanos, por serem americanos. Esta visão vai mudar. Enescu não vai mais ser visto como um exótico, mas sim como o mestre das sínteses, um criador de originais ideias musicais. A Polónia comunista adoptou Chopin, a República Checa adoptou Smetana, e não Dvorak, os húngaros tiveram problemas com Bartók, até que Kodály interveio em seu favor. Enescu precisa de uma reentrada gloriosa no mundo! É um momento oportuno apressemo-nos.»

Norman Manea, «O Regresso do Hooligan», tradução de Carolina Martins Ferreira

 

 

28 de Agosto de 2011

 

Círculo de Cor II, August Macke

 

August Macke nasceu a 3 de Janeiro de 1887 e, após ser chamado para o serviço militar, morreu em combate a 26 de Setembro de 1914. Influenciado inicialmente pelo impressionismo – sobretudo a poesia de Manet, os pastéis de Degas e a representação da sociedade parisiense de Toulouse-Lautrec -, Macke, sempre atento às inovações estéticas, foi amadurecendo e desenvolvendo o seu estilo, fortemente inspirado, a partir de 1905, nos fauvistas. Mas foi por volta de 1913 que a arte pictórica de Macke atinge o seu cume. Após mais uma reviravolta estética, a sua pintura volta-se agora para a abstracção, liberta-se dos espartilhos formais, entende-se com o cubismo e o futurismo numa busca permanente por novas formas, nova dinâmica e novos temas. É na sua fase futurista que Macke se deixa impressionar pelo trabalho de Delaunay, cuja aproximação é particularmente visível no Círculo de Cor II (de 1913), inspirado conscientemente pelas Formas Circulares e Sóis de Delaunay (do mesmo ano). A pintura de Macke transcende-se e ganha maior complexidade em comparação com o estilo demasiado bonito e acessório de Delaunay, mas aqueles quadros, como acertadamente refere Anna Meseure, «exercem um efeito tão abstracto como ilustrações científicas sobre a origem e a composição das cores e tão poético como o relato dramático do nascimento das cores da pureza alva da luz».

 

Formas circulares, Delaunay 

24 de Agosto de 2011

 

 

Desde a sua aparição no hiperclássico Singin’ in the Rain, o corpo de Cyd Charisse sempre representou mecânica, dinâmica e movimento. Quando deixou Gene Kelly literalmente de joelhos no assombroso bailado em que dança durante quatro minutos, Cyd Charisse deu uma nova vida ao musical. As mais belas pernas de Hollywood contracenaram com Fred Astaire no genial Band Wagon (1953) e, de novo, com Gene Kelly no mágico e encantador Brigadoon (1954), ambos de Vincente Minnelli. Sinuosa e carnal no primeiro, branca, generosa e fatídica no segundo.

 

 

 

Com Mamoulian, foi moscovita no Ninotchka musical, isto é, em Silk Stockings, onde lhe coube representar o papel que pertenceu anteriormente a Greta Garbo. Como escreveu Bénard da Costa, a propósito do bailado em que Charisse retira as meias de seda debaixo da almofada, «depois desse filme, nunca mais ninguém teve pernas». Porém, a Cyd Charisse mais assombrosa e mais actriz surgiu no espantoso Party Girl, do outsider Nicholas Ray. Neste filme excessivo e expressivo, trágico e sombrio, paradigma da modernidade e dado a paixões extremas, Cyd Charisse quase não dança – apesar dessa inesquecível mulher-leopardo -, quase não canta; é prodigiosamente ambígua, simultaneamente angélica e demoníaca, trágica e felina.

 

 

21 de Agosto de 2011

 

 

«Para Borges, a realidade residia nos livros; em ler livros, em escrever livros, em falar de livros. Intimamente tinha consciência de estar a prolongar um diálogo iniciado há milhares de anos. Um diálogo, em seu entender, interminável. Os livros restauravam o passado. “Com o tempo”, dizia-me ele, “qualquer poema se converte numa elegia.” Não tinha paciência para as teorias literárias em voga e acusava em especial a literatura francesa de não se concentrar em livros, mas em escolas e camarilhas. Adolfo Bioy Casares disse-me uma vez que Borges era o único indivíduo que, no que se refere à literatura, “nunca se entregou às convenções, ao hábito ou à preguiça”. Foi um leitor desordenado que se contentava, muitas vezes, com resumos do argumento e com artigos enciclopédicos, e que por muito que admitisse não ter acabado o Finnegans Wake, podia dar alegremente uma conferência sobre o monumento linguístico de Joyce. Nunca se sentiu obrigado a ler um livro até à última página. A sua biblioteca (que, como a de qualquer outro leitor, era também a sua biografia) reflectia a sua crença no acaso e nas leis da anarquia. “Sou um leitor hedónico: nunca consenti que o meu sentimento do dever interviesse num gosto tão pessoal como a aquisição de livros”.»

