a dignidade da diferença
28 de Abril de 2011

 

«A História não se engana: os Portugueses de Quatrocentos e Quinhentos, ao longo de um processo evolutivo de mais de cem anos, foram os pioneiros na inovação tecnológica e geoestratégica numa época de transição. Valeram-se do improviso organizacional, de uma lógica incremental e de um pensamento “out-of-the-box”. Souberam agarrar uma janela de oportunidade da História que não se repetiria. Este livro demonstra, com base numa investigação científica, a originalidade portuguesa.»

 

Jorge Nascimento Rodrigues/Tessaleno Devezas, Portugal O Pioneiro da Globalização

 

 

 

É verdade, porém, já foi há muito, muito tempo. A relevância de Portugal no mundo foi um facto, mas surge hoje apenas como mera curiosidade histórica. Já fomos uma nação importante que gerações consecutivas de governantes incompetentes trataram de colocar no estado em que está, naquilo em que se tornou: um país de pedintes, incapaz de se governar, por culpa própria e também por causa da visão demolidora dos mercados financeiros que decidiram apostar tudo na bancarrota dos Estados. Mas quanto ao trabalho de casa estamos conversados; o crescimento do PIB foi decaindo década após década, mas, para “compensar”, o défice público (e privado) cresceu assustadoramente. Andámos a gastar mais do que produzimos e era inevitável que acabássemos assim. Será o fim da (nossa) história? Talvez não seja caso para tanto, mas falta quem se chegue à frente e pense no futuro com a lucidez necessária. Até à data, continuam a opinar sempre os mesmos, aqueles que já nos governaram, que trazem consigo as mesmas ideias e o mesmo descaramento. Haja paciência…

25 de Abril de 2011

 

 

«James Mason nunca fez de Heathcliff. Nunca ouvimos a voz dele perguntar pelo cheiro das urzes ou amaldiçoar a selvagem e meiga Cathy. Mas quase todos os seus grandes papéis são variações sobre essa personagem e ninguém o descreveu melhor do que Emily Brontë na célebre passagem em que Heathcliff regressa a Trushcross Grange, quando era Setembro e era lua e a ferocidade do olhar dele dizia do desejo de enforcar todos os seres, excepto um. Era daí que vinha a alquimia da sua voz, a viagem à pátria das sombras e dos turbilhões, a danação do arco-íris, a doce e mortal dentada da felicidade. Com ele, como com Rimbaud, que estou a traduzir livremente, essa felicidade só podia ser fatalidade, remorso e verme. Com a voz, também ele escreveu silêncios e noites e todas as coisas que, no escuro, se podem passar entre um homem e uma mulher. Com a voz, também, ele gravou o inexprimível e fixou vertigens. Foi, sozinho, uma ópera fabulosa. Adamante e Senhor do Navio.»

 

João Bénard da Costa, Muito Lá de Casa, Assírio & Alvim

 

 

Ninguém melhor do que Bénard da Costa para descrever o extraordinário actor que foi James Mason. Dos imensos papéis que fez, guardamos memória sobretudo dos personagens que fez nos anos 50 e 60 do século passado. Foi, entre outros, o ambíguo e venenoso Cícero (Five Fingers, de Mankiewicz), o odioso Rommel (The Deserts Rats, de Hathaway), e participou, com Judy Garland, no sublime A Star is Born, de Cukor. O apogeu, porém, só o atingiu no assombroso Bigger Than Life, de Nicholas Ray, conhecido em Portugal como Atrás do Espelho, onde inventa literalmente Ed Avery, o protagonista que por causa da dependência de um remédio, passa sucessivamente da inquietação ao desespero, atingindo este último e incontrolável estado no celebérrimo e assustador plano em que pretende matar o filho, julgando-se acima de Deus e procurando «corrigir-lhe» o erro. Um patamar de excelência que voltou a atingir no genial North by Northwest, de Hitchcock, onde interpreta o terrível e fascinante vilão Philip Vandamm, ou ainda nesse espantoso Humbert que vive numa vertiginosa sofreguidão pela Lolita de Kubrick, que Adrian Lyne transformou anos mais tarde numa indesculpável versão para adolescentes imberbes, copinhos de leite e parolos.

