a dignidade da diferença
29 de Junho de 2011

A famosa Residência Tischler, Greenfield Avenue, Westwood (1949-1950) é um dos mais admiráveis exemplos do talento «escultural» de Schindler, das suas assombrosas formas arquitectónicas de exploração do espaço - uma espécie de fuga à mecanização racional -, configurando a síntese perfeita da evolução que foi sofrendo o seu vocabulário único, novo, funcional, verdadeiro paradigma do modernismo. Uma obra-prima, como, a propósito e com uma clareza notável, explica James Steele:

 

 

«A Residência Tischler apresenta uma fachada inescrutável para a estrada, um telhado de empena de madeira dividido ao meio por uma fina clarabóia vertical. Tudo isto assenta numa base de estuque com uma forma de T invertido com portas para a garagem ao nível da estrada, sob o que parece ser, visto da Greenfield Avenue, uma unidade compacta de três andares, mas que de facto é apenas o princípio de um plano horizontal alongado que roda a 180º do seu centro para se relacionar com a vista do jardim. O telhado de empena uma vez mais parece flutuar acima das paredes, especialmente porque Schindler utilizou painéis de fibra de vidro azuis translúcidos para permitir que a luz seja filtrada pelos caibros numa das mais expressionistas exibições perto do final da sua carreira.» (Tradução de Constança Santana)

publicado por adignidadedadiferenca às 00:11 link do post
27 de Junho de 2011

 

Num país onde um número assustador de gente irresponsável copia descaradamente, sem ter ainda a mínima noção das consequências negativas que lhes trará o facto de fazer parte do grupo do desenrascanço em prejuízo do conhecimento, este livro – Histórias de Cábulas, de John Croucher - parecia destinado a ter um certo sucesso. Não foi o caso, mas ainda assim damos-lhe aqui o destaque relativamente merecido. Trata-se de uma obra ligeira, com alguma piada, que nos marca encontro com diversas histórias delirantes de alunos viciados em cábulas, de vigilantes anticábula, de desculpas esfarrapadas, esquemas delirantes, entre outras histórias igualmente deliciosas. Todas aconteceram, como é bom de ver, em época de exames. Vejam esta, por exemplo.

 

 

«A morte de um familiar próximo é compreensivelmente um acontecimento traumático, que merece a compreensão que normalmente desperta nos examinadores. A morte de um familiar distante que residia há vários anos no estrangeiro pode contudo ser olhada com cepticismo quando um estudante procura usá-la em seu benefício. Nalgumas universidades pede-se uma certidão de óbito ou uma cópia de notícia de jornal no caso de o estudante procurar adiar um exame com base no acontecimento. Normalmente, esse documento é acompanhado de uma carta do estudante com uma pequena descrição do que se passou. Em seguida transcrevem-se passos de três cartas em que os estudantes se referem à morte de familiares: Infelizmente o meu pai morreu antes de ter sido cremado. Nesse dia tive de ir ao velório, isto porque a minha mãe morrera antes do funeral. Depois da morte do meu marido enterrei-me nos livros.»

publicado por adignidadedadiferenca às 00:14 link do post
22 de Junho de 2011

 

Temos desde há muito formada a opinião que vai no sentido de considerar, atendendo às actuais circunstâncias, a filosofia, enquanto centro de ideias e de reflexão do mundo contemporâneo, algo adormecida ou mesmo cristalizada. Temos vindo a reparar, com alguma apreensão, que a filosofia tem andado recentemente desligada dos problemas concretos que a sociedade nos coloca, já não os discute com a mesma acuidade, veemência e diversidade com que o fazia desde a Grécia Antiga. Devemos confessar que não temos quaisquer ilusões sobre o mundo em que vivemos, e, na verdade, nunca nos prometeram que iríamos viver num belo mar de rosas, mas, ainda assim, pensamos que um pouco de filosofia no meio dos centros (quase deixava escapar antros) de decisão política ou económica era capaz de não ser má ideia. O mundo, pelo menos, não seria pior. E sabe melhor quando sabemos que a opinião é, em traços gerais, partilhada. Aqui fica o registo.

