a dignidade da diferença
27 de Fevereiro de 2011

 

 

 

 

«E começamos a entender que há outra tensão que percorre a exposição: aquela que advém da oposição sempre latente entre um pólo demoníaco, onde não há senão as forças obscuras e os abismos do pathos, e um olhar racional, que conhece bem o significado da palavra funus e detém os meios que lhe permitem uma distância reflexiva, sem a qual, em última instância, não existiriam as fotografias (porque nenhuma arte pode nascer exclusivamente da região emotiva, não há expressão artística sem criação de um espaço de pensamento).»

António Guerreiro, excerto do texto publicado no Expresso

 

 

 

Makulatur é como se intitula a mais recente exposição de Paulo Nozolino, o mais consensual dos fotógrafos portugueses contemporâneos. Trata-se de uma relação tensa e pessoalíssima com a morte; um trabalho magnífico que reflecte o olhar intenso, profundo, doloroso e fantasmático do seu autor.

publicado por adignidadedadiferenca às 02:01 link do post
26 de Fevereiro de 2011

 

Guy de Maupassant é, a par de Tchékhov e do brasileiro Machado de Assis, um dos mais notáveis contistas universais. Autor de obras celebradas como, por exemplo, Bel Ami, Madame Fifi ou Bola de Sebo, Maupassant é considerado, ainda hoje, um dos precursores da literatura moderna. Contos do Insólito reúne alguns dos melhores contos do seu autor, os quais manifestam uma tendência para o fantástico e o sobrenatural. Os contos revelam uma linguagem envolvente e extremamente pessoal que reflecte uma particular proximidade na relação entre o narrador e os protagonistas, à qual se juntam ambientes insólitos, situações misteriosas, o factor surpresa e acasos improváveis. Esta invulgar combinação de recursos estilísticos e elementos dramáticos densifica, mas não sobrecarrega, um texto cuja substância provoca uma forte carga emotiva nos seus leitores, perturba-os pela sua intensidade e dramatismo, pelas relações de amor e ódio, pela presença da morte, e, nos melhores momentos, infiltra-se e produz pequenas modificações no seu subconsciente. Escritos no século XIX, os contos de Maupassant manifestam ainda hoje, pela sua estranheza e inquietude, uma capacidade invulgar para viciar os interessados na sua leitura.

publicado por adignidadedadiferenca às 12:23 link do post
23 de Fevereiro de 2011

No Jornal de Notícias de 21 de Fevereiro de 2011. «O primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou esta segunda-feira, que o primeiro lugar de Portugal no 'ranking' da Comissão Europeia são mérito dos funcionários da Administração Pública e considerou que "o país está farto da maledicência" relativamente a esta classe. "Em apenas cinco anos nós mudámos a face da Administração Pública, em termos electrónicos passámos de um modesto lugar, abaixo das médias europeias, para a liderança do Governo electrónico em termos de disponibilização dos serviços públicos 'online' e de sofisticação dos serviços, qualquer que seja o ângulo pelo qual se analise o ranking, não há dúvida que em Portugal obtivemos uma liderança absolutamente incontestável", disse. O chefe do Governo falava durante a apresentação do relatório europeu sobre serviços públicos electrónicos, que coloca Portugal em primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo. Na sua intervenção, que se seguiu às do ministro da Justiça e da Presidência, José Sócrates referiu-se aos que falam em reformas "sem ter feito nenhuma reforma" e defendeu que "aquilo que o país exige não é tanto o discurso retórico sobre reformas, mas é de quem as faça". "Eu venho aqui para homenagear todos os funcionários públicos portugueses, porque foram eles que deram o contributo para esta mudança, este primeiro lugar que obtivemos é da Administração Pública, dos funcionários públicos", afirmou Sócrates, considerando que o trabalho desta classe precisa "de ser mostrado e enaltecido". "O país está farto da maledicência sobre a Administração Pública e daquilo que significa o apoucamento dos funcionários públicos, a verdade é que em muitos domínios, Portugal está na linha da frente de uma Administração Pública eficaz, moderna e que presta bons serviços aos cidadãos e à economia”, referiu.»