Alberto Manguel, in Com Borges, Ambar, tradução de Miguel Serras Pereira.

publicado por adignidadedadiferenca às 00:28 link do post
16 de Agosto de 2011

 

 

A par da ortodoxia estética do socialismo dos países da Europa de leste, naturalmente integrada numa corrente ideológica assente numa construção simplista e esquemática, muitas outras opções estéticas, mais complexas e desalinhadas com o espírito da época, surgiram durante as décadas de 70, de 80 e de 90 do século passado. É o que se alcança após a leitura do magnífico CCCP Cosmic Communist Constructions Photographed, da autoria do fotógrafo Frédéric Chaubin (com edição da Taschen também em português), que retrata a arquitectura das repúblicas da antiga União Soviética. Assim, algo inesperadamente, objectos singulares e ousados, verdadeiro paradigma do modernismo, convivem com o imobilismo geral, construções diversificadas na forma e na utilização do espaço, enriquecidas por ínfimos detalhes, desafiavam escalas e recusavam esgotar-se naquele meio tão envelhecido e planificado.

 

 

 

  

Por outro lado, já o disco Between or Beyond the Iron Curtain, Rare Grooves from Eastern Europe 1967-1978, veio demonstrar, em 2001, que a música desses países não tinha necessariamente que obedecer aos parâmetros estético-políticos da ideologia dominante. O que por lá se fazia, como podemos constatar ao escutar Wojciech Karolak, Gustav Brom, Adam Makowicz, Novi Singers ou Jazz Celula, entre outros, era francamente inspirador. Desafios constantes às regras estabelecidas, desenhos melódicos e harmónicos obsessivos, dissonantes e atonais, explosões rítmicas esdrúxulas ou construções esculturais do mais fino recorte estético, habitavam o universo musical do leste europeu. Um objecto estético de referência, rico e moderno, com capacidade para não deixar ninguém envergonhado no confronto artístico com o mundo ocidental.

 

 

12 de Agosto de 2011

 

 

Nada a Temer, a mais recente obra do escritor britânico Julian Barnes, é um magnífico e melancólico livro que diverte e surpreende, um trabalho do mais fino recorte que convoca – no permanente diálogo que Barnes estabelece com o seu irmão filósofo - a literatura e, sobretudo, a cultura francesa (o que já acontecera no anterior e igualmente notável O Papagaio de Flaubert, romance - ou melhor, ensaio - que chamou à colação A Educação Sentimental do genial autor francês), a meditação filosófica, a religião. Pelo tema - o medo da morte: «as pessoas só acreditam na religião porque têm medo da morte» -, pela ironia, pela inteligência ou pela elegância da escrita, pelo seu subtil rendilhado. Não temos como evitar a morte, mas este livro desconcertante, que incomoda e nos faz meditar, ajuda-nos a superar o medo e a evitar a angústia. Pensando melhor, talvez nem isso. Mas quanto ao prazer literário, não temos nada a temer: é um trabalho que faz caretas à morte.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:58 link do post
09 de Agosto de 2011

Numa época tão controversa como a nossa, não nos parece mal recuperar o pensamento de John Stuart Mill (1806-1873) sobre a liberdade e enquadrá-lo nas sociedades hodiernas. Por força das múltiplas intervenções dos países ocidentais em países terceiros, onde vigoram leis e regimes substancialmente diferentes, dos constantes actos de terrorismo, das recentes revoltas no norte do continente africano, das convulsões sociais, do palco de violência em que Londres se tornou, ou do fundamentalismo islâmico, as ideias de Mill, parecendo óbvias na sua substância, justificam, pelo contrário, uma pertinente actualização resultante da sua ousadia assim como uma reflexão amadurecida. Como se pode verificar neste pequeno texto retirado do capítulo «Sobre os limites da autoridade da sociedade sobre o indivíduo», incluído no hiperclássico Sobre a Liberdade, traduzido por Pedro Madeira. Fica o aviso, pois o perigo continua à espreita.

 

 

«Também me parece um passo retrógrado, mas não me parece que qualquer comunidade tenha o direito de forçar outra a ser civilizada. Desde que os que sofrem com a má lei não peçam a ajuda de outras comunidades, não posso admitir que pessoas que nada têm a ver com elas intervenham e exijam que se deva acabar com um estado de coisas com o qual todos os directamente interessados parecem estar satisfeitos, só porque esse estado de coisas constitui um escândalo para pessoas a milhares de quilómetros de distância, que nada têm a ver com isso e a quem não diz respeito. Que enviem missionários, se quiserem, para pregar contra isso; e que se oponham ao progresso de semelhantes doutrinas bárbaras entre o seu próprio povo por quaisquer meios justos (entre os quais não se conta o silenciamento dos que as ensinam). Se a civilização levou a melhor à barbárie quando a barbárie dominava inteiramente o mundo, é exagerado temer que a barbárie, após ter sido completamente derrotada, venha a ganhar novo fôlego e conquiste a civilização. Uma civilização que pode sucumbir assim ao seu inimigo derrotado teve primeiro de se ter tornado tão degenerada, que nem os seus padres e professores qualificados, nem qualquer outra pessoa, tem a capacidade de a defender – ou se dará ao trabalho de o fazer. Se isto for assim, quanto mais depressa tal civilização receber ordem de despejo, melhor. Só pode ir de mal a pior, até ser destruída e regenerada (como o império ocidental) por bárbaros enérgicos.»