 

 

«Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los. Quem tiver não apenas plena consciência de que muitos seres humanos não desistem de pensar quando os problemas são muito complexos, mas tiver também uma ideia precisa, ainda que elementar, de como se pensa sobre esses problemas, terá ganho, se não autonomia intelectual, pelo menos a possibilidade de a obter. Assim, a importância pública de uma formação, ainda que elementar, em filosofia é a possibilidade de ganhar autonomia para pensar por si, com rigor, em problemas difíceis. Queremos melhores decisões empresariais, políticas, sociais, económicas, mas quando essas decisões não vêm nos livros estrangeiros, ficamos sem saber como proceder, envolvendo-nos em pseudodiscussões plenas de lugares comuns, com muita retórica e pouca substância.»

 

Desidério Murcho, «Filosofia em Directo»

publicado por adignidadedadiferenca às 00:48 link do post
17 de Junho de 2011

 

 

Assusta-nos imenso que futuros magistrados revelem esta absoluta falta de princípios e este tipo de comportamento tão pouco ortodoxo (já nem nos referimos à tamanha demonstração de estupidez) – terá condições para julgar quem não tem a mínima noção do que é viver em sociedade como um ser livre e responsável? Inquieta-nos igualmente que a direcção do CEJ – Centro de Estudos Judiciários não tenha encontrado uma solução melhor do que a tornada pública para penalizar os prevaricadores – enfim, atribuir 10 valores por se considerar - como afirmou Luís Eloy, director-adjunto do CEJ - «a solução mais equilibrada, já que estamos no fim do ano lectivo e já havia outros exames marcados, o que impedia a repetição deste teste», não nos faz mudar a opinião de que, no fundo, o que se procurou foi evitar uma grande maçada. Toda esta trafulhice é decepcionante, mas, infelizmente, já não nos surpreende (como, a propósito, se pode ver aqui). É só mais um caso triste de gente responsável que lida com este tipo de problemas com a mesma sensibilidade do elefante quando entra numa loja de porcelanas. A directora da instituição, por exemplo, veio dizer que «quem nunca prevaricou na faculdade que atire a primeira pedra». É verdade, mas, até hoje, não se tinha pactuado com situações destas e o copianço nunca atingiu esta dimensão. Será que ninguém repara na diferença de preparação entre quem é aprovado por copiar e quem passa porque realmente sabe? Este país e esta sociedade estão a mudar. Não nos convencem de que é para melhor.

publicado por adignidadedadiferenca às 22:12 link do post
12 de Junho de 2011

 

 

Luís F. Rodrigues, especialista em urbanismo, expõe, numa linguagem assaz clara e precisa - escapando sabiamente ao perigoso enfado técnico que o tema poderia transportar -, as principais causas de desorganização, descaracterização, degradação e desqualificação das nossas cidades. Como bem nota o autor «não é necessário percorrer Portugal de norte a sul para perceber que algo de errado se passou (e ainda passa) na forma como construímos as nossas cidades: edifícios que descaracterizam a paisagem, congestionamentos viários e dificuldades de circulação, ausência de espaços verdes e de lazer, etc., são alguns dos muitos problemas detectados pelos cidadãos». Manual de Crimes Urbanísticos é um livro essencial para se compreender como foi possível chegarmos a esta situação quase insustentável, para a qual contribuiu a constante violação das regras básicas de planeamento urbano, os negócios imobiliários, o avanço arrepiante dos centros comerciais, o despesismo irracional e os interesses privados. Uma obra notável que se traduz num magnífico exercício de cidadania, na medida em que não se limita a diagnosticar a doença, como também propõe a panaceia. E não termina sem fazer um chamamento à nossa responsabilidade para mudar o actual estado de coisas. Para que o cada vez maior número de portugueses que reside em cidades deixe de ser vítima da ganância e do abuso de alguns.