 

 

Deve ser por estas razões – e jamais para manter os tachos dos boys do partido socialista e, obviamente, dos amigalhaços – que o seu governo decidiu cortar nos salários da Administração Pública. Mesmo considerando a medida inevitável, face às exigências cada vez maiores dos nossos credores, por força de uma péssima governação que fragilizou o país e o pôs mesmo a jeito - embora sejamos da opinião que muitas outras medidas deveriam ter sido tomadas antes do ataque aos salários dos funcionários públicos -, dificilmente deixaremos de admirar o descaramento do nosso (?) primeiro-ministro. Enfim, tanta hipocrisia de quem se julga impune - até quando? - não será razão para a sentir como mais um sintoma de que se aproxima perigosamente o fim da III República, mas que o povo começa a ficar farto, começa… 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:33 link do post
19 de Fevereiro de 2011

 

«70% de cábulas nas universidades. Para ter vergonha é preciso ser apanhado? Se a resposta for sim, a explicação da dimensão da fraude académica nas universidades portuguesas pode estar na diferença entre os alunos que admitem copiar e os que são apanhados: 70% já copiaram num exame e apenas 2,4% foram apanhados. Os dados são de um novo estudo sobre integridade académica coordenado por Aurora Teixeira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Para a investigadora, que nos últimos anos tem contribuído para a literatura internacional sobre o tema, os resultados revelam um verdadeiro flagelo no meio académico. A análise preliminar, avançada ao i, tem por base as repostas de 5403 estudantes de mais de 400 cursos e uma centena de escolas. Neste estudo Aurora Teixeira quis aprofundar os resultados de um inquérito realizado em 2005 junto de alunos de Gestão e Economia, centrado na cópia em exames. O novo inquérito realizou-se entre Maio e Julho de 2010 e questionou alunos de todas as áreas sobre comportamentos como o plágio, a compra de trabalhos ou assinaturas falsas em folhas de presença. Os resultados revelam que mais de metade dos alunos acredita que se copia deliberadamente e não porque a oportunidade surge ou por uma situação de pânico durante a prova. Pode concluir-se também que há uma continuidade neste tipo de comportamento: o estudo anterior, embora com alunos diferentes, revelava uma propensão para copiar de 62%. A percepção geral dos estudantes é que as práticas são reprováveis, mas não muito. Os alunos entendem ainda que haveria menos comportamentos desonestos se estudassem mais e organizassem melhor o tempo, mas também se os professores se interessassem mais pela sua aprendizagem. Para Aurora Teixeira, a experiência académica em Inglaterra e os estudos comparativos sobre este tipo de fraude permitem concluir que em Portugal existe uma lacuna na forma como as instituições lidam com o problema. "O comportamento desculpabilizante é transversal a toda a sociedade", defende. "Quando falamos com alguém que tem alguma responsabilidade nas escolas sentimos que a questão da ética é relegada para segundo plano." Apesar de Portugal não ter taxas de incidência tão elevadas como outros países europeus, por exemplo a Polónia, Aurora Teixeira frisa que as amostras portuguesas têm sido sempre maiores nos estudos comparativos, o que poderá ter atenuado a dimensão do problema. O estudo só estará pronto daqui a dois meses e permite a primeira avaliação do plágio nas universidades portuguesas, problema que Aurora Teixeira diz ultrapassar a cópia nos exames. De acordo com dados preliminares, 11,2% dos alunos inquiridos não citam fontes deliberadamente para "reclamar a originalidade de material copiado". Questionados sobre se já viram alguém fazê-lo, 43,6% responderam de forma afirmativa. Quase dois em cada dez estudantes admitem ter copiado "uma secção de um livro, artigo ou website e submetê-lo como seu". Para Aurora Teixeira, outro dado revelador é a dimensão da reciclagem de trabalhos: 45,6% dos estudantes já entregaram o mesmo trabalho em mais de uma disciplina. "Os casos graves que vêm a público só acontecem esporadicamente, mas quem lecciona tem a nítida noção de que o plágio nas universidades é um problema aterrador", afirma a investigadora.»