publicado por adignidadedadiferenca às 01:18 link do post
20 de Abril de 2011

  

 

«Rainer Maria Rilke (1875-1926), poeta de dimensão universal, nascido em Praga quando esta cidade ainda pertencia à Áustria, tendo vindo a morrer na Suíça, ergueu na sua obra maior As Elegias de Duíno a grande sinfonia da sua vida e do seu tempo, percorridos pela inquietação e pela angústia, dilacerados pela I Guerra Mundial, envoltos nas vagas das novas filosofias – Kierkegaard, Nietzsche, Bergson -, atraídos pelas novas descobertas no campo da psicologia humana – Freud – e no campo da ciência e da tecnologia. Se a vida e a morte impressionam profundamente a sua sensibilidade, não menos o fazem o amor e a dor, a alegria e a tristeza. Na genial e dolorosa experiência da escrita de As Elegias de Duíno, Rilke encontra o elo de união entre todas essas realidades diversas e o tom elegíaco, expresso em ritmos livres, dá lugar ao tom elegíaco-hínico, uma vez que o equilíbrio encontrado se exalta e proclama. A amplitude dos versos ora se expande ora se concentra num ritmo mais sincopado que inclui elipses e alterações da estrutura sintáctica. Rilke dá continuidade, nesse tom elegíaco-hínico, à herança de Hölderlin, poeta que lê fascinado e a quem dedica um poema de homenagem em Setembro de 1914, que noutro lugar divulgámos em nova tradução.»

 

Maria Teresa Dias Furtado, introdução a As Elegias de Duíno, Assírio & Alvim.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:42 link do post
16 de Abril de 2011

 

 

Os sinais são cada vez mais preocupantes. A nossa classe política dá mostras de uma incompreensível irresponsabilidade, arrogando-se no direito de ir sacudindo a água do capote na questão da negociação da dívida com o FMI e a União Europeia. As mentiras da nossa classe dirigente – a dos dois maiores partidos – sucedem-se em catadupa, seja na forma como foi dado conhecimento ao PSD do PEC4, seja nas circunstâncias em que ocorreu a reunião do Conselho de Estado com o nosso Presidente da República, após a convocatória deste. A Europa dos 27 revela-se perigosamente desunida e é o próprio FMI que, contra a posição da União Europeia, assume a preocupação de «proteger» os interesses de Portugal, na medida em que defende o prolongamento da ajuda externa e o pagamento do empréstimo a uma taxa de juros mais reduzida. Se a tudo isto acrescentarmos o inenarrável congresso socialista do passado fim-de-semana, as dúvidas legitimamente levantadas sobre a verdade das nossas contas públicas, ou, por exemplo, as indignas jogadas estratégicas político-partidárias com o único objectivo de se conquistar mais uns votos, à custa precisamente daquele que se intitulava como alternativa aos candidatos do sistema, só podemos tirar uma conclusão: isto vai de mal a pior, a nossa imagem é a de um país miserável e pedinte, e não se afigura fácil a caminhada que permita ao Estado satisfazer, pelo menos, os compromissos mais básicos e urgentes. Os nossos credores elegeram-nos como o alvo a abater e nós, no meio de tanta leviandade, salvo raras excepções, ainda não percebemos que os custos serão insustentáveis pois não teremos capacidade para os pagar…

publicado por adignidadedadiferenca às 23:48 link do post
13 de Abril de 2011

 

 

«O princípio da separação de poderes – trave-mestra dos regimes políticos democráticos e, consequentemente, dos sistemas de governo que com ele coexistem – pressupõe, não apenas a distribuição do poder estadual por diversos órgãos de soberania, mas também a implementação de processos de controlo que previnam eventuais abusos no exercício de tais poderes. Sucede que, ao admitir-se no plano constitucional a possibilidade de um ou mais daqueles órgãos de soberania ficarem isentos da responsabilidade política pelos seus comportamentos, activos ou omissivos, são os próprios equilíbrios básicos em que o modelo assenta que ficam negativamente afectados. E isso ocorrerá tanto mais quanto maior for a amplitude dos poderes cometidos àqueles que se encontram excepcionados desse dever de responder pelos actos que lhe são imputáveis.»