07 de Junho de 2011

 

«Mizoguchi está para o cinema como Bach para a música, Shakespeare para a literatura e Tiziano para a pintura. É o maior», Jean Douchet

 

Os Contos da Lua Vaga

 

Surge, por fim, com distribuição da Monroe Stahr, a oportunidade de ver (e de guardar religiosamente), em edição nacional, dois dos mais belos e extraordinários filmes do genial cineasta japonês, Kenji Mizoguchi - em cópias restauradas e, sobretudo a de Os Amantes Crucificados, num estado imaculado. Trata-se dos celebérrimos e míticos Ugetsu Monogatari (Os Contos da Lua Vaga), de 1953, e Chikamatsu Monogatari (Os Amantes Crucificados), de 1954, assinados depois de fundada a glória ocidental quando os europeus abriram os olhos para o cinema de Mizoguchi durante a apresentação de Saikaku Ichidai Onna (A Vida de O’ Haru), no Festival de Veneza de 1952, a quem foi atribuído o Leão de Prata - que Os Contos da Lua Vaga e  Sanshô Dayú (O Intendente Sansho) conquistaram sucessivamente -, após o sucesso imediatamente anterior de outro japonês: Akira Kurosawa (com Rashomon, As Portas do Inferno).

 

 

Os Amantes Crucificados

 

Mizoguchi assina ambos os filmes num período em que já domina na perfeição a sua suprema e inesgotável arte pictórica e narrativa como, por exemplo, o uso assombroso e preciso do plano-sequência para evidenciar os instantes de intensa densidade psicológica, a maestria dos travellings, as admiráveis elipses figurativas, a dimensão sobrenatural, ou os lentíssimos e admiráveis movimentos de câmara envoltos numa sublime poesia visual. E temos ainda a compaixão e a dimensão trágica dos personagens, o sentido estético e a fulgurante capacidade para pintar autênticos quadros nas sequências que filma (a luz de Vermeer e Rembrandt, as cores de Tiziano, o renascimento…), a melódica e harmónica estrutura arquitectónica, ou o imenso amor que o cineasta nutre pelas mulheres traduzido na exemplar expressão da sua complexidade psicológica, moral e social. E fiquemos por aqui para evitar que nos estendamos indefinidamente. O cinema de Mizoguchi, mesmo após a passagem de todos estes anos, continua a ser um bálsamo para os sentidos.

02 de Junho de 2011

 

Henri Rousseau, Cigana a Dormir, 1897

 

A tensão entre o ameaçador e o pacífico é indissolúvel. De onde vem o vento que faz esvoaçar a juba do leão nesta calma noite de luar? Será que a linha rígida da margem não interpõe uma parede de cenário protectora entre dois factos incompatíveis entre si? Será que o animal selvagem é parte do sonho que a mulher estranhamente demoníaca está a viver? Será que se trata de uma projecção erótica do próprio pintor que, na pele do leão, imagina a sua bela vítima? (…) Todas estas questões desvanecem-se perante o facto «imagem» cujo princípio de montagem revela – para usar o mesmo termo que André Breton – a «influência de causalidades mágicas». (…) Esta obra-chave da arte fantástica supera o Simbolismo da época, podendo, por isso, ser vista como precursora da pintura metafísica de Giorgio de Chirico. Pois não é a ideia codificada que compõe o conteúdo, mas sim a realidade dos factos deslocados. O impossível torna-se real; o observador vê-se confrontado com os limites da linguagem.

Cornelia Stabenow, Henri Rousseau, Taschen, 1998, Tradução: Ruth Correia

 

 

Giorgio de Chirico, Gladiadores e Leão, 1927

publicado por adignidadedadiferenca às 23:41 link do post
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