  

 

Esta fraude generalizada foi revelada, na semana passada, pelo jornal i. Temos a perfeita consciência de que o desemprego e a falta de oportunidades profissionais para os nossos jovens acabados de sair das universidades é um verdadeiro e preocupante flagelo social que urge ultrapassar. Porém, infelizmente, neste país a culpa morre solteira, a responsabilidade é sempre dos outros e nunca é partilhada. O que temos verificado na nossa experiência universitária é que os estudantes não estão grosso modo preocupados com a aprendizagem das matérias; não lhes interessa a substância, apenas tirar o curso. Geração à rasca? Sem dúvida. Mas colocamos a questão: estará ela verdadeiramente preparada para enfrentar os desafios que a sociedade contemporânea permanentemente lhe coloca? Se a licenciatura é a autorização que nos dão para estudar sozinhos, faltando essa base a 70% dos licenciados, não cremos que exista a tão necessária preparação.

publicado por adignidadedadiferenca às 12:45 link do post
17 de Fevereiro de 2011

 

O universo singular, intenso, dramático e espectral de Nina Nastasia está de regresso com o magnífico Outlaster. Estão de volta os textos incisivos e as linhas emocionais, as mãos frias e os gritos lancinantes, o pó do deserto, as fricções rítmicas, as melodias telegráficas e as dementes explosões sonoras, os quais, numa assombrosa estética da convulsão, criam a matriz, verdadeiro teatro de emoções, que forma o corpo das canções simultaneamente rudes e doces da autora norte-americana. Ou seja, com Outlaster, produzido novamente por Steve Albini, Nina Nastasia insiste nas suas orações nocturnas, nos versos literários esquálidos e desesperados, mas, desta vez, substitui a superior e subtil coordenação de um conjunto instrumental aparentemente desarrumado – confirmar nos anteriores e excelentes Dogs, The Blackened Air e Run To Ruin -, e devolve-nos as suas sombras desfiguradas através de um espantoso ensemble de câmara, responsável pela criação de um punhado de ameaçadoras peças musicais orquestradas em forma de tango fúnebre, golpeado antes da definitiva despedida, soltando os últimos espasmos de aflição, ódio e desespero. 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 23:22 link do post
15 de Fevereiro de 2011

 

Remorso Póstumo

 

Quando um dia dormires, ó bela tenebrosa / No fundo de um jazigo de mármore negro, / E quando só tiveres por alcova ou conchego / Essa fossa vazia, essa cova chuvosa;

 

Quando a pedra, oprimindo o teu peito medroso / E os teus flancos agora indolentes, privar / Esse teu coração de bater e de amar, / E os teus pés de seguir um curso aventuroso,

 

O túmulo, que sabe todos os meus sonhos / (porque sempre o coval há-de entender o poeta), / Nessas noites sem fim onde já não há sono,

 

Dir-te-á: «De que serviu, cortesã incorrecta, / Nunca teres conhecido o que choram os mortos?» / - E os vermes vão roer-te a pele como um remorso.

 

Baudelaire, As Flores do Mal, assírio & Alvim, tradução de Fernando Pinto do Amaral.

publicado por adignidadedadiferenca às 23:14 link do post
12 de Fevereiro de 2011

 

Sussurros – A vida privada na Rússia de Estaline, magnífico trabalho do historiador Orlando Figes, baseado numa aturada investigação dos arquivos de diários de gente comum, assim como nos relatos e testemunhos dos sobreviventes, retrata, numa linguagem física e pungente, o sofrimento infligido ao povo soviético pelo regime opressivo de Estaline, a sua perseguição obsessiva e cega aos «inimigos do povo», e revela até onde é capaz de chegar o requinte da crueldade e as provas de coragem de quem sofre. Uma obra inesquecível. Por seu lado, Andrei Béli, nascido em 1880, foi um dos maiores escritores do princípio do século XX. Representante fulcral da segunda geração simbolista russa, tornou-se também um dos precursores do futurismo dos anos 20. A substância de Petersburgo reside na questão da identidade nacional e Béli explora no romance uma linguagem metafórica, sinfónica, individualista e profundamente original. Uma obra-prima admirável e essencial.

 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 13:37 link do post
12 de Fevereiro de 2011

 

Quando um ditador se afasta, há sempre motivo para festejar. É indiferente ser de esquerda ou de direita, é-se apenas pela democracia. Para o povo egípcio a paciência também teve limites. É evidente que muitos são os cenários que se avizinham, mas, para os egípcios, o tempo agora é de merecida esperança. Até quando?

publicado por adignidadedadiferenca às 01:13 link do post
10 de Fevereiro de 2011

 