 

José de Matos Correia e Ricardo Leite Pinto, A Responsabilidade Política, Univ. Lusíada Editora

publicado por adignidadedadiferenca às 23:52 link do post
09 de Abril de 2011

 

 

Com uma elegância e um talento literário admiráveis, Saul Bellow oferece um amplo espaço para uma profunda reflexão sobre um país controverso, permanentemente atormentado, onde mudam os protagonistas mas permanece o conflito. O modelo clássico da literatura de viagens serve como mero pretexto para Saul Bellow avançar rumo a uma visão histórica que abrange a cultura e a identidade judaicas, os seus problemas sociais e tensão política. E não há o mínimo receio de encontrar nesta obra quaisquer maçadoras certezas ideológicas, pois do que ele se alimenta é de conversas atormentadoras, de magníficas histórias humanas relatadas por gente comum, isto é, pelos inúmeros intervenientes que fizeram e ainda fazem a história de uma nação inevitavelmente acossada pela actual conjuntura geopolítica. Um livro imenso onde o autor, apesar da gravidade do tema, não dispensa, aqui e ali, um brilhante travo humorístico, e, numa história de contradições, crueldade e paixões, enche os seus personagens com uma densidade, dignidade e compaixão ímpares e absolutamente inesperadas. Como afirma Carlos Vaz Marques, no prefácio, Jerusalém Ida e Volta «é um livro político. Sê-lo-ia mesmo que o autor pretendesse evitá-lo. Como tudo o que diz respeito a Israel, é um relato votado, desde o início, à controvérsia.» Trata-se, em suma, da história de uma cidade, Jerusalém, que «não dá tréguas a quem a visita, onde em praticamente tudo se jogam questões de vida ou de morte.»

publicado por adignidadedadiferenca às 12:04 link do post
06 de Abril de 2011

 

 

A casa que procura formar, educar e aprofundar o gosto cinematográfico, e oferecer condições para a fruição de um bem estimável como é o cinema a muita gente, passa actualmente por momentos financeiramente complicados, fruto das novas regras de gestão orçamental. As restrições deixaram, nas palavras da sua directora, Maria João Seixas, «a autonomia administrativa e financeira da casa gravemente afectada». As sessões diárias foram reduzidas, os filmes não legendados deixaram de ser acompanhados pela legendagem electrónica porque acabaram as verbas destinadas a esse serviço. E, mais grave ainda, a directora da Cinemateca avisa que «o espólio e o arquivo da Cinemateca podem estar em risco», devido às regras que impedem os organismos públicos de gerir o seu orçamento. Ou seja, de corte em corte, fruto deste capitalismo selvagem galopante que tudo devora e definha, lá vamos assistindo à continuada deterioração do nosso património cultural, o qual, no caso concreto, também é universal. Uma notícia triste para quem tanto gosta de cinema e passou tardes e noites incontáveis no edifício da Rua Barata Salgueiro.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:57 link do post
03 de Abril de 2011

 

Eis aquela que é, quanto a nós, a discografia essencial de June Tabor - e ainda ficam de fora, pelo menos, os excelentes Aqaba, No More to the Dance (Silly Sisters) e Apples -, a mais extraordinária cantora britânica da actualidade. Musical e geograficamente situada algures entre a folk clássica, a tradição europeia, o renascimento e a literatura medieval, June Tabor abraçou não raras vezes a pop e cantou os seus mais extraordinários autores, criou, com Maddy Prior, as notáveis Silly Sisters, aderiu episodicamente ao exuberante festim punk da Oyster Band e - não há bela sem senão - não se deu assim tão bem com o jazz. Deixa-nos uma obra valiosíssima, uma verdadeira quimera, cujo capítulo mais recente - o devastador Ashore - é uma das suas jóias mais preciosas. O universo de June Tabor é o de uma excelsa e tradicional contadora de histórias; não procurem aqui o último grito da moda, nem os sintomas da mais recente novidade, pois o que encontram é a intemporalidade de uma voz grave, densa, majestosa - ultimamente acompanhada por um rigoroso, expressivo e luminoso ensemble instrumental -, tão essencial como o ar que respiramos. Experimentem, depois de a escutar, passar sem esta música.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 16:37 link do post
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