07 de Agosto de 2011

 

 

Nascido em Nova Iorque, em 1947, Murray Perahia é um pianista e maestro mundialmente reconhecido. Estudou no Mannes College, de Nova Iorque, e viu a sua carreira lançada quando venceu o Concurso Internacional de Piano de Leeds, em 1972. Perahia tocou acompanhado por grandes orquestras e ganhou inúmeros prémios durante a sua longa carreira. Mas, na verdade, não é bem isso o que nos interessa. Dono de uma técnica irrepreensível, o pianista domina o instrumento como poucos. Contudo, desprezando as efusivas e inócuas manifestações de virtuosismo, prefere imprimir ao seu instrumento de eleição uma dinâmica, uma agilidade e uma respiração profundamente originais e colocadas apenas ao serviço da música.

 

 

Notável intérprete de Mozart - cuja obra dirigiu, muitas vezes, directamente do piano -, é, porém, com Songs Without Words (no qual interpreta Bach/Busoni, Mendelssohn e Schubert/Liszt), de 1999, e Goldberg Variationen (de Bach), de 2000, que o talento de Murray Perahia atinge a sua máxima expressividade. Percorrendo todas as notas até lhes explorar magnificamente o silêncio, Perahia assina duas obras admiráveis, cujas peças são idealizadas com uma concisão, uma diversidade e uma descrição ímpares; o caso não é para menos: o pianista norte-americano transcreve, improvisa e canta passagens melódicas de um lirismo e de uma fragilidade absolutamente comoventes.

 

03 de Agosto de 2011

Através do testemunho cru e impressionante de gente comum que viveu os anos de terror de Estaline, o historiador britânico Orlando Figes consegue, no extraordinário Sussurros, A Vida Privada na Rússia de Estaline (já anteriormente referido neste blog), retratar a natureza odiosa, cruel e brutal de um regime alimentado pela demência do seu líder, pela cumplicidade de todo o aparelho partidário e pelo medo que a polícia política causou a um número impressionante de inimigos do povo, destruindo qualquer tipo de relações humanas. Felizmente, muitos deles sobreviveram para contar os anos de sofrimento, de coragem, de denúncias e do terror que lhes foi infligido. Fica aqui um dos exemplos mais comoventes que regista a marca da brutalidade de um regime que só a estupidez ou a ignorância conseguem legitimar.

 

 

O marido de Liza foi preso por ser apoiante de Zinoviev (…) e a seguir também ela foi presa. Certo dia, Liza recebeu uma carta de Zoia; a carta chegou-lhe às mãos num sábado, o dia em que os prisioneiros estavam autorizados a escrever cartas, justamentequando ela estava a escrever à filha. «Querida Mamã, tenho quinze anos e estou a pensar em entrar para o Komsomol. Tenho de saber se és culpada ou não. Penso constantemente como é que tu podes ter atraiçoado o poder soviético? Tínhamos uma vida tão boa, e tu e o Papá eram operários. Lembro-me muito bem da vida que nós tínhamos. Tu fazias-nos vestidos de seda e compravas-nos doces. Eram mesmo “eles” (os inimigos do povo) que te davam esse dinheiro? Teria sido melhor andarmos vestidas de algodão. Mas se calhar não és culpada. Nesse caso, não adiro ao Komsomol, e nunca lhes perdoarei o que te fizeram. Mas, se és culpada, vou deixar de te escrever, porque amo o nosso governo soviético e odeio os nossos inimigos e, se fores nossa inimiga, também te odeio a ti. Mamã, diz-me a verdade. Preferia que não fosses culpada, e nesse caso não entro para o Komsomol. A tua filha que se sente muito infeliz, Zoia.» Liza já tinha usado três das quatro páginas que estava autorizada a escrever à filha. Reflectiu por momentos e a seguir encheu a quarta página com grandes letras maiúsculas, dizendo-lhe o seguinte: Zoia, tens razão. Sou culpada. Entra para o Komsomol. É a última vez que te escrevo. Sê feliz, tu e a Lialia. Mãe. Liza mostrou a correspondência a Olga e a seguir bateu com a cabeça na mesa; depois, com a voz embargada pelas lágrimas, disse-lhe: «É preferível que ela me odeie. Como é que ela podia viver sem o Komsomol? Seria uma estranha. Passaria a odiar o poder soviético. É preferível que me odeie a mim.»

publicado por adignidadedadiferenca às 13:00 link do post
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