Se Busto resgatou o fado da sua condição local e lhe deu uma projecção universal, é, porém, no sublime Com Que Voz, gravado em 1970, que Amália atinge o pico das suas capacidades artísticas. Associado aos dois álbuns está o génio intelectual de Alain Oulman, determinante para que o fado de Amália Rodrigues atingisse esta nova dimensão. Com Que Voz - continuação da colaboração entre Amália e Oulman, iniciada com o magnífico Busto (1962) - é, na realidade, o álbum mais conseguido da fadista, o ponto em que o trabalho de ambos atingiu a plena maturidade musical. Já não é só a dor que comanda a voz, mas, sobretudo, a visão poética do canto, o requinte cultural, a extraordinária amplitude vocal, melódica e harmónica; parece existir, em suma, uma anunciada perfeição estética e formal, como se a voz de Amália estivesse sempre à espera destes textos e destas melodias para atingir a sua máxima expressividade. 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 22:48 link do post
07 de Fevereiro de 2011

 

A obra de Dvořák reflecte intensamente as suas influências estéticas: o nacionalismo, a música tradicional, a intuição melódica de Schubert, o classicismo de Brahms ou as orquestrações pastorais. E o melhor da sua obra encontra-se talvez na música de câmara. Jovial e enérgica, é nela que Dvořák revela o domínio absoluto da forma, especialmente do contraponto e da harmonia. Poderoso e vibrante, o Pavel Haas Quartet toca, com todos os seus elementos em perfeita sintonia, estes quartetos de cordas de forma rigorosa e admirável, acentuando todas as qualidades inatas da matéria-prima que o inspirou. 

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:19 link do post
06 de Fevereiro de 2011

 

«Penso, na verdade, que há alguma coisa correcta no relativismo cultural, e quero agora passar a dizer o que é. Há duas lições que devemos aprender com a teoria, ainda que acabemos por rejeitá-la. Primeiro, o relativismo cultural alerta-nos, de maneira correcta, para os perigos de pressupor que todas as nossas preferências estão fundadas numa espécie de padrão racional absoluto. Não estão. Muitas das nossas práticas (mas não todas) são particularidades exclusivas da nossa sociedade, e é fácil perder de vista esse facto. Ao recordar-nos isso, a teoria presta um bom serviço. (…) A segunda lição relaciona-se com a necessidade de manter o espírito aberto. No processo de crescimento, cada um de nós adquiriu algumas convicções fortes: aprendemos a aceitar alguns tipos de conduta e a rejeitar outros. Podemos, ocasionalmente, ver essas convicções postas à prova. (…) O relativismo cultural ao sublinhar que as nossas perspectivas morais podem reflectir preconceitos da nossa sociedade, fornece um antídoto para este tipo de dogmatismo. Quando conta a história dos Gregos e Calatinos, Heródoto acrescenta: Se se propusesse, fosse a quem fosse, que escolhesse de entre todas as tradições culturais as melhores, cada um, depois de reflectir maduramente, escolheria a sua, convencido que está de que a tradição em que nasceu é de longe a melhor. Perceber isto pode levar-nos a uma maior abertura de espírito. Podemos compreender que os nossos sentimentos não são necessariamente percepções da verdade – podem não ser mais do que o resultado do condicionamento cultural. Assim, quando ouvimos alguém sugerir que um aspecto do nosso código social não é realmente o melhor, e damos por nós a resistir a esta sugestão, podemos parar e recordar isto. Podemos ficar então mais abertos à descoberta da verdade, seja ela qual for.»

Rachels, James, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, 1.ª Edição, 2004. Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves  

publicado por adignidadedadiferenca às 18:07 link do post
05 de Fevereiro de 2011

 

 Velázquez, Infanta Maria Teresa, 1652

 

As mulheres de Velázquez e de Klimt, embora sejam o retrato bem delineado de uma camada focalizada da alta sociedade das respectivas épocas, traduzem, porém, nas composições destes, o fim da esperança, o espelho da decadência, a inquietude, a impotência perante a realidade opressiva, e uma certa dose de resignação. Se Velázquez é, em rigor, um dos mais expressivos e geniais pintores clássicos, Klimt consegue, contudo, estabelecer novas coordenadas estéticas e imprimir uma dose significativa de erotismo e sensualidade que confere às suas personagens a expressão perfeita desse obscuro objecto de desejo que Buñuel tão bem aprofundou no seu cinema. Encobertos por uma doce, apaziguada e decorativa aparência, descobrem-se nelas olhares tensos, vibrantes e hipnóticos, entrelaçados numa relação ambígua com os sentimentos mais impetuosos de quem as observa.

  

Gustav Klimt, Retrato de Fritza Riedler, 1906

 

publicado por adignidadedadiferenca às 00:02 link do post
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