a dignidade da diferença
16 de Julho de 2011

 

Uma boa notícia: durante quinze dias estão dispensados de nos aturar; período em que não vos iremos aborrecer com as nossas histórias. O tempo será aproveitado, isso sim, para pôr a leitura em dia e ouvir, muito naturalmente, alguma música no intervalo dos banhos de sol. Refrescante e, de preferência, com muitas pedras de gelo. Quanto à leitura levaremos na bagagem, por exemplo, Contos do Pacífico, de Jack London, A Queda de Roma e o Fim da Civilização, de Bryan Ward-Perkins, Viagem ao Fim da Noite, de Céline ou Victoria, de Knut Hamsun. Até ao nosso regresso, que será breve, fiquem, a propósito, com esta pequena pérola - um excerto do filme As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati.

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:27 link do post
13 de Julho de 2011

 

 

Às vezes tenho ideias, felizes,

Ideias sùbitamente felizes, em ideias

E nas palavras em que naturalmente se despegam...

 

Depois de escrever, leio...

Porque escrevi isto?

Onde fui buscar isto?

De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta

Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

 

Poesias de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, engenheiro naval (por Glasgow) - estudou primeiro engenharia mecânica -, mas inactivo em Lisboa. Alto, magro, de cara rapada - como, aliás, Alberto Caeiro e Ricardo Reis - cabelo liso e monóculo. Segundo uma carta escrita por Fernando Pessoa e dirigida a Adolfo Casais Monteiro, Álvaro de Campos «escrevia razoàvelmente mas com lapsos como dizer "eu próprio" em vez de "eu mesmo", etc».

publicado por adignidadedadiferenca às 22:30 link do post
11 de Julho de 2011

 

 

«Schopenhauer foi o primeiro a dizer que todas as artes aspiram à condição da música; este comentário tem sido repetido com demasiada frequência e tem dado origem a um ror de equívocos, mas nem por isso deixa de exprimir uma verdade importante. Ao formulá-lo Schopenhauer tinha em mente as qualidades abstractas da música; na música, e quase só nela, é possível ao artista dirigir-se directamente à sua audiência sem que entre ambos intervenha um meio de comunicação em uso corrente para outros fins. O arquitecto tem de expressar-se por meio de edifícios com um fim utilitário qualquer. O poeta tem de usar palavras que andam de boca em boca no toma-lá-dá-cá das conversas quotidianas. O pintor, de uma maneira geral, exprime-se por meio de representações do mundo visível. Só o compositor musical tem perfeita liberdade para criar obras de arte a partir da sua própria consciência, e sem outro fim que o de deleitar o ouvinte. Mas este desejo de deleitar é comum a todos os artistas, e ainda a mais simples e a mais usual de todas as definições de arte a isto se limita: tentativa de criar formas deleitáveis. Tais formas comprazem o nosso sentido do belo, sentido que se satisfaz quando podemos discernir uma unidade ou harmonia de relações formais entre as nossas percepções sensíveis.»

Herbert Read, The Meaning of Art, tradução de A.
Neves-Pedro

publicado por adignidadedadiferenca às 00:26 link do post
09 de Julho de 2011

 

 

Há dias, no blog Sound + Vision, João Lopes manifestou a sua preocupação pela actual e generalizada falta de educação cinematográfica. Dizia o conhecido crítico, com legítima preocupação, «como é que um espectador formado (?) apenas a ver filmes como este (Transformers 3) se pode alguma vez interessar por um épico de Griffith, um drama de Bergman ou uma comédia de Jerry Lewis? A resposta é simples: não pode. Porquê? Porque não sabe e, sobretudo, porque foi educado para não querer saber». Ontem, porém, numa conversa circunstancial que tivemos com uma colega de trabalho, verificámos que, felizmente, ainda não são todos assim. Dizia ela, com agrado e alguma surpresa, que o seu filho de 15 anos adorava ver os clássicos do cinema dos anos 40 ou 50, ao contrário dos colegas da mesma idade. Citava, como exemplos, o Citizen Kane, de Orson Welles, o VertigoA Janela Indiscreta, ambos de Hitchcock, ou A Laranja Mecânica de Kubrick. Filmes que ela, a propósito, aproveitava para (re)ver com o filho. E já estava convidada para assistir ao Dr. EstranhoAmor. Talvez ainda não se sinta a diferença entre este adolescente e os seus colegas. Mas, mais tarde, ela irá naturalmente revelar-se. É que um vai ter espírito crítico, vai saber que o cinema – e não só – tem memória, vai poder comparar o que se faz hoje com o que se fez ontem e, nessa medida, vai ter uma capacidade superior à dos colegas para avaliar e valorizar determinada obra em termos estéticos. Enquanto a ignorância vai impedir os colegas de distinguir o velho do novo – pois não se irão aperceber como, muitas vezes, aquilo que aparentemente lhes surje como novidade já foi, na realidade, criado anteriormente e até com uma qualidade francamente superior -, a educação contracorrente do filho da nossa colega vai atirá-lo, em princípio, para um patamar superior. Talvez nem tudo esteja perdido.

publicado por adignidadedadiferenca às 11:26 link do post
03 de Julho de 2011

Ascenseur Pour L'Échafaud (1958), Miles Davis

 

 

Ascenseur Pour L’ Échafaud (1958), assinado pelo cineasta Louis Malle e fundado na estética Nouvelle Vague, contribuiu de forma muito acentuada para a revelação súbita das qualidades ímpares de uma nova estrela, Jeanne Moureau. Mas se o glamour cerebral e realista de Moureau dificilmente se esquece, a verdade é que, pelo menos para os melómanos, o filme de Louis Malle fica na memória por uma razão ainda mais essencial: a sua banda-sonora. Trata-se de uma magnífica partitura improvisada da autoria de Miles Davis, recheada de esboços melódicos do trompete em surdina, percorrendo desenhos rítmicos sinuosos elaborados milagrosamente com uma clareza de ideias notável, servindo como contraponto perfeito para a atmosfera noir do filme de Malle. Uma gravação extraordinária, sobretudo se pensarmos que Miles nunca antes tinha tocado com os seus cúmplices nesta aventura europeia, que iluminou o trajecto do músico rumo ao genial Kind Of Blue.

 

 

02 de Julho de 2011

 

 

«É uma pena que Ptolemeu – pai indiscutível da geografia moderna – ficasse indelevelmente identificado com uma astronomia obsoleta! Uma das razões de Ptolemeu, o geógrafo, ocupar um lugar tão apagado na história deve-se ao facto de sabermos tão pouco da sua vida. Egípcio grego ou grego egípcio, usava um nome comum no Egipto alexandrino e, por acaso, o de um dos companheiros mais íntimos de Alexandre, o Grande. Outro Ptolemeu tornou-se governador do Egipto por morte de Alexandre e depois proclamou-se rei e fundou a dinastia ptolemaica, que governou o Egipto durante três séculos (304-30 a.C.). Mas esses Ptolemeus foram apenas reis, enquanto o nosso Ptolemeu foi um homem de ciência.»

 

Daniel J. Boorstin, «Os Descobridores», tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

publicado por adignidadedadiferenca às 00:49 link do